O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, atribuído a 3 de Maio, mereceu um Voto de Saudação apresentado pelo PS à Assembleia Municipal de Lisboa. Só lhe faltava ter sido escrito em papel azul de vinte e cinco linhas, se o PS fazia questão de provar o seu atraso de vida. Em seis parágrafos, dois foram gastos a descrever e objurgar a censura do Estado Novo. E dos dois pontos votáveis da parte deliberativa, um destinava-se a felicitar o anti-fascismo. Tornou-se um partido oficialmente anacrónico. Sobre o tempo em que vivemos, o PS não tem nada a dizer.
É condição necessária que, em democracia, e até para que se possa chamar “democracia”, exista uma imprensa livre. Portugal não tem, neste capítulo, grandes lições a dar ao mundo. A imprensa passou a incluir, com força redobrada, a televisão. O que temos é uma imprensa dependente do Estado. Se pensarmos nos grandes jornais do regime e, sobretudo, nos canais televisivos de informação, o panorama é de promiscuidade pública e notória. Todos os canais televisivos vivem da troca de gentilezas e boas-vontades com os decisores políticos do momento, ou com aqueles que os directores de informação acreditam que vão continuar a mandar. É o caminho aberto para uma opinião sincronizada em vez de livre; e para um alheamento malsão da realidade, como aliás se comprovou na maneira como foram cobertas e comentadas as eleições legislativas de 18 de Maio. A natureza da imprensa em Portugal, exceptuando alguns jornais e nenhuma televisão, não garante um bom serviço à democracia.
Por outro lado, a quezília dos media contra as chamadas “redes sociais” mostra três deturpações preocupantes. Primeira. Põem-se em pé de igualdade e consideram-se rivais uns dos outros. Segunda. Não confiam em que o público reconhece no jornalismo uma credibilidade especial. Os próprios media deixaram de confiar em que os consumidores vêm nos jornais e televisões oficiais uma espécie de selo de garantia. Eles próprios, os jornalistas, reconhecem essa falta de confiança. Impressiona a maneira como aceitam a sua humilhante reputação com toda a naturalidade.
Terceira deturpação. Os media têm receio que os consumidores façam na internet (como agora podem) a verificação da informação jornalística. E com razão. As pessoas precisam demasiadas vezes de recorrer à internet para verificar a desinformação que os órgãos informativos formais, reputados como jornalísticos, transmitem. O caudal de “factos” errados, deturpados, insuficientes, instrumentalizados ao serviço do pensamento oficial do regime, apresentados como a verdade revelada e cujo contraditório é tomado por “fascista” tornou-se a nossa vida habitual.
Se não existisse a Fox, e a GB News, os podcasts, por exemplo, de Joe Rogan ou de Konstantin Kisin, a Spectator e respectivo canal no YouTube, e a possibilidade de subscrever estes meios por troca de uns euros abençoados, nunca um cidadão português poderia compreender o que se passa na América. E, por consequência, o que se passa no mundo ocidental. Teria do presidente Trump a caricatura canhestra e furiosa que as televisões portuguesas, e o Público, e o Expresso, nos querem fazer engolir. Pensaria que a universidade de Harvard era ainda um lugar de livre pensamento e grandes alturas intelectuais, e não uma máquina produtora de mesmice, mais ou menos medíocre, mais ou menos fanática, insuportavelmente santarrona. E acharia que a administração Trump devia estar disposta a pagar com dinheiros públicos a instrução, numa universidade privada, de fornadas de idiotas anti-semitas e apoiantes das hordas facínoras do Hamas.
O prestígio de um país e de uma nacionalidade quase pode ser deduzido a partir da qualidade do seu jornalismo. Há boas razões para os media pensarem duas ou dezenas de vezes antes de insistir na maneira como se vêm comportando nos últimos anos em Portugal. Insisto, acima de tudo, no declínio do jornalismo nos canais televisivos. Ver o país associado à reputação deles dá vontade de chorar.