Foi Júlio César quem, ao escrever a Guerra das Gálias, distinguiu a guerra contra estrangeiros, da guerra entre concidadãos. Mas essa diferença é ilusória. A violência armada, sempre que se exerce, fere o corpo comum da humanidade. É esse o ponto sublinhado pelo Papa: reconhecer o outro como irmão significa compreender que toda a guerra é civil, porque cada vida perdida é uma amputação na nossa própria comunidade.
A história recente confirma-o. A invasão russa da Ucrânia não é apenas um conflito fronteiriço; é uma dilaceração da Europa enquanto projeto civilizacional. A guerra no Sudão ou na Síria não diz respeito apenas às suas fronteiras artificiais; expõe as fraturas de um mundo incapaz de proteger os mais vulneráveis. E a violência no Médio Oriente repete a lição de que cada guerra, onde quer que se inicie, ressoa como uma guerra doméstica no interior da família humana.
Cesare Pavese, em La casa in collina, intuiu isto de forma devastadora. Cada morto encontrado pelo narrador não é um “outro”, mas alguém que lhe pede contas: por que deixaste que eu morresse? Essa consciência individual corresponde ao que a doutrina social da Igreja ensina a nível coletivo: a guerra nunca pode ser reduzida a cálculo estratégico ou estatístico, porque a dignidade humana não se mede em colunas de perdas. É sempre uma ferida espiritual e, por isso, universal.
Mas daqui não se segue que toda a guerra seja moralmente equivalente, ou que devamos resignar-nos a um pacifismo indiferente. A tradição cristã desenvolveu, desde Santo Agostinho, a noção de guerra justa: aquela que, ainda que trágica, é travada para defesa dos inocentes, preservação da ordem ou resistência à tirania. É um critério difícil e exigente, mas absolutamente necessário. Descartar a possibilidade da guerra justa seria ceder à ideia de que a violência não tem de ser contida por princípios, ou que todas as causas são iguais.
O problema do nosso tempo é que o discurso público alterna entre a romantização da guerra — apresentada como epopeia redentora — e a sua banalização pacifista, que se refugia na neutralidade. Ambos os extremos são perigosos. A romantização esquece que cada guerra é fratricida; o pacifismo absoluto ignora que a omissão pode entregar inocentes ao massacre. A doutrina social da Igreja oferece aqui um caminho de discernimento: não há guerra sem pecado, mas há pecados ainda maiores na indiferença.
Por isso, insistir que todas as guerras são guerras civis não é uma fórmula retórica. É um princípio para pensar a política internacional e a responsabilidade moral de cada Estado. Toda a guerra é civil porque todo o ser humano é nosso próximo. E toda a guerra só pode ser justa se for travada, paradoxalmente, em nome da paz — não da vitória, nem da glória, mas da defesa de um bem comum que permanece maior do que nós.