Escrevo este artigo no dia em que se iniciou a vacinação dos bombeiros contra a Covid-19. Estou muito satisfeita com isso, como fiquei com a “atribuição” da coordenação do Plano de Vacinação aos militares. Foi uma boa opção.

A vacinação da população, com impacto global e transversal, é fundamental para o nosso sucesso enquanto comunidade. Precisamos de imunidade de grupo. Assegurar que este objetivo se atinge com a maior rapidez possível é uma meta (eme)(u)rgente.

Sou sempre favorável à humildade do reconhecimento dos erros e à introdução de correções para os eliminar ou mitigar. É isso que estamos a tentar fazer. Corrigir erros. Erros de planeamento e erros de organização e gestão.

Estamos a tempo? Estamos, mas esse tempo não apaga a realidade dos números de todos aqueles que podíamos ter salvo e que não fomos capazes de o fazer.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Não fomos capazes porque errámos. Claro que só não erra quem não faz. Mas quem erra a este nível tem de ser capaz de se responsabilizar por esses erros.

Errámos, quando afrouxámos no Natal para tentar injetar oxigénio na economia, em vez de seguir o exemplo de outros que fecharam e, por falar em oxigénio, assegurarmos que não faltava capacidade aos hospitais para o fornecer aos doentes.

Errámos, quando fomos dos últimos a fazer um Plano de Vacinação, repleto de lacunas de interpretação, suscetíveis de se verificarem os vergonhosos abusos a que temos vindo a assistir.

Errámos, quando não respeitámos a censura social desses abusos como o principal motivo para os corrigirmos, ética e politicamente, e nos escudámos na justiça para o fazer. Os que prevaricaram, enquanto líderes máximos de instituições do Estado, inclusive da área da saúde, minando a confiança dos cidadãos nessas instituições e no poder executivo, deveriam ter sido responsabilizados. Não foram. Castigados, foram apenas os que denunciaram e os pequenos.

Errámos, quando não nos preparámos, durante mais de nove meses, para estes impactos da pandemia, porque não quisemos ouvir as piores previsões dos números, já conhecidas em março de 2020, e, em vez disso, optámos por diabolizá-las e ignorá-las.

Errámos, quando resistimos, há décadas, em considerar a rubrica orçamental do Serviço Nacional de Saúde como despesa, em vez de investimento.

Errámos, quando não acautelámos o protocolo com os hospitais privados para responder à segunda vaga e quando não contratámos enfermeiros com vista à sua fixação no SNS. Em vez disso, apresentámos propostas de contratos de trabalho precários, de quatro meses, por valores pagos à hora vergonhosos.

Errámos, quando não melhorámos as condições salariais dos médicos em geral, e no interior do país em particular, para os atrair e fixar no SNS.

Errámos, quando não estabelecemos acordos com entidades hoteleiras para servirem de retaguarda a surtos em lares, ou outros, e assim termos salvo muitos dos nossos velhos. Ou quando não “reciclámos” desempregados para apoiarem estas estruturas, legislando no sentido da dignificação salarial e funcional desta profissão.

Errámos, quando burocratizámos o acesso das famílias e das empresas aos apoios necessários para conseguirem sobreviver, descurando a incompatibilidade, entre o “ter dinheiro no bolso para comer” e o “preencha vinte papéis, em várias instituições, que o recebem por marcação lá para meados do mês”.

Erramos, quando influencers fazem festas privadas ou quando insistimos em não respeitar o confinamento.

Errámos e continuamos a errar, mas aqui e ali, vamos corrigindo, o que é bom!

Está claro, honra seja feita a este vírus maldito, que ao menos serviu para isso, para perceber que sem saúde não há economia. Sem saúde não há educação. Sem saúde não há igualdade de oportunidades. Sem saúde não há justiça. Sem saúde não há coesão social. E sem saúde pomos em risco a democracia.

E acertámos. Sim.

Acertámos e acertamos, quando continuamos a contar com o profissionalismo e dedicação dos profissionais de saúde que não desistem; quando os que perderam o seu sustento aguentam, estoicamente, sem se rebelar; quando nada abala a solidariedade do grande povo que somos – que se mobiliza em massa para dar sangue ou para salvar um casal com filhos de viverem num parque de campismo – quando os bombeiros e as forças de segurança dizem presente; quando os pais e mães que trabalham e educam em casa, com todas as dificuldades inerentes a essa realidade mirabolante, persistem; quando aqueles que asseguram que não falta nada nos supermercados, ou na higiene e limpeza das ruas, ou na comunicação e energia, não vacilam; quando aqueles que dão o seu melhor na resposta técnico-científica a esta pandemia, são farol; quando alguns que decidem têm a humildade de reconhecer os erros e voltar atrás e, claro, quando a esmagadora maioria dos Portugueses respeitam o confinamento e prestam, com isso, a sua derradeira homenagem a todos os que padeceram nesta pandemia.

E estes são os acertos dignos do nosso reconhecimento e da nossa gratidão!