Um grande filósofo do século XVII disse que do futuro não sabemos nada porque ainda não é, mas que normalmente não hesitamos fazer do passado um futuro. Em política, como na vida, não podemos alterar o nosso passado. A tentativa de o fazer, com mentiras e propaganda, é infelizmente uma prática constante dos governos totalitários. Além disso, não são poucos os governantes democráticos a subverter o espaço público para nos mentir impunemente sobre o passado, de Pedro Sánchez a Donald Trump, passando por António Costa. Mas para quem ainda acredita numa política com o mínimo de escrúpulo pela verdade dos factos – pelo menos, por essa – este exercício merece os anátemas próprios de uma sociedade livre.
É compreensível, porque a política não é feita de anjos para anjos, que os seus profissionais procurem limar e recompor este ou aquele detalhe mais inconveniente do passado. É preciso recordar que tudo depende da dimensão do detalhe e da inconveniência. Mas é de bom tom, porque dá ar de profissionalismo, admitir-se que os imperativos das estratégias eleitorais ditem muitas vezes compromissos duvidosos. O que já desafia a paciência da razão é quando tudo isto colide de frente com os objectivos políticos principais. É o caso da candidatura de António José Seguro.
Quando Seguro se candidatou à Presidência da República não custou muito perceber que se tratava de uma candidatura contra o passado recente que as circunstâncias actuais permitiam. Em 2014, Seguro foi ignobilmente escorraçado por António Costa e pelos (então) fiéis de José Sócrates. Costa apresentava-se como um campeão eleitoral contra o apagado Seguro que não conseguira afirmar-se como figura nacional plausível mesmo em tempos tão difíceis para a governação do primeiro-ministro Passos Coelho. Não se sabia bem porquê, mas era pérola de sabedoria da chamada “bolha mediática” que, com Costa, o País viria todo de arrasto nas malhas socialistas, ao passo que com Seguro nada se obteria. Costa e os (então) fiéis de Sócrates sonhavam com a vingança por 2011 – a troika e a derrota eleitoral – e não estavam confiantes de que com Seguro essa vingança finalmente se consumasse. Foram derrotados copiosamente nas eleições de 2015, mas, como sabemos, a Geringonça salvou todos os opositores de Seguro – com a excepção de Sócrates, que acabaria abandonado por eles, a começar por Costa e a acabar no longo elenco de ministros que se seguiu até 2024.
Em 2025, Costa é, na mais benevolente das possibilidades, ignorado pelo País – e, na pior, execrado por ter legado problemas intratáveis ao povo que o elegeu e reelegeu, desde a habitação à saúde, da imigração à educação. Com eleições presidenciais de candidatura unipessoal estava aberto o caminho para Seguro sair do seu silêncio ininterrupto de quase 10 anos e regressar à política contrariando os seus inimigos no PS. Estes lá tentaram evitar este regresso. Augusto Santos Silva deu a cara por todos os viúvos da geringonça, que são no fundo os viúvos de Sócrates e tiveram em Costa uma espécie de padrasto provisório. Deu a cara quando por duas vezes, no tom que lhe é habitual de arrogância e sectarismo, menosprezou Seguro reduzindo-o a um megafone de “banalidades”. Acontecia que Seguro tinha finalmente uma parte do País disposto a escutá-lo depois de morto e enterrado o deslumbramento com Costa – muito dele forjado mediaticamente, como já estamos habituados. E perante uma crise grave em que o PS, depois de abrir todas as gavetas poeirentas e descerrar todas as caves bafientas, não foi capaz de avançar um nome que evitasse Seguro. Seguro era, assim, por falta de comparência de todos os outros, o candidato natural da esquerda não-extremista.
E o que fez Seguro com esta oportunidade? Começou por não ser capaz de responder com inteligência e perspicácia à pergunta simples que lhe fizeram. Seguro é “de esquerda”? Um homem que passou a sua vida desde a adolescência a apregoar a sua pertença à esquerda hesitou em categorizar-se como sempre se categorizou. Poderia alguma mudança no seu perfil ético-político explicar isso? Não. Dias depois, com as críticas que se avolumaram, Seguro lá veio com a designação estafada da “esquerda moderna e moderada” para se caracterizar a si mesmo. Era melhor do que nada. Mas era tarde demais. Em campo estavam já candidaturas da esquerda radical e da extrema-esquerda participantes na Geringonça que proporcionavam escapes previsíveis para o voto secreto das viúvas socialistas dessa Geringonça. Sobretudo Catarina Martins, mas também António Filipe, formam candidaturas de alívio das tenras consciências e duros ressentimentos de muitos socialistas que suspiraram por Sócrates e depois pela Geringonça. Com a hesitação de Seguro passaram a ter um argumento formal para rejeitar publicamente o voto nele – uma alma de esquerda não vota em alguém que não é capaz de imediata e entusiasticamente se dizer “de esquerda”. Entretanto, António Filipe e Catarina Martins previsivelmente não têm batido noutra tecla.
Como se não bastasse, os apoiantes de Seguro voltaram a dar circulação ao momento passado em que putativamente o então secretário-geral do PS teria dito “não” a Mário Soares, quando Cavaco Silva propôs negociações ao mais alto nível entre o governo de Passos Coelho e o PS para ultrapassar a crise aberta pela decisão “irrevogável”, infantil e ainda por esclarecer, de Paulo Portas no Verão de 2013. Acontece que, com mais ou menos telefonemas acalorados entre Soares e Seguro, o resultado foi evidente. Cavaco Silva ofereceu o governo a Seguro em troca de um acordo para concluir o programa de assistência financeira até ao seu término em 2014. Seguro seria certamente primeiro-ministro no Verão de 2014. Mas foi realmente Seguro quem acabou abortar qualquer acordo, coisa que, a mim, nada surpreendeu naquela época. E esse aborto foi o produto de Seguro ter tentado apaziguar a ala socretista dentro do seu próprio partido, de que Costa fazia naturalmente parte. O que Seguro precisava de ter feito naquele Verão para ser primeiro-ministro era simples: romper com os seus inimigos internos e ir até às últimas consequências. O tal “não” ao telefone com Mário Soares foi, no final, um “sim, fiquem comigo, por favor, e eu farei o que vocês exigem”.
Seguro já não tem muito tempo para reconstruir a sua candidatura. Mas um bom ponto de partida está em aprender com as lições do passado, e não mistificá-lo.