Parece que entrámos neste século XXI para sermos surpreendidos. Falo dos mais velhos, porque os mais novos, provavelmente, só poderão sorrir perante gerações que um dia foram ensinadas — e acreditaram — que nunca mais haveria recessões, epidemias ou guerras. Chegámos a ser assim absurdos no ano 2000. Éramos a geração da globalização, da paz e do SNS. Noutros tempos, recessões, epidemias e guerras tinham feito parte da vida. Para nós, eram acidentes ou erros do passado. Acontece que não eram, como se viu em 2001, com o 11 de Setembro; em 2008, com a crise financeira; em 2020, com o coronavírus; ou este ano, com a invasão russa da Ucrânia.

Tão pouco preparados estávamos, que nem sequer nos passou pela cabeça que alguns dos meios a que recorremos para conter os danos pudessem ter efeitos secundários. Foi o caso da criação brutal de dinheiro, remédio com que as autoridades tentaram ultrapassar recessões, sustentar confinamentos e, por fim, se preparavam para corrigir o clima. No passado, tanto dinheiro e tão barato degenerou sempre, mais tarde ou mais cedo, em inflação. Mas lá estava: a subida de preços era uma coisa de 1973, quando as calças à boca de sino estavam na moda. Agora, tudo era diferente. Condenámo-nos assim a mais uma surpresa: eis aí, nos EUA e na Europa, as mais altas taxas de inflação desde a década de 1980. O mundo insiste em demonstrar-nos que afinal não é novo nem admirável.

As ilusões portuguesas não são, portanto, únicas. Mas em Portugal estamos talvez um patamar acima na escada da quimera. Na Grã-Bretanha, por exemplo, fala-se da “crise do custo de vida”. Nos EUA, admite-se que o tema assombre as eleições legislativas. Em Portugal, porém, é como se continuássemos no bendito ano 2000. O pessoal governativo é aliás quase o mesmo, com alguns filhos no lugar dos pais. Por isso, e como seria de esperar, não se passa nada: o aumento de preços é, segundo decretou o primeiro-ministro no debate do orçamento, “transitório e temporário”. A atitude não é inédita: foi com esta mesma indiferença que os ministros socialistas receberam todas as crises deste século. Ainda se lembram? Em 2008, a crise financeira internacional serviu apenas para o governo declarar Portugal um “oásis”. Em 2020, a epidemia era um problema da China, que a ministra da Agricultura acreditava “poder ter consequências positivas” para Portugal.

Dir-se-á: os ministros estavam a tentar sossegar-nos. Não, não estavam: estavam apenas a iludir-se e a iludir-nos. Nuns casos, a complacência serviu para dissimular problemas. Por exemplo, percebemos agora que a declaração pomposa de independência energética de Portugal em relação à Rússia escondeu apenas a extrema vulnerabilidade portuguesa à infiltração e manipulação russas, notória no acolhimento às vítimas da invasão da Ucrânia em Setúbal. Noutros casos, a inconsciência teve um sentido ainda mais grave: foi a via pela qual o próprio governo sobrecarregou as dificuldades. Em 2008, a classificação de Portugal como “oásis” preparou o ambiente para a escalada de despesas que provocou o descalabro das contas públicas em 2010 e o pedido de auxílio internacional em 2011. Em 2020, o menosprezo da pandemia conduziu ao relaxamento natalício das regras sanitárias, o que ameaçou o SNS de colapso e transformou Portugal no recordista europeu de mortes por Covid nos primeiros meses de 2021.

O INE confirmou que a inflação em Portugal subiu para 7,2% em Abril, o valor mais elevado desde há trinta anos. Para alguns, como por exemplo o Estado enquanto empregador, terá talvez certas vantagens. Mas para a maior parte das famílias, pode significar a mais séria perda de poder de compra deste século, muito pior do que os célebres “cortes” da troika. O governo, porém, conserva-se impassível. Para perplexidade de Nazaré Costa Cabral, a presidente do Conselho de Finanças Públicas, nada parece capaz de o obrigar a rever as projecções do orçamento, e muito menos a admitir que a sua política é de facto “expansionista”, e portanto gravemente desajustada neste momento. Já vimos este filme: mais uma vez, o poder socialista convida-nos a fazer de conta que Portugal não é deste mundo. Temos todas as razões para temer o pior.