Parece que hoje já ninguém tem naperons nem faz crochet. Mas houve tempos em que eram uma grande coisa. A casa dos meus avós estava cheia de naperons de crochet. Eram uma espécie de panos rendilhados que se punham em cima de toda e qualquer superfície horizontal de um móvel. Podiam ficar lá, só assim, mas quase sempre levavam qualquer coisa em cima. Podia ser uma fotografia de família, numa moldura, mas quase sempre era um bibelot. Acho que hoje também já ninguém tem bibelots. Quer dizer, se calhar têm, mas não lhes chamam assim nem sabem que o são.

As palavras fazem isto.

Dantes, quando as senhoras casavam (minto, ainda antes de casarem), começavam a juntar os seus naperons de crochet. Penso que era ponto de honra não os comprarem e nem sei se haveriam à venda. Eram feitos por elas próprias, ou pelas suas mães, tias e avós. Pelo menos era isso que me explicavam a mim, neto-criança, que andava na casa dos meus avós e via aquelas coisas nos móveis, com bibelots em cima e me diziam “não mexe!” E levavam o tempo a “dar um jeito” aos naperons de crochet, com bibelots, que estavam sempre um pouco tortos e era preciso endireitá-los.

E diziam-me que aquele naperon tinha sido feito pela bisavó Maria (“tinha cá umas mãos”!) ou pela tia Judite ou outros nomes de pessoas que eu só conhecia por fotografias antigas e sem cores e que eram um mistério para mim.

Mas sei que os naperons eram importantes para a minha avó. Porque os tinha arranjado pouco a pouco, feitos por ela, ou por pessoas da sua família que eram importantes para si, e que lhos tinham oferecido, numa qualquer ocasião especial. E que ela tinha ido juntando e juntando até me parecer que não havia nenhuma superfície livre de móvel em sua casa sem um naperon de crochet, com um bibelot em cima.

Se calhar era esse o propósito dos naperons de crochet: lembrar pessoas já desaparecidas e ocasiões especiais. Ou então eram para não deixar que netos mexeriquentos mexessem nas coisas.

Ainda me lembro de ver a minha avó fazer naperons de crochet. Era um trabalho difícil, minucioso, complexo. Era necessário sentido estético e orientação espacial. E demorava muito muito tempo. Tempo que se podia usar para conversar, num grupo de senhoras a fazerem todas os seus naperons de crochet e que iam convivendo.

Acho que havia uma ideia de que seria errado uma senhora estar parada com as mãos. Era importante as mãos estarem sempre a produzir alguma coisa. Era como se estar a fazer naperons de crochet fosse o descansar das senhoras e das suas mãos, naquela época. Não me lembro de ver a minha avó sentada e com as mãos paradas. Havia sempre um naperon de crochet por acabar, que trazia numa cesta, juntamente com as linhas e agulhas, e que, nas reuniões de família, imediatamente fazia aparecer por magia quando se sentava a conversar.

Depois de ter a casa toda cheia, e de me parecer que já não seria possível poisar algum naperon de crochet nalgum outro sítio, a minha avó continuou. Porque havia sempre uma filha ou neta ou sobrinha para quem se poderia fazer um naperon de crochet.

Sei que havia toda uma ciência por detrás disso. Havia técnicas, mais fáceis e mais difíceis, com mais e menos agulhas, segredos de família, conversados e discutidos entre as mulheres.

Era um assunto exclusivamente feminino. Nunca soube de nenhum naperon de crochet feito por algum homem da família, eram sempre mulheres. Ainda não havia esta coisa da igualdade de género. Pelo contrário, era ponto assente que havia coisas masculinas e coisas femininas. Não me parecia, na minha inocência, que isso fosse um problema ou motivo de desconforto para ninguém. Antes era algo natural e, para mim, muito confortável e uma sensação de segurança.

Já nada disso existe.

Nem os móveis antigos, sempre de madeira meio escura e ar velho e assimétrico e com gavetas que eram difíceis de abrir e de fechar (não são como as de hoje, que até voam).

Nem os naperons de crochet com bibelots em cima, a cobrir tudo o que é superfície, como se houvesse um horror a uma superfície descoberta num móvel qualquer, órfã de cobertura.

Nem os meus avós e as suas molduras com familiares a preto e branco que nunca conheci.

Só resta um naperon de crochet. Que me deu a minha mãe e agora tenho lá em casa.

Não sei que lhe faça. Às vezes, apetece-me pô-lo em cima de uma superfície de um móvel qualquer do Ikea, e pôr-lhe uma moldura em cima, com uma fotografia dos meus avós. Só para me lembrar deles e contar aos meus filhos quem fez aquele naperon de crochet.