Tive a sensação de me ter enganado no andar, ter aberto a porta e ter assistido a uma discussão conjugal. Pessoas tão simpáticas cá fora, simpáticas mesmo, que dizem bom dia, boa tarde e boa noite, juntas transformam-se e transtornam-se e o resultado não é bonito de ver. Finalmente percebi aquelas notícias de televisão em que os vizinhos dizem “nunca me tinha dado conta de nada”, ou “pareciam dar-se tão bem”.

Estou a referir-me, é claro, ao debate de terça-feira entre os dois especialistas em “construir pontes” que lutam pelo poder no PS e que ambicionam governar-nos. Suponho que a ideia seria falar para o país. Mas não falaram certamente para o país. Falaram para os filhos, naturais (militantes) ou adoptivos (simpatizantes)? Também não. Falaram, ao menos, um para o outro? Isso menos do que tudo. Nem se conseguiam olhar. Para quem falaram? Como é tradicional nestas coisas, falaram sozinhos com berros mentais.

Tivemos direito a tudo que o género comporta. Como, por exemplo: quem tem a culpa? Seguro acha que a culpa é de Costa porque Costa, por defeito de carácter, lhe quer destruir o lindo sonho de ser primeiro-ministro. Costa acha que a culpa é de Seguro, porque Seguro, por defeito de carácter, não toma iniciativas, não é suficientemente enérgico: o lindo sonho é só para ele, Costa. A culpa é tua. Não, a culpa é tua.  Criaste a crise. Não, quem criou a crise foste tu. Não estiveste presente quando a coisa era difícil (Seguro). Não, até agora foi fácil, difícil vai ser agora (Costa).

Depois vieram as acusações de más companhias, de más influências, um ingrediente necessário nestas discussões. Seguro lembrou a Costa a sua intimidade com Nuno Godinho Matos (aquele senhor que descobriu uma maneira de o dinheiro lhe cair do céu sem sequer abrir a boca). Talvez porque Costa houvesse sugerido a Seguro que não apreciava que ele se desse com alguém que se dava, parece, com Menezes. Não digas mal deles, diz um, e o outro diz o mesmo. Só faltou aqui o tradicional: não tens nada a ver com isso. (O “Não é o que tu estás a pensar” já estava implícito.)

Quando se vai por aqui o caldo entorna-se, a berraria é certa e começa-se a falar muitas vezes ao mesmo tempo. Como é certo que venha a questão: de qual de nós dois as pessoas gostam mais? Faz sempre bem ao ego e nessas circunstâncias tudo o que vem à rede é peixe. Costa acha que é dele, e até, sofisticadamente, mostrou um gráfico que provava isso. Seguro acha que é dele, e citou o Expresso. Só tu é que acreditas no que dizes. Só tu acreditas no que dizes. (Costa, erudito – leu Sócrates -, falou de “narrativa”.) Obviamente que isto não passa sem resposta. As pessoas começam a saber quem és, atirou Seguro a Costa, subentendendo que ele já o sabia há algum tempo. És o candidato do status quo, e eu vou dar cabo da corrupção. Tu querias ser secretário-geral do PS desde pequenino, disse Costa a Seguro, como para lhe mostrar que o conhece como ninguém. Gostas de vencer tudo na secretaria e eu é que ataquei a corrupção. E sou amigo do agricultor de Montalegre, tu não. E para mais fazes coisas feias.

Entre as coisas feias encontra-se, é claro, a má imagem que se anda a dar da família. Andas a desonrar o PS com populismos, acusa Costa, e andas a dizer mal de mim e a chamar traidores aos nossos amigos. Estou muito ofendido. Não, eu nunca disse mal de ti, tu é que andas a dizer mal de mim, responde Seguro. Estou muito magoado. E vê o bem que andas a fazer a quem não gosta de nós, diz Costa. Vê tu é o jeito que lhes estás a dar, responde Seguro. A vergonha por que nos fazes passar. A vergonha por que nos fazes passar. Se tu fosses como o Francisco Assis, avança Costa. Ah, se tu fosses como o Francisco Assis, diz Seguro.            

E, no entanto, tudo tinha condições para correr bem. Porque, em matéria de ideias, nada os distingue, até na própria parcimónia com as ditas. Costa quer a recuperação económica e social, a diminuição do desemprego e a reposição das pensões – e ameaça com detalhes para depois, porque já não, porque não é irresponsável. Seguro quer diminuir o desemprego, fazer avançar a economia e repor as pensões – mas diz depois como, porque não é irresponsável e não vende ilusões. Para mais, não só estão de acordo, como até estão de acordo que estão de acordo. Até nos adornos exteriores: ambos são do Benfica e usam gravatas vermelhas, como lembrou Costa, numa gracinha sem graça de habituado do poder.

Mas, como muitas vezes nestes casos, a comunidade de ideias não basta para uma felicidade estável. E não basta quando há diferenças irreconciliáveis de carácter. Por isso, alguém tem de sair de casa. Note-se que não sou eu que digo que as diferenças são só de carácter: são os dois, mais uma vez concordando entre si, que não param de o dizer. E se não param de o dizer é porque cada um está convencido da fortitude do seu carácter e da debilidade do carácter do outro. Até nisso são parecidos. A diferença fica reduzida a uma persuasão íntima. Não se percebe porquê vir para a televisão ter esta conversa, quando há várias revistas especializadas na matéria, e que até pagam para vender o espectáculo, com fotografias grandes, capa e tudo.

Só por um profundo sentimento de orfandade alguém se arrastará para votar nestas primárias do PS. Não excluo, é claro, que muita gente dele sofra e que haja grande afluência. Mas para o resto do país (a grande maioria) estas desavenças não interessam nada. Apesar de tudo, há política para além da coscuvilhice. E assistir àquela discussão só dava mesmo para a coscuvilhice. Que Deus não lhes perdoe.