João Miguel Tavares escreveu recentemente que toda a gente usa a palavra “sistema” sem a definir, e que mesmo André Ventura — o seu mais fervoroso adversário — nunca se deu ao trabalho de explicar o que quer destruir. Começo por concordar: é verdade que muitos usam “sistema” como se usavam os demónios no século XIII: um ente abstrato que justifica tudo o que falha. Também é verdade que se abusa da ideia de “anti-sistema” como escada para subir sem nunca dizer para onde se vai. Mas o problema não é esse. O problema é que o sistema existe mesmo. Não são as regras formais da democracia que parecem estar em causa, pelo menos nalguns casos. Há partidos que, de forma mais ou menos aberta, preconizam mudanças radicais na construção constitucional, o que não é anti-democrático; como há partidos que nunca se inibiram de recuperar os velhinhos truques do terrorismo político com o intuito expresso de destruir aquilo a que chamam, ainda hoje, de democracia burguesa, o que pode ser problemático, embora continuem a beneficiar da placidez contemplativo-romântica do jornalismo e da cultura do sistema. O sistema tornou-se, e essa percepção vem sendo cada vez maior, aquilo que se rejeita. E ele existe, de facto, como um polvo mais ou menos oculto, uma cultura visível, uma prática instalada, um hábito enraizado de proteger os mesmos e catapultar todos os que se lhe rendem e prestam vassalagem.
O sistema não é, ao contrário do que afirmou Marques Mendes, a ética na vida pública. É, entre outras coisas, precisamente o seu contrário, na medida em que o sistema é, por natureza, um complexo de práticas comuns e banalizadas – e a ética na vida pública está longe de o ser. O sistema não é apenas quem está no poder político, no poder funcionalizado, no poder mediático ou outro. O sistema é quem se perpetua em qualquer um deles sem mérito, sem escrutínio e sem convicções. É a cultura de não escolher para não errar. É a língua de pau dos partidos, e as suas incapacidades de lidar com o pior que por eles circula. É o inútil promovido a vereador, a presidente de câmara, a deputado, a director regional disto e daquilo, a administrador hospitalar, sempre por via do cartão partidário. E, sobretudo, o facto de quase tudo se ter tornado um círculo fechado.
O sistema são os partidos que produzem dirigentes como se produzem ervas daninhas. O sistema é o Estado feito casa de empregos para os amigos. É a elite que só sobe por dentro do aparelho. É a academia colonizada por agendas de poder e de activismo esquerdista e doutrinador. É a informação convertida em entretenimento permanente. É a política onde só se sobrevive se se fingir que se acredita em tudo — e se tiver o bom senso de não acreditar em nada.
Vejamos: André Ventura não é anti-sistema. É a peça talentosa que o sistema desperdiçou, e que descobriu que havia algo por explorar na sociedade portuguesa, onde encontrou um exército, e em boa parte dos renegados dos partidos do sistema, onde encontrou tenentes: o ressentimento daqueles a quem o sistema fechou as portas. Por várias vias: tanto porque o elevador social está estagnado, como porque os partidos do sistema passaram a viver numa lógica de espaços fechados, onde nem todos estavam aptos a entrar, e por diversas razões. O que é certo é que a ideia de que o sistema apodreceu vingou. E com absoluta razão. Fingir que o sistema é só uma ilusão retórica dos demagogos também é colaborar com ele. É o conforto dos cínicos: achar que tudo é igual, e que criticar não vale a pena porque a crítica foi sequestrada por gente pior. Isso é desistir do pensamento e transformar o comentário político numa marquise moral. São os megafones do sistema, e deles também o país está farto.
Coisa diferente é saber se Ventura é mesmo a chave da reviravolta do sistema, ou se é apenas o sistema por outros meios e acabará por ser, ele próprio, mais um fracasso e um frustrador de expectativas. Facto é que o sistema o adora e o promove continuadamente. É isto o anti-sistema?
O almirante Gouveia e Melo, insuflado como a rã da fábula, convenceu-se de que, uma vez estendida a passadeira vermelha pelo sistema, o caminho para Belém seria fácil se se mostrasse como o candidato que não é do sistema – porque o sistema é hoje tóxico – sem ser, contudo, boçal, grotesco, taberneiro, e passando a usar casacos à civil que fazem lembrar a farda de outrora. [Um aplauso à assessoria do almirante, que tem brilhantemente preenchido em marketing o vazio absoluto do candidato.] Ventura trocou-lhe as voltas e apresenta-se a eleições. E disputam agora o lugar do candidato mais anti-sistema: Ventura porque pretende personificar a ruptura total, o que é falso; Gouveia e Melo porque se convenceu de que não ter passado partidário lhe confere algum tipo de autoridade, como se ser apoiado pelo dono de um dos maiores grupos de media do país, quando o seu mandatário é Rui Rio, quando as filas da frente dos seus apoiantes são dirigentes ou ex-dirigentes, maioritariamente caídos em desgraça nos próprios partidos, sugerisse alguma independência. Que diabo, que candidatos presidenciais têm sido mais levados ao colo pela comunicação social, jornalistas e comentadores, do que Gouveia e Melo, André Ventura, ou mesmo Cotrim Figueiredo ou o agora único candidato oficial do sistema, Marques Mendes?
O sistema não se define porque é um estado de coisas. A que o país, em geral, devia reagir. Não por ódio, mas por vergonha. Só que em Portugal, mesmo a maioria zangada com o sistema não sente vergonha desse mesmo sistema. Vive apenas ressabiada por não ter espaço nele. Gouveia e Melo e Ventura são o fora-do-sistema e o anti-sistema que o sistema adora. Curiosamente, de todos os candidatos em melhor posição para passar à segunda volta só sobra um que o sistema de facto despreza. Nem o próprio partido que liderou o abraça convenientemente. As elites do PS detestam-no. Nem as televisões o adoram. Os comentadores acham-no aborrecido, sem carisma (porque o sistema adora o carisma, e come à mesa com ele), e não raros não lhe perdoam a falta de solidariedade para com o sistema – nas vestes do socratismo, do costismo e do lambe-botismo do costume. De facto, a quem quiser mesmo ter um presidente independente, que o sistema detesta ou despreza, não lhe sobra muito mais do que António José Seguro. É a vida.