Há um momento em que a guerra deixa de discutir o futuro e passa a discutir cadáveres. Não por morbidez, mas por método. Quando o “último corpo recuperado” se torna notícia de Estado, percebe-se que a política já não está a tentar vencer, está a tentar fechar portas, alinhar calendários, desbloquear passagens, distribuir culpa e colher legitimidade. Um corpo, afinal, pode valer mais do que um acordo. Porque um corpo dá uma certeza. E a certeza é o que falta em tudo o resto.
A recuperação dos restos mortais de Ran Gvili, levado para Gaza depois de ter sido morto a 7 de Outubro, foi apresentada como a promessa cumprida de “trazer todos para casa”. É uma frase que soa a humanidade, e é isso que a torna tão útil. O luto, quando é nacional, transforma-se numa arma retórica com validade ilimitada. Ninguém discute o dever de devolver um morto. Discute-se, sim, em silêncio, o que se consegue com esse dever.
E é aqui que o assunto deixa de ser apenas emocional. Segundo os relatos, Israel condicionou a reabertura da passagem de Rafah à devolução deste último corpo. Ou seja, o gesto mais íntimo, o regresso de alguém à família, foi também uma alavanca para decisões que mexem com a vida de muitos milhares. A fronteira não reabre porque é urgente, reabre porque uma condição foi satisfeita. E este pormenor diz muito sobre a fase em que entrámos: a fase em que o humanitário é frequentemente o invólucro e o estratégico é o conteúdo.
O mundo gosta de histórias com fecho. “Último refém”, “último corpo”, “capítulo encerrado”. Dá ordem ao caos. Dá ao público a sensação de que houve progresso. Só que, em guerras deste tipo, fechar um capítulo é muitas vezes a forma mais elegante de começar outro. O regresso do corpo não diminui a violência. Reorganiza-a. Troca-se um objectivo operacional por outro, uma palavra de ordem por outra, um mapa por outro.
Para Israel, o simbolismo é claro: nenhum desaparecido fica para trás, nem morto. Isso consolida a coesão interna, protege a confiança entre Estado e cidadãos e reduz a margem para contestação num país ainda ferido. Para os actores à volta, o simbolismo também é claro: quem controla os corpos controla o ritmo. E quem controla o ritmo controla a negociação. A Europa, quando aparece nestes momentos, costuma aparecer como “solução técnica”: equipas, supervisões, mecanismos de controlo. Mas a técnica é política disfarçada. Uma passagem fronteiriça não é só um portão, é um argumento. Quem entra, quem sai, quem vigia, quem inspeciona, quem decide. Tudo isto é soberania, mesmo quando é apresentada como logística.
O problema de transformar um corpo numa chave é que isso normaliza o pior. Normaliza a ideia de que as pessoas, vivas ou mortas, são peças de um tabuleiro onde se joga com a fome, com o medo e com a esperança. Hoje é um corpo. Amanhã é um corredor humanitário. Depois é a água, a electricidade, a reconstrução, o retorno. Tudo condicionado. Tudo convertido em moeda.
O “último corpo recuperado” não é o fim de nada. É a confirmação de que a guerra aprendeu a usar o luto como instrumento e a compaixão como cobertura. O que vem a seguir será vendido como fase seguinte, estabilização, normalização, transição. Mas a pergunta essencial continua intacta e brutal: quantas vidas terão de ser convertidas em condição para que a política volte a ser mais forte do que os cadáveres?