Infelizmente nem todas as bandeiras são internacionalistas, como nós sabemos. A bandeira portuguesa, permitam-me a sinceridade, ela tem pouco ou nada de internacionalista.  A bandeira portuguesa, na verdade, ela é do final do século XIX mas reparem uma coisa: ela, na verdade, ela exclui determinados grupos, ela tem uma vertente religiosa bastante vincada, ela ao mesmo tempo exalta uma forma de encarar o mundo que é uma forma racista e imperialista. E na verdade é uma questão de olhar os símbolos da bandeira. Falamos das quinas que representam as chagas de uma determinada identidade…

O vídeo continua por mais alguns minutos. Foi efectuado durante uma manifestação em frente à Assembleia da República na passada semana. Qual manifestação? Provavelmente, e sublinho o provavelmente porque a falta de notícias sobre o assunto é grande, durante a manifestação de apoio à deputada Joacine Katar Moreira. Lendo o que se escreveu sobre a dita manifestação sabemos que esta foi levada a cabo para contrariar os “ataques e perseguições racistas remetidos à recém-eleita deputada” que “Numa organização espontânea” do Coletivo Resistimos, na iniciativa ouviram-se ‘slogans’ como “somos todos filhos de imigrantes. Primeira, segunda, terceira geração” ou “racismo, fascismo, não passarão”, numa concentração “antifascista, antirracista contra a homofobia e contra o sexismo e ainda que “Além de defender Joacine Katar-Moreira e combater o racismo, o objectivo do Colectivo Resistimos, organizador do evento, foi também alertar para a entrada do Chega no Parlamento.” Sobre os considerandos proferidos pelos manifestantes acerca da bandeira portuguesa nem uma palavra. “Na verdade” como repetia o orador, aquele discurso revelava uma ignorância de antologia e um fanatismo que nos faz regredir àqueles momentos primordiais em que o simbólico ainda não fazia parte da nossa capacidade de entender o mundo e a nós mesmos. Mas nem isso nem o facto de o vídeo ter ultrapassado as 150 mil visualizações chegaram para que fosse notícia ou suscitasse o interesse dos autores de polígrafos e fact check que por uma vez na vida podiam abandonar aquela linha editorial de pegar na hipótese mais absurda para provar que todos aqueles que se opõem à agenda esquerdista são, além de mentirosos compulsivos, uns descerebrados.

Podia repetir o que já escrevi muitas vezes: o enviesamento esquerdista das redacções leva a que não se noticie não apenas o que parece mal à esquerda mas sobretudo o que deixa a esquerda mal na fotografia. Mas o caso é muito mais grave porque este mecanismo de auto-censura é em grande parte responsável pela destruição da convivência, da paz e da tolerância nas sociedades democráticas. Afinal quando estes colectivos, movimentos, blocos, comités… são apresentados como agrupamentos de vítimas e de pessoas que lutam contra crimes transversalmente condenados – como é o racismo – e depois se apaga o que estes activismos realmente defendem e dizem, está a permitir-se-lhes uma duplicidade que tem minado a sociedade livre e tolerante que já fomos: só esta semana, nas universidades francesas estes “combatentes da liberdade supervisionada por eles mesmos” forçaram a suspensão de uma conferência da filósofa Sylviane Agacinski e de uma formação sobre a prevenção e a detecção da radicalização. Esta última foi vista por algumas associações de estudantes como discriminatória para os muçulmanos. Já Sylviane Agacinski que se destacou na defesa dos direitos dos homossexuais, viu a sua integridade física ameaçada porque entende que as barrigas de aluguer são uma mercantilização do corpo das mulheres. Talvez por ser difícil culpar Bolsonaro ou Trump por estes acontecimentos aguarda-se por melhores dias para lhes dar destaque!

Por cá e por agora as declarações sobre a bandeira proferidas na manifestação em frente ao parlamento são omitidas até que um dia se considere que a “sociedade já está suficientemente amadurecida” (ou seja anestesiada) para que lhe seja imposta essa alteração. Só que nesse momento, e ao  contrário do que acontece agora, já ninguém estranhará nada porque entretanto se terá normalizado mais este absurdo. E não, menos importante, aqueles que se lhe opuserem serão apresentados como reaccionários, portadores de um discurso de ódio ou da maleita que na época servir para declarar os novos pestíferos.

O que faz o homem de saias no meio disto? Distrai. Distrai da agenda totalitária. Distrai daquilo que esses activistas estão dispostos a fazer para ser poder. Distrai da falta de preparação de boa parte deles.  Até nos distrai dessa espantosa circunstância de um deputado ter um assessor. Para quê, senhores? Para quê? Para mais um assessor que entre outras coisas tem um péssimo gosto para saias: acredite o senhor assessor que isto de escolher uma saia não é como enfiar o primeiro par de calças a que se deita a mão. Uma saia pode ser mini, midi ou maxi,  pregueada, com machos, traçada, folhos, lápis ou evasée. Para já sugiro que adopte o senhor assessor o visual de pauliteiro de Miranda, homens que há séculos usam umas belas saias, cujos  folhos valorizam os movimentos e pormenor não despiciendo são complementadas com umas meias e umas botas que o poupavam a si a esse look monástico de cabide andante. E a nós, perante a passagem de uma esquerda que aspirava a instaurar uma ditadura  enchendo a Assembleia de operários de capacete e fato de macaco para os presentes esquerdismos da deputada negra, da deputada gaga e do assessor de saias, só nos resta constatar que em política as espécies nem sempre evoluem.

PS. Dada a presente fixação no esclavagismo  praticado é de estranhar que o julgamento em França de Gabriel Mpozagara  e da sua mulher não tenham merecido pelo menos uma referência. Antigo ministro do Burundi, Gabriel Mpozagara, que até conta no seu curriculum com cargos na ONU, tem sido acusado de escravizar compatriotas seus que alicia para virem trabalhar em França. A complacência dos activistas europeus e norte-americanos com  a corrupção, nepotismo e crueldade de muitos políticos e dirigentes africanos vão do escandaloso ao criminoso.