Recordo-me que, há anos atrás, havia uma frase que aparentemente caiu em desuso, “Trabalho é Trabalho, Cognac é Cognac”. Olhando para a nossa classe política, eleita por nós repetidamente, e para os resultados que consegue mostrar à sociedade, parece haver uma mistura de Trabalho (pouco) e Cognac (muito) que os embriaga a todos e que deixa muitos de nós, também, atordoados. Inclusivamente, aos media e ao regimento de comentadores que têm que encher pelo menos quatro canais de televisão 24 horas por dia, todos os dias.
Como se tem visto nas últimas semanas, em vez de se discutirem os problemas do país e da Europa, deu-se prevalência a ocorrências, que podem ser importantes, mas cuja permanente discussão em nada ajuda a resolver as questões que nos afetam no nosso dia-a-dia.
Os problemas mais prementes da sociedade portuguesa como a diminuição do Estado na economia, a dificuldade (ou o desinteresse) em baixar impostos, a organização de um sistema de saúde eficiente, a operacionalidade e conteúdo do sistema educativo, a celeridade da justiça, uma abordagem eficaz dos problemas da habitação e da mobilidade, a gestão da imigração, a sustentabilidade da segurança social e a gestão adequado dos nossos recursos naturais, que constituem o Trabalho que seria de esperar de políticos que foram eleitos com esta missão, foram ultrapassados pela embriaguez do Cognac.
E o futuro não é muito sorridente. Vamos ter eleições em meados de Maio que, aparentemente, vão eleger as mesmas pessoas para cargos semelhantes. Ou seja, mesmo que se mude de primeiro-ministro não parece que nos vamos ver livres da mesma tropa fandanga de políticos que nos têm afligido nos últimos tempos.
O PS, que protagonizou durante o tempo de António Costa a sucessão dos governos mais incompetentes que há memória, vai candidatar a primeiro-ministro, o individuo que é, em minha opinião, o exemplo mais paradigmático da incompetência nacional. E não são suspeitas, tem realmente provas dadas.
O PSD apresenta um candidato fragilizado a primeiro-ministro. Se vencer as eleições não o vão deixar esquecer as peripécias empresariais onde se enredou. Se a devassa da vida privada fosse aplicada de forma semelhante a todos os políticos, deputados e governantes, julgo que não restaria uma mão cheia que lá continuasse. O que até podia não ser mau.
Tudo isto que escrevi foi despoletado pela leitura que fiz, com agrado, do relatório do grupo de trabalho Água que Une – Estratégia nacional para a gestão da água.
O relatório constitui uma caracterização pedagógica e fácil de ler sobre a situação dos recursos hídricos em Portugal e dos investimentos que estão previstos para garantir a sua utilização, conservação e proteção. É sucinto e objetivo, não indo a pormenores desnecessários que dificultam uma compreensão global. Não posso deixar de congratular quem o fez.
Era uma boa oportunidade para que os canais de televisão, que tudo discutem, fizessem mesas redondas e debates para discutir os problemas da gestão dos recursos hídricos em Portugal. Nada aconteceu que eu tenha reparado, para além da referência à apresentação do relatório. O assunto não é suficientemente mediático.
Uma das questões que deveria ser discutida era a resposta à pergunta: quem vai ser responsável pela implementação das medidas que lá se encontram definidas? Os organismos estatais, da APA ao Ministério da Agricultura e seus organismos regionais, são estruturas pesadas, burocráticas e pouco eficientes com falta de recursos humanos motivados e com coordenação deficiente. As Câmaras Municipais, mesmo as que têm empresas municipalizadas, enfermam do mesmo problema. Em qualquer dos casos há exceções, mas que me parecem insuficientes.
Habitualmente, o passo seguinte de um relatório deste tipo é a indicação de quem é responsável por implementar os projetos e investimentos anunciados e uma estimativa da sua calendarização. Compreendo que não teria sido fácil, no período de tempo em que o relatório foi feito, ter-se ido mais além.
Infelizmente, não existe um sistema institucional estabilizado e operacional de gestão dos recursos hídricos que permita materializar o que lá está descrito. Já existiu um seu embrião, aprovado durante o governo de José Sócrates, que foi desmantelado no tempo da Troïka por razões imperativas resultantes da situação que o próprio José Sócrates e o PS deixaram o país. Com tantas reversões que os governos de António Costa fizeram durante cerca de oito anos, a grande maioria sem sentido, não foi considerado uma prioridade olhar para os recursos hídricos e para a sua gestão, que continuaram deixados ao abandono.
Uma campanha eleitoral poderia ser um local de discussão desta questão, mas com tanto Cognac, admito que nem sequer se lembrem do Trabalho. Vamos ter que esperar por um novo governo que tenha a capacidade e maturidade para dar uma solução a estas questões. Ou pelo menos, se se lembrar que elas existem, que as tente resolver.
Com esta esperança, não fazendo cenários de governação, não posso deixar de recordar as experiências dos últimos anos:
O PS, cuja direção é constituída por um grupo de pessoas que já vem do tempo de José Sócrates, conseguiu levar o país à bancarrota, associou-se à extrema esquerda para destruir os sacrifícios que os portugueses fizeram durante o tempo da Troïka e, mesmo com maioria absoluta, não conseguiu, ou não quis, fazer reformas, nem sequer governar. É preciso ser desmemoriado ou fazer esquecimentos seletivos para lhe dar mais oportunidades.
O PSD, renovado desde o tempo de Pedro Passos Coelho, esteve um ano no governo (onde mesmo assim conseguiu fazer mais do que o PS nos últimos oito anos), emendou muitos dos disparates socialistas, manteve uma incompreensível dependência do PS e aproveitou o facto de ser minoritário para justificar, nem fazer reformas, nem sequer apresentar propostas sustentáveis, alegando que seriam chumbadas. Para quem considerar que é suficiente para o país registar melhorias pouco significativas mas manter o atual status quo, é o voto ideal.
André Ventura, independentemente das críticas que lhe façam, não deixa de defender uma forte componente estatizante, que o aproxima do PS e do PSD. Nunca esteve no governo mas conseguiu impor na discussão política a corrupção sistémica e as questões da imigração. Mas só isto é pouco para ser uma alternativa credível. Tanto mais que enquanto a atual direção do PSD estiver em funções não deverá ter hipóteses. Quem sabe se com o PS se saia melhor.
Resta a Iniciativa Liberal. Não sei se recordam mas a IL trouxe para a discussão a baixa de impostos, IRS e IRC e a diminuição da interferência do Estado na economia. Embora, inicialmente, esta proposta fosse mal recebida e ridicularizada, hoje faz parte da discussão política. Pode ser o estímulo que o PSD precisa para se tornar reformista e menos estatizante, se conseguirem fazer um governo de coligação estável. Para isso, a IL tem que necessariamente crescer. A campanha eleitoral poderá não privilegiar uma discussão adulta dos problemas, que a IL tem tentado fazer, correndo-se o risco que se possa centrar apenas em disputas mesquinhas de quem tem muito pouco para dizer. Um crescimento da Iniciativa Liberal seria uma prova da nossa maturidade política. Não sei se todos a temos.
Não é fácil ser um português votante. Direi mesmo mais, é doloroso. Vamos ser sujeitos a uma campanha muito idêntica à do ano passado, com os mesmos protagonistas a dizer as mesmas coisas que já todos sabemos de cor. Espero, ao menos, que mudem os entrevistadores.
Mas o que mais me preocupa é que, por mais eleições que se façam, o padrão de resultados eleitorais não se altere significativamente. E temos que nos convencer que o único D. Sebastião que existe para melhorar a nossa política, somos nós.