Começaram os debates presidenciais. Cada um tem uma duração de 30 minutos. 25, se tivermos em conta que parte do tempo útil é, inevitavelmente, ocupado pelo entrevistador. Temos muitas canções de amor que nos aliciam com a desculpa de que o tempo não conta verdadeiramente para a importância das coisas. Como este verso, da Canção do Engate, de António Variações — “vem que o amor não é o tempo, nem é o tempo que o faz”. É verdade que o tempo não retira a qualidade daquilo que é bom, mas talvez possamos dizer que o tempo funciona como um potenciador, de tudo o que é bom, e de tudo o que é mau. O tempo põe a descoberto o estado das coisas, torna-as autênticas e impossíveis de mascarar. Pode torná-las melhores se for essa a sua verdadeira essência. Isto pode ser aplicado ao amor, e seria mais poético, mas os tempos pedem política.
Nas últimas décadas, a duração dos debates diminuiu consideravelmente. Com debates tão curtos, não há tempo para mostrar muito conteúdo. Será para nos poupar ao embaraço de admitir que o conteúdo já não existe? Uma pequena pesquisa na internet, mostra-nos que o consumo de vídeos curtos tem disparado nas redes sociais. Mais, sabe-se que os vídeos curtos têm melhores resultados. Se quisermos o mesmo sucesso na televisão, faz todo o sentido aplicar-lhe o mesmo formato. Funciona tudo como numa passerelle para que as dezenas de comentadores possam atribuir notas de 0 a 20, polegares de “fixe” ou “não fixe” e falar das cores das gravatas. Não me interpretem mal, um político está sempre sujeito ao escrutínio e nem só de conteúdo vive o Homem. Somos vaidosos e sabemos a importância da aparência de uma boa carapaça, mesmo quando por dentro está oca. Principalmente, quando está oca.
Na política portuguesa, o exemplo da praxe do sucesso de uma boa carapaça é André Ventura. Nos últimos tempos, por curiosidade, tenho pesquisado o perfil do líder do Chega nas redes socais. A cada semana, o número de seguidores sobe e as visualizações dos vídeos são sempre centenas de milhares. O mais curioso é que se formos buscar uma personalidade com ideais completamente diferentes, como Mamdani, o recentemente eleito presidente da câmara de Nova Iorque, constatamos que a fórmula para o sucesso é a mesma. Ventura é de direita, é conservador e é português. Mamdani é de esquerda, é progressista e é norte-americano. Ambos são casos de sucesso, mas sê-lo-ão pelas razões certas? Porque é que nos estamos a habituar a dar tanta importância àqueles que enaltecem mais a carapaça do que o conteúdo? Estamos a valorizar a fachada das coisas. Convencemo-nos que estamos a votar naqueles que defendem os nossos ideias, sejam eles quais forem. Mas não estaremos a votar nos melhores vídeos, nos mais atrativos, nos melhores soundtracks e soundbites?
As sociedades têm os seus ciclos, as suas mortes anunciadas e os seus renascimentos. Até hoje, temos sempre dado a volta por cima, mas mentiria se dissesse que desta vez vai ser fácil.