Deve ser uma espécie de maldição qualquer, talvez um castigo pelo absurdo Acordo Ortográfico que lhe aboliu o “p” no topónimo, mas conservou no gentílico, que um país que se gabava do que tinha de graça, o Sol e o melhor clima da Europa, pareça agora, e em crescendo de ano para ano, fustigado pelas sete pragas do Egipto – Egito, para os mais sensíveis. De Verão, o fogo; no Inverno, água sem fim; num e noutro, a terra a ser desertificada, erodida e, por fim, derrocada e arrastada pelas águas. Sobra o ar, considerados os quatro elementos do universo segundo Empédocles: o ar do tempo, o ar aflito e alguns cabeças-de-vento.
E agora? Agora que a expressão “Comboio de Tempestades”, que parecia apenas o nome de um filme com Steven Seagal, daqueles que iam directos para o velho clube de vídeo, ameaça tornar-se tão banal como “Abril, águas mil”, vento norte ou geada?
A ministra da Administração Interna demitiu-se terça-feira, com nove meses de atraso, depois de outros tantos passados no cargo a explicar que tinha de estudar os dossiers e que os temas eram complexos, que “como a maioria das pessoas” não tinha respostas e a fugir aos jornalistas. Ora, mesmo dando o desconto de que é certamente por alguma boa razão que “a maioria das pessoas” não vai a ministro, eis que a hipotética empatia que as sucessivas confissões de humanidade poderiam suscitar ao mais compreensivo dos eleitores também se foi com a enxurrada e o momento escolhido para a demissão: na véspera de ter de ir ao debate quinzenal enfrentar as perguntas do parlamento, numa noite com o país em estado de alerta, risco de colapso de diques e barragens e três mil pessoas a serem aconselhadas a abandonar as suas casas, só em Coimbra.
Mas nem tudo é culpa de Maria Lúcia Amaral – aliás, a única responsabilidade que lhe poderá ser imputada é talvez a de, num belo dia da Primavera passada, ter respondido “sim” a um telefonema do primeiro-ministro. Na verdade, quem sabe até o tempo da sua saída tenha sido apenas um último caso de sacrifício pela nação, oferecendo-se como exemplo às populações de como fugir atempadamente, antes que nos caia a casa em cima. Afinal, mais ou menos à mesma hora, estavam as derrocadas a começar a chegar a Lisboa.
A culpa é outra coisa e, se nunca se deu bem com o nosso saudoso clima mediterrânico, custa a crer que venha a medrar agora que virámos cenário recorrente de calamidade bíblica. Não é culpa de Maria Lúcia Amaral que, basicamente, há década e meia não se veja investimento nas grandes infraestruturas públicas ou que esse investimento tenha passado a ser tratado como um luxo a que damos quando chega algum dinheiro extra da Europa, vulgo PRR, pensado para fazer face a outras desgraças, mas cuja manta puxamos para ir tentando tapar as que vão surgindo no entretanto. Não são culpa de Maria Lúcia Amaral as cativações nem os brilharetes feitos por ministros das Finanças, porventura com outras aspirações políticas. Não é culpa de Maria Lúcia Amaral que se tenha abandonado a construção de barragens projectadas e seleccionadas para avançar, pir ignorância ou convicção ideológica. Não é culpa de Maria Lúcia Amaral o abandono dos solos, o caos da floresta portuguesa nem as décadas de incêndios que, todos os anos, tornam mais difícil a fixação dos solos. Não é culpa de Maria Lúcia Amaral que, apesar de há anos sabermos que seremos um dos países europeus mais afectados pelas alterações climáticas, o tema nunca ser prioridade de qualquer governo, nem o eleitorado os pressionar a isso, e o ministro com a tutela do Ambiente tipicamente uma figura secundária na hierarquia dos executivos ou, pior, alguém de quem, um dia, se ouve falar só a propósito de um qualquer licenciamento mal explicado. Não é culpa de Maria Lúcia Amaral que se tenha construído demasiado perto de arribas ou linhas de água, os olhos fechados por tantas autoridades locais ao longo de tantos anos ou os ouvidos moucos noutros casos, como o da Câmara Lisboa, onde já há registo de queixas e pedidos de intervenção de moradores nas zonas agora afectadas desde pelo menos os anos 30 do século passado.
Não. O que a Kristin e companhia destelharam não foi apenas a casa e o emprego de muitos milhares de portugueses, mas o crónico assobiar para o lado de todo um país a quem, um dia, o céu ia cair em cima da cabeça. Resta-nos esperar que o novo Presidente da República, cuja eleição aconteceu literalmente mergulhada neste charco, consiga usar da enorme legitimidade que lhe foi concedida por uma votação record, para pressionar governo e oposição a trabalhar num plano duradouro e menos em remendos e demagogia para TikTok. E em forma de, por mais absurdo que pareça agora, não deixar, simplesmente, correr toda esta água que hoje nos parece o inferno para o mar. Ou o inferno, daqui a seis meses, voltará a ter a forma do fogo, da seca e da nossa histórica incúria.