Temos de ser capazes de levar até ao fim uma autocrítica. E a verdade é esta: às vezes, neste país, fazemos todos figuras ridículas. Andamos há anos a levar a sério o autointitulado Índice de Perceção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional, mas esta semana exagerámos — com a divulgação da edição mais recente desse ranking, entrámos em hiperventilação política. O núcleo nativo da organização informou-nos, acendendo várias luzes de alerta, que “o desempenho de Portugal foi um dos piores da Europa Ocidental, com uma queda de 4 pontos na pontuação e a perda de 9 posições no ranking global”. Arrepiem-se: “Este é o pior resultado desde que o índice começou a ser publicado em 2012 e reflete um declínio contínuo desde 2015.” Perante isto, até o Presidente da República se inquietou. Sentindo palpitações, Marcelo Rebelo de Sousa comunicou à pátria que esta evolução “é preocupante”.

Percebe-se que os políticos se ponham em sentido, metafórica e literalmente. Afinal, este Índice de Perceção da Corrupção apresenta-se como um ranking que avalia 180 países e a Transparência Internacional tem sede em Berlim, o que lhe dá maior respeitabilidade. Ninguém quer fazer má figura à frente dos alemães. O problema é quando começamos a olhar para os detalhes, como o Observador faz neste artigo depois de, na RTP, o jornalista Daniel Catalão ter produzido algumas perguntas certeiras.

Num dos estudos usados para elaborar o ranking, dois “especialistas” respondem a perguntas que têm tanta ligação à corrupção como à arquitetura de interiores. Por exemplo, esta: “O governo está comprometido com o objetivo de atingir a neutralidade carbónica até 2050?” Ou esta: “O governo está comprometido com o objetivo de preservar os ecossistemas e proteger a biodiversidade?” Ou ainda esta: “O governo está comprometido com o objetivo de efetuar a transição para uma economia circular?” Todos queremos salvar o planeta, proteger os passarinhos e trocar a sola dos sapatos em vez de os deitar fora e comprar uns novos. Mas, por mais estimáveis que sejam a neutralidade carbónica, a preservação dos ecossistemas e da biodiversidade e a transição para uma economia circular, torna-se difícil compreender que relação têm com o aumento ou a diminuição da corrupção num determinado país — se calhar, essa dificuldade deriva do facto de não terem relação absolutamente nenhuma.

Outro ponto que foi considerado relevante neste Índice de Perceção da Corrupção é o seguinte: “Em que medida o governo conduz avaliações de qualidade para medir os potenciais efeitos da legislação que produz, antes de ela ser implementada?” Naturalmente, estas avaliações deveriam ser feitas de forma regular, para evitar que os ministros tomem decisões baseadas apenas na fé de que a medida A vai produzir o efeito B. Mas, mais uma vez, isso não tem nada a ver com aquilo que a Transparência Internacional nos diz que pretende avaliar. Como é evidente, um governo pode ser incompetente, mas não ser corrupto.

A isto soma-se um detalhe que pode provocar riso ou estupefação, consoante o estado de espírito em que nos encontremos. É que este ranking é elaborado pela Transparência Internacional, mas não tem transparência nenhuma. Segundo nos dizem, na fase final do processo, entram em ação quatro peritos. Mas as suas identidades não são conhecidas. A organização defende o secretismo invocando razões de privacidade e segurança. São, obviamente, argumentos fracos. Em relação à privacidade, é simples: quem quer uma vida anónima, fica em casa. Em relação à segurança, é absurdo: que risco pode credivelmente correr um especialista que está instalado de forma confortável num escritório em Berlim? Alguém acredita que o Sudão do Sul, que ficou no último lugar do ranking, se quereria vingar do fraco resultado que obteve e cogitaria enviar um comando clandestino para a Alemanha com o objetivo de repor a honra dos seus conterrâneos com recurso à violência?

Em toda esta história, há ainda espaço para a ignorância. Os responsáveis da Transparência Internacional em Portugal acham que Paulo Trigo Pereira (académico e colunista do Observador) colaborou na elaboração do índice — mas ele nega. Os mesmos responsáveis juram que o ranking não utiliza questionários diretos aos cidadãos porque isso seria impossível — mas o índice usa, sim, esses questionários.

Este é um episódio que serve de exemplo e de aviso: uma organização que se diz transparente, mas que não pratica a transparência, divulga um índice de corrupção, mas que não avalia apenas a corrupção, e esse documento é depois comentado por dirigentes dessa organização que não sabem do que falam e leva um Presidente da República que emite opiniões sobre tudo a fazer afirmações que não valem nada. É como eu dizia: às vezes, neste país, fazemos todos figuras ridículas. Mas convém que tenhamos a capacidade de aprender. Quando, no próximo ano, a Transparência Internacional nos voltar a tentar vender o seu índice de corrupção, devemos todos soltar um suspiro, libertar um bocejo e evitar estender um microfone ao Presidente da República.