Havia em casa dos meus avós um candeeiro de parede. Era de vidro, acendia-se com um fio de algodão que puxava com a minha mão de cinco anos. Estranhei que, tantos anos depois, me tivesse comovido a lembrar-me de uma coisa insignificante como um candeeiro. Mas subitamente deu-me uma vontade incontrolável de o acender e ficar a ver a luz que dava, através do vidro fosco, uma luz amarelada que, em menina, me parecia elegante, como eu achava que era a minha avó (todas as coisas elegantes eram a minha avó para a criança que fui, o maço de cigarros, as pérolas, que raramente usava, as camisolas de malha, o cheiro do cabelo liso, acabado de secar). O candeeiro era apenas isso, um candeeiro, não há mais nada a dizer. Recordo-me do último dia em que o vi, quando visitei o apartamento dos meus avós após a sua morte, estava este a ser esvaziado. O candeeiro lá estava. Nenhum de nós o reclamou. Foi levado pelos rapazes da empresa de mudanças e talvez posto no lixo ou vendido na feira da ladra.
Mas hoje foi o candeeiro, e a minha mão pequena a acendê-lo, essa coisa de nada, deu-me umas saudades estúpidas do candeeiro da minha avó, sei lá porquê.

Não sei o que é a memória. Às vezes, sinto que inventei o meu passado, que nada do que me lembro que terá ocorrido na minha vida é verdade. A minha infância: tudo inventado. Passei uma borracha sobre certos nove anos da minha vida, anos sofridos. Nem quando sonho tenho alguma vez essa idade, fui boa a enterrar essas tristezas. Uma vez, disseram a meu respeito, pejorativamente, que em mim tudo é história. Foi o maior elogio que me podiam ter feito.
Procuro a casa dos meus avós procurando apartamentos semelhantes, igualmente robustos, seguros, dos anos oitenta, noventa, cuja compra encaro em certos momentos de devaneio como a solução de todos os males, no fundo alguma coisa em mim acredita que se pudesse um dia voltar a entrar ou a viver no apartamento dos meus avós se traçaria uma linha, irremediavelmente esfumada, entre aquela mão de cinco anos e a minha mão de hoje, uma linha da mão ao coração, que me salvasse, que nos salvasse, de tudo, o que não pode jamais acontecer.

De vez em quando, normalmente no Verão, normalmente em dias vazios, apetecia-me voltar a ser criança durante um mês e estar durante esse mês aos cuidados da minha avó, que era quem me deitava na cama, me deixava ler sozinha durante meia hora e vinha rezar uma Ave-Maria comigo antes de me ajeitar a colcha, dar-me um beijo na testa, e apagar a luz.

E então o candeeiro, acender hoje o candeeiro de vidro fosco, pendurado na parede da sala da casa onde cresci, ver a minha vida sob a sua luz amarela, mais amarela porque as paredes da sala estavam escurecidas pelo fumo dos cigarros da minha avó, o candeeiro aparece como metonímia da possibilidade de ver a minha vida à luz da minha infância e, num devaneio maior ainda, da possibilidade de ver o mundo em que vivemos a essa luz.
Naquele tempo, eu acreditava em fadas e em duendes e em bruxas e em diabretes. Não sei o que seria ver o mundo agora de acordo com as mãos com que folheava os contos que lia nesse tempo antes de me deitar.
Quase agarro o fio do candeeiro, é o que sinto, por vezes, ao escrever, quase o agarro na minha mão, quase o acendo. Mas na maioria das vezes não tenho força para tão singelo fio de algodão.