O Partido Socialista ainda não conseguiu digerir a derrota que Carlos Moedas infligiu a Fernando Medina. Lendo e ouvindo os vários dirigentes socialistas, assim como os comentadores e jornalistas que lhes são afeitos, percebe-se que o ódio ao actual presidente da Câmara de Lisboa é tal, que estão dispostos a todo o tipo de narrativas para o atacar. E eu percebo o medo: Moedas tirou do papel todos os projetos que o PS anunciava ciclicamente sem nunca cumprir e ainda fez mais alguns. Depois de mais de uma década de uma cidade governada para os turistas e os emigrantes ricos, cheia de obras faraónicas, de escassa utilidade, temos um presidente da Câmara que restaura bairros sociais (incluindo centenas de casas que o PS tinha deixado ao abandono e que o actual executivo arranjou e entregou), faz parcerias com as IPSS para inaugurar creches e finalmente faz qualquer coisa relativamente à enorme crise de sem abrigos que em Lisboa vive.
Por isso, para combater Moedas, o PS usa uma estratégia (aliás replicada do PS nacional) que é tentar colar o edil lisboeta ao Chega. Não deixa de ser engraçado que, depois de há quatro anos o argumento ser que Moedas era morno, agora o argumento é que Moedas é extremista. E passam de um para outro sem qualquer tipo de vergonha.
Foi por isso com enorme felicidade que os socialistas viram a notícia, com grande paragonas, que, segundo a PSP, a criminalidade em Lisboa tinha descido! Aliás, segundo o DN, reproduzido de maneira bastante acrítica pelos restantes meios de comunicação, a descida era histórica. Chegava finalmente a prova de que os alertas de Carlos Moedas sobre a segurança, apesar das mulheres violadas no Martim Moniz, apesar dos esfaqueamentos quinzenais na Rua do Benformoso, apesar do triplo homicídio em Santa Apolónia, eram falsos. O relatório da PSP seria a prova acabada que Lisboa estava cada vez mais segura e quem dizia o contrário era fascista.
Claro que o problema é, como dizia um político veterano, os números, desde que bem torturados, dizem o que nós queremos. O primeiro problema com o suposto relatório da PSP é que ninguém o conhece. O relatório não é público, nem sequer está finalizado. Aquilo a que o DN teve acesso foi a uma versão provisória do mesmo, que mais ninguém viu. E sobretudo, o relatório é dos casos participados. Ora, embora estes dados sejam importantes, não contam a história completa. Existem variados casos onde as vítimas não vão à PSP: por medo de retaliação, por desconhecimento ou por elas próprias terem problemas com a lei.
O segundo problema com esta fantástica notícia é que, quando vemos a famosa tabela que foi publicada, percebemos que houve de facto uma descida da atividade de carteiristas e burlões, mas que houve um aumento de crimes como ofensas à integridade física e existem outros crimes para os quais o DN não se dignou dar os números, como os de violência sexual ou homicídios.
Existe ainda mais um problema que dificulta a narrativa de que Lisboa está mais segura, é o aumento da criminalidade em várias zonas da cidade. Por exemplo, Benfica regista o maior número de crimes dos últimos sete anos e a Baixa voltou a valores que não se viam há dez anos.
A somar a tudo isto, convém ainda alertar para um facto que não entra nas estatísticas da PSP, mas que aumenta a insegurança da cidade, que é o regresso em força da toxicodependência. Penso por exemplo, na zona da estação de Sete-Rios onde se tornou habitual encontrar seringas no chão.
Tudo resumido, o relatório provisório da PSP prova que houve menos crimes contra o património, mas parece mostrar um crescimento em crimes contra a integridade física, reconhece que há zonas da cidade que estão de facto mais perigosas e não inclui (por razões evidentes) perigos como crianças a brincar em locais com agulhas infetadas. Ou seja, o relatório não diz o que o PS quer que ele diga (o medo de andar na rua não é provocado por carteiristas e burlões), mas deixa alguns indicadores que vão ao encontro dos alertas feitos por Carlos Moedas.
O PS está disposto a tudo para reconquistar a Câmara de Lisboa e assim poder voltar à sua vida de anunciar grandes empreitadas vezes repetidas e inaugurar diversas vezes a mesma obra, de forma a garantir sempre uma narrativa positiva na comunicação social. Só é pena que neste seu desespero esteja disposto a torturar números e a ignorar os problemas de segurança dos lisboetas. Penso que em setembro irão ter uma surpresa, quando perceberem que os eleitores preferem a realidade à narrativa.
Jurista