Teoricamente, a UNRWA, uma agência da ONU criada para aliviar o sofrimento dos refugiados árabes da Palestina, é uma sublime criação do espírito humanitário moderno. Nos comunicados de imprensa, nas televisões e nas conferências internacionais, surge como a encarnação da bondade, um braço estendido da humanidade, a distribuir saúde, alimentação, educação e esperança aos deserdados da História. Na prática é um tentáculo maquiavélico do jihadismo antissemita, um departamento da vitimização profissional e uma eficiente máquina de perpetuar o ódio. Fala de paz enquanto colabora com quem faz a guerra; prega a fraternidade aos ouvidos dos dadores ocidentais, enquanto difunde o manual do martírio religioso nas escolas que gere.
Criada para assistir 700 mil pessoas em fuga após a invasão de Israel pelos países árabes vizinhos, sustenta hoje mais de cinco milhões dos seus descendentes. Um absurdo só possível graças à elasticidade da definição de “refugiado”, que a ONU transformou num património hereditário. É aliás o único caso do mundo em que o estatuto de refugiado se transmite por via genética e merece um organismo à parte. Todos os outros milhões e milhões de refugiados do planeta, vão parar à vala comum da UNHCR (Agência das Nações Unidas para os Refugiados), que opera em quase 140 países e territórios e tem menos de 20 000 funcionários. A UNRWA tem 30 000.
O resultado de tão desvelados cuidados é uma população eternamente infantilizada, que não precisa de trabalhar, para quem a ONU substitui a mãe e o Hamas substitui o pai. As crianças aprendem neste colo pródigo que a vitimização é uma identidade e a violência, uma virtude.
Os factos são incontornáveis: cerca de dois terços dos fundos que fluem para Gaza através da UNRWA acabam nas mãos do Hamas. O restante serve para manter o espectáculo ao mais alto nível: dezenas de hospitais, centenas de escolas e outras infraestruturas para as fotografias dos relatórios anuais. O essencial do dinheiro é enterrado em salários do Hamas, comida com fartura e casas luxuosas para os líderes jihadistas, túneis, rockets, bombas e ensino de qualidade na arte de matar judeus.
A aliança entre a UNRWA e o Hamas é tudo menos secreta. Uma fornece comida e escolas, o outro providencia mártires e mísseis. É uma parceria simbiótica: a agência alimenta os corpos, o Hamas alimenta as almas, e ambos se engordam mutuamente. O truque é simples e perverso: ao assumir as funções básicas de governo, a UNRWA liberta o Hamas da chatice de governar as minudências do quotidiano e permite-lhe dedicar-se inteiramente ao seu grande desígnio: erradicar Israel e lançar os judeus ao mar!
Nas sociedades funcionais, os pais pensam quantos filhos podem sustentar. Nos territórios da UNRWA essa conta não se faz. A UNRWA vacina, alimenta, educa e, no fim, ainda subsidia a “resistência” armada. É o Estado social levado à sua caricatura final: um Estado assistencial que fabrica jihadistas e “mártires”, em vez de cidadãos.
Mas o papel da UNRWA vai mais fundo. É também o motor da narrativa palestiniana. Nas suas escolas ensina-se o “direito de retorno”, isto é, o direito de cinco milhões de pessoas invadirem Israel. Trata-se de um absurdo insustentável e juridicamente vazio, mas continua a ser ensinado com zelo catequético, como se fosse um mandamento. E por que razão é absurdo?
- Entre 1949 e 1954, oitocentos mil judeus foram expulsos de vários países árabes. Nenhuma UNRWA foi criada para eles. Não ficaram à espera de subsídios nem de conferências internacionais. Foram para Israel, trabalharam e reconstruíram a vida. Os seus filhos não herdaram nenhum direito de retorno a Marrocos, Jordânia, etc.
- Após a Segunda Guerra Mundial, três milhões de alemães foram expulsos da Europa de Leste. Não há campos de refugiados alemães.
Depois da descolonização, centenas de milhares de portugueses foram obrigados a regressar da África. Passos Coelho, eu e muitos outros. Até prova em contrário, não andamos por aí a exigir o “direito de retorno” ao Mussulo, nem os nossos filhos são refugiados.
Todos esses dramas acabaram resolvidos. Todos menos um: o dos árabes que deixaram Israel em 1948, a maioria dos quais porque os líderes árabes lhes disseram para sair, prometendo-lhes o retorno triunfal depois da agendada destruição dos judeus. Como estes não colaboraram, a promessa falhou, mas o ressentimento ficou, e a ONU tratou de o transformar em profissão.
Pagamos bem por este absurdo: metade do colossal orçamento da UNRWA sai dos cofres europeus. É o dízimo da culpa ocidental, o imposto dos que acreditam que o apaziguamento é uma forma de expiação. A agência, com 30 mil funcionários (12 500 em Gaza), e 1,5 mil milhões de euros anuais, tornou-se um símbolo da perversidade.
Cerca de 1 500 dos seus funcionários pertencem ao Hamas ou a grupos associados. Outros tantos publicam apelos à jihad nas redes sociais, entre dois vídeos de gatos. Há directores de escola que ensinam aritmética de manhã e lançam rockets à tarde. O vaivém é constante: de dia funcionário da ONU, à noite combatente do Hamas. Por exemplo, Suhail al‑Hindi, do bureau político do Hamas, membro da Irmandade Muçulmana, era presidente do sindicato dos trabalhadores da UNRWA e director de uma escola da UNRWA.
Após o 7 de outubro, todo este verniz estalou. O Hamas usou viaturas, armazéns e edifícios da UNRWA como quartéis e depósitos. Sob a sede principal da agência, funcionava um centro de dados do grupo terrorista, alimentado pela electricidade da organização. Sacos com o logótipo da ONU serviam para transportar explosivos. E sob as escolas, descobriram-se acessos para as extensas redes de túneis. Provavelmente as aulas práticas da disciplina de “resistência”.
O próprio manual militar do Hamas, Fundamentos de Engenharia Militar, explica com clareza pedagógica que as infraestruturas civis são os melhores escudos. Casas, hospitais, mesquitas, mercados, tudo serve. O povo é o obstáculo, a morte é a muralha.
A UN Watch, uma NGO, identificou cerca de 500 funcionários da UNRWA com ligações directas a organizações terroristas. Professores que celebram assassínios, dirigentes que colaboram com jihadistas, como Francesca Albanese, Pierre Krahenbuhl e outros cúmplices que fingem nada ver. A conivência, aqui, não é um acidente, é sistemática.
E há nomes. A 7 de Março, Ayelet Samerano, mãe de um refém de 21 anos, testemunhou no Conselho de Direitos Humanos: “O meu filho foi baleado a 7 de outubro. Depois, um assistente social da UNRWA raptou-o. Um funcionário pago por esta organização levou-o para Gaza. Uma professora da UNRWA manteve cativa uma idosa de 84 anos. Outra vítima esteve presa num edifício da própria UNRWA.”
O que tudo isto mostra, é que sob o selo azul das Nações Unidas, opera uma máquina de ódio disfarçada de agência humanitária. E, ironicamente, a UNRWA não quer que nada disto acabe. Porque se acabasse, se os refugiados deixassem de o ser, se o ódio perdesse utilidade, milhares de funcionários ficariam sem emprego e os dirigentes sem púlpito.
A tragédia palestiniana é o melhor negócio da ONU. O ódio travestido de compaixão transformou-se em indústria, e o mal em departamento administrativo. A UNRWA não é só o espelho do conflito. É também o reflexo do nosso tempo: um tempo em que a hipocrisia é política, e a falsa virtude, uma carreira internacional.