A política parece nascer da nossa necessidade de organização enquanto sociedade, do nosso apelo para pertencer a algo maior do que nós. Racionalmente, inventámo-la para servir os nossos interesses, para que os direitos e os deveres de cada indivíduo deem um sentido ao nosso papel em sociedade. No plano utópico, a política orientaria a nossa vida para uma espécie de apoteose ética e moral. No plano da realidade, a política é feita de falta de ética e de narrativas onde a moral final nem sempre existe. Mas como qualquer coisa onde o ser humano esteja implicado, a política não resiste a um dos debates mais antigos da humanidade: razão vs emoção. E será que hoje vamos votar com o coração?
Já alguns estudos se debruçaram sobre a compreensão do voto como ato emocional. Num estudo de 2017, de Michael Bruter e Sarah Harrison, Professores de Ciência Política, confirma-se aquilo que tem andando nas bocas de toda a gente em Portugal. Segundo o estudo, 20 a 30% dos votantes mudam a sua decisão, ou só se decidem, na semana da eleição; cerca de metade fazem-no no dia da própria eleição. Para além disso, 51% dos votantes relatam sentir raiva daqueles que votam diferente deles e 46% admitem mesmo experienciar um certo nível de repugnância.
Somos seres dotados de uma emocionalidade extrema, é a nossa maior vulnerabilidade, mas também um dos nossos maiores trunfos. Basta ver o que acontece nas campanhas. André Ventura tenta sempre chocar-nos, apelar ao nosso espanto, à nossa surpresa, à nossa capacidade de derrotar o “Mal” com a crença de que somos o “Bem”. João Cotrim de Figueiredo tentou seduzir-nos, praticou todos os desportos possíveis nas redes sociais, fez-nos acreditar que manter o espírito jovem é o poço da vida eterna e do sucesso. E talvez até aqui possamos encontrar uma explicação para a subida a galope de António José Seguro nas sondagens. Contas certas só depois de as urnas fecharem, mas perante candidatos que apelam a emoções extremas e tempestuosas, Seguro parece ter tentado apelar a um conforto emocional, essencial para a sobrevivência. No fundo, apelou à necessidade básica de segurança, não fosse ela mesma uma das bases da pirâmide hierárquica das necessidades humanas, de Maslow.
O voto num candidato pode ser uma espécie de vinculação, como aquela que começamos por sentir com os nossos pais e, mais tarde, nas relações amorosas. Não deixa de ser curioso fazer este paralelismo. Na psicologia, os tipos de vinculação mais comuns são a segura e a insegura (esta última dividida em vários subtipos). Todo o caminho percorrido até aqui, por cada um dos candidatos, traça uma relação emocional com os seus potenciais votantes. Talvez o jovial e irónico Manuel João Vieira estivesse mesmo a dar uma dica amigável aos candidatos do sistema quando prometeu “um psicanalista para cada português”.
Por exemplo, terá a acusação de assédio sexual a João Cotrim de Figueiredo criado um corte na vinculação emocional que começou a estabelecer com os seus potenciais votantes? Os resultados dar-nos-ão a resposta. Seja como for, o culminar deste caso avivou a componente emocional da campanha política. À presunção de inocência, todos temos direito, e a fazer queixas de assédio sexual também. Deste caso, parece surgir uma verdade emocional: a facilidade de muitos em ter certezas com tal fervor emocional, mesmo sem ter estado no lugar que lhes pode conceder o poder da verdade.
Ser ou não ser (presidente)? Shakespeare, pai de tantas personagens que vimos perder a razão em detrimento da emoção, sabia que o ser humano tem uma capacidade infinita para se deixar corromper. Num artigo de 2022 (Cunha e Dias), sobre a visão shakespeariana do homem político, faz-se uma comparação curiosa entre um excerto de Hamlet e o populismo quando o próprio Hamlet diz “(…) o meu tio é rei da Dinamarca, e os que lhe faziam caretas de desdém quando o meu pai era vivo dão agora vinte, quarenta, cinquenta, cem ducados cada pelo retrato dele em miniatura. Pelas chagas de Cristo, há aqui algo que excede o natural, soubesse a filosofia descobrir o quê.”
Será que o nosso sentido de voto também excede o natural? Haverá algo inexplicável na forma como decidimos votar? E será que as nossas emoções mais primárias e os nossos sentimentos mais profundos nos fazem ficar cegos na defesa do nosso candidato, como fazemos com os nossos amantes? Hamlet confronta-se com a dura realidade de que um ser humano um dia diabolizado pode vir a ser endeusado, e vice-versa. Será que o melhor candidato é aquele que não se deixa diabolizar nem endeusar? Ou será antes aquele que se deixa ser diabolizado e endeusado ao gosto das marés? Dito isto, resta saber quem é o próximo que uns vão gostar de endeusar e outros de diabolizar.