Por ocasião do centenário do nascimento de São João Paulo II, que ocorreu no passado 18 de Maio, o Papa Francisco prefaciou um livro para os mais novos sobre Karol Wojtyla, em que disse: “Foi um extraordinário educador de muitos jovens que, através dele, quando era um padre novo, foram introduzidos na fé concreta, testemunhada, vivida em todos os momentos da vida”. Joseph Ratzinger, que sucedeu a João Paulo II na sede romana, também quis evocar o seu antecessor, escrevendo uma carta ao Cardeal Stanislaw Dziwiz, que durante quarenta anos foi o secretário de Karol Wojtyla.

Estes testemunhos, do actual Papa e de quem foi um dos mais próximos colaboradores de São João Paulo II, foram, decerto, a melhor homenagem que, neste centenário do seu nascimento, podia ter sido prestada a Karol Wojtyla.

Em 1981, três anos depois da sua eleição como sumo pontífice, São João Paulo II nomeou o cardeal Joseph Ratzinger prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Coube ao futuro Bento XVI a árdua missão de zelar pela ortodoxia da fé católica, tarefa certamente difícil em tempos de crise da verdade e da autoridade, de relativismo doutrinal e moral. A lucidez e coragem do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dicastério da Santa Sé que alguns ainda equiparam à Inquisição e ao Santo Ofício, não foi bem recebida em sectores da sociedade, nem da Igreja. Uma certa imprensa gostava de apresentar o Cardeal Ratzinger como o ‘cardeal panzer’, ou o ‘pastor alemão’, e acusava-o de ser o máximo responsável de uma nova polícia do pensamento da Igreja católica. Foi também acusado de perseguir os teólogos que, por se terem incompatibilizado com a doutrina católica, foram proibidos de ensinar em universidades da Igreja, como Hans Küng e Leonardo Boff, que deixou a ordem religiosa a que pertencia e o sacerdócio.

A eleição de Ratzinger, como sucessor de São João Paulo II, não foi só um acto de reconhecimento do seu valor teológico e pessoal, como a tomada de consciência da necessidade de dar continuidade ao pontificado de Wojtyla. O magistério de Bento XVI confirmou quão certeira tinha sido a sua escolha: apesar do seu modo de ser tímido, quase acanhado, a excelência das suas reflexões é reconhecida por todos, católicos e não católicos.

Pelas razões que o próprio fez então questão de enunciar e que seria ocioso aqui repetir, Bento XVI entendeu que não devia continuar ao leme da barca de Pedro. Desde a sua renúncia, já não é Papa: o único Papa é Francisco, o seu sucessor. A designação de Papa emérito, mesmo que seja exclusivamente honorífica, pode induzir em erro, na medida em que sugere que há dois Papas na Igreja. (Para evitar equívocos, as intervenções de Joseph Ratzinger, anteriores e posteriores ao seu ministério petrino, deveriam ser referidas só por este seu nome, e o de Bento XVI apenas para o seu magistério pontifício).

Uma acusação recorrente contra São João Paulo II é a do seu alegado conservadorismo teológico e eclesial. Decerto, se a fé é um dom de Deus, que a Igreja não tem autoridade para alterar, pode-se dizer que o que se pede a um Papa, ou bispo, é que ‘conserve’ a fé. Claro que esta atitude de fidelidade ao depositum fidei não se opõe à sua necessária actualização, como aliás fez o Concílio Vaticano II, por via do famoso ‘aggiornamento’. Mas, como Joseph Ratzinger não podia deixar de sublinhar, o pontificado de São João Paulo II, mais do que conservador ou progressista, foi sobretudo fiel ao grande Concílio ecuménico do século XX.

São João Paulo II não só foi Papa muito novo, com apenas 58 anos, como foi também um jovencíssimo bispo: tinha tão só 38 anos quando foi nomeado auxiliar de Cracóvia, ascendendo depois a arcebispo metropolita dessa diocese polaca. Como recordou Joseph Ratzinger: “Para ele, como jovem bispo – bispo auxiliar desde 1958, arcebispo de Cracóvia desde 1964 – o Concílio Vaticano II converteu-se numa escola para toda a sua vida e o seu trabalho. As grandes perguntas que surgiram especialmente sobre o chamado Esquema 13 – logo intitulado Constituição Gaudium et Spes – foram as suas perguntas pessoais. As respostas desenvolvidas no Concílio mostraram-lhe o caminho a seguir para o seu trabalho como bispo e, depois, como Papa”.

É com algum dramatismo que Joseph Ratzinger se refere à “situação desesperada” da Igreja católica, quando Wojtyla é, inesperadamente, eleito sucessor de João Paulo I, que só foi Papa durante um mês. A morte súbita de Albino Luciani, que tinha sido patriarca de Veneza, fragilizou ainda mais a Igreja. O seu antecessor, São Paulo VI, viveu momentos muito difíceis, não só porque lhe coube a árdua missão de concluir o concílio ecuménico que São João XXIII tinha convocado e iniciado, mas também porque teve que fazer frente ao pós-concílio, em que a possibilidade de ruptura da unidade católica se concretizou no cisma tradicionalista de Mons. Lefebvre.

Como escreveu agora Joseph Ratzinger, “quando o cardeal Wojtyla foi eleito sucessor de São Pedro, em 16 de Outubro de 1978, a Igreja estava numa situação desesperada. As deliberações do Concílio apresentavam-se ao público como uma disputa sobre a fé, o que parecia privar a mesma da sua certeza indubitável e inviolável. Um pastor bávaro, por exemplo, comentando a situação, dizia: ‘No final, acolhemos uma fé falsa’. Esta sensação de que não havia nada seguro, de que tudo estava em aberto, foi alimentada pela forma como se implementou a reforma litúrgica. No final, tudo parecia factível na liturgia. Paulo VI tinha fechado o Concílio com energia e determinação, mas logo, uma vez terminado, viu-se confrontado com mais assuntos, sempre mais urgentes, o que finalmente colocou em escrutínio a própria Igreja. Os sociólogos compararam a situação da Igreja, nesse momento, com a da União Soviética sob Gorbachov, quando toda a poderosa estrutura do Estado por fim ruiu, quando se tentava a sua reforma.

Pela história do seu país, que sofreu a fugaz dominação nazi e a prolongada opressão soviética, Karol Wojtyla era um resistente e, por isso, ante os enormes desafios a que a Igreja estava submetida no início do seu pontificado, não reagiu com medo, nem com cedências ou compromissos, mas com o anúncio audaz da liberdade de Cristo.

Como agora escreveu J. Ratzinger: “Uma tarefa que superava as forças humanas esperava o novo Papa. Entretanto, desde o primeiro momento, João Paulo II despertou um novo entusiasmo por Cristo e pela sua Igreja. Primeiro, fê-lo com o grito da homilia de início do seu pontificado: ‘Não tenhais medo! Abri, sim, abri de par em par as portas a Cristo!’ Este tom, por fim, determinou todo o seu pontificado e converteu-o num tempo de renovação e de libertação da Igreja. Isto estava condicionado pelo facto de que o novo Papa provinha de um país onde o Concílio tinha sido bem recebido: não se tratava do questionar tudo, mas da sua alegre renovação.

Se uma imagem perdura na lembrança de todos os que tivemos a graça de conhecer pessoalmente São João Paulo II, é precisamente a da sua audácia e alegria. Não era apenas uma rocha que, como Pedro, confirmava os crentes na fé, mas alguém que, com o exemplo da sua vida santa e com o ímpeto das suas corajosas palavas, a todos animava continuamente a ir sempre mais longe no aprofundamento da fé e das suas libertadoras consequências espirituais, teológicas, sociais e políticas. O seu incentivo foi determinante em relação ao sindicato católico Solidariedade, que foi o instrumento providencial para a queda do regime comunista na Polónia. Foi sobretudo a Karol Wojtyla que a ex-URSS, e os países satélites, ficaram a dever o inestimável dom da liberdade.

Se, para os cristãos, Karol Wojtyla é, sobretudo, o grande santo com que Deus abençoou a Igreja na transição para o terceiro milénio da era cristã, para o mundo inteiro São João Paulo II é o extraordinário exemplo de um dos maiores campeões da liberdade e da defesa dos direitos humanos.