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Portugal está, neste momento, com um Rt (índice de transmissibilidade) bastante baixo, sendo que há poucos dias era, aliás, o mais baixo da Europa. No entanto, parece que se continua com um receio, eventualmente legítimo, de reabrir, ou pelo menos ainda nada “transpirou” sobre a estratégia para a reabertura, que se espera faseada.

Ao contrário do que já foi dito, a reabertura e o modo como ela se irá desenrolar não depende do acordo entre cientistas, isso não existe; depende, sim, de uma decisão, solitária (o momento da decisão é sempre solitário), baseada, espera-se, na recolha de conhecimento científico que tem que ser multidisciplinar.

A reunião de 22 de fevereiro no INFARMED, entre Governo e cientistas, recomendou, obviamente, calma, muita ponderação e equilíbrio nas medidas a anunciar, mas deu alguma esperança: a notícia da imunidade de grupo para meados de Agosto é uma esperança, de quê não se sabe, mas abre uma janela de esperança fundamentada.

Acontece que o problema, hoje em dia, em Portugal já não é só sanitário. De todo!

Tem-se insistido que a primeira abertura deve ser a das escolas. Muito bom! As crianças agradecem e precisam de viver, as famílias agradecem e, de uma forma geral, todos precisamos de ver crianças na rua, a rir, a falar e a brincar.

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Mas é preciso pensar também na faixa da população que foi, sem dúvida, a mais afetada e que praticamente não se faz ouvir. Os idosos.

Todos esperavam, esperávamos, ansiosamente, a vacina para poder voltar a uma “quase” normalidade, visitar os mais idosos, beijar ou abraçar, dar um passeio. Dizer a estas pessoas que tudo vai ficar na mesma por um tempo ainda indefinido, como se tem dito recentemente, sem uma alternativa, não é possível.

Faz quase um ano que deixaram de ter contactos normais com os familiares ou amigos e faz também quase um ano que assistem ao desaparecimento, sem um adeus, de muitos dos seus vizinhos, amigos, companheiros, conhecidos. E todos estes que desapareceram passaram pelo mesmo isolamento, maior ou menor, mas isolamento, apenas para entristecerem e perderem a esperança para a pouca vida que ainda tinham pela frente.

E é por todos estes, a quem devemos uma desculpa, que temos que definir com alguma celeridade, não só como será a reabertura das escolas e quando, mas quando será a reabertura dos lares.

Quando? E Como?

E é por isso que é necessário ouvir equipas de cientistas multidisciplinares: além de médicos, as reuniões têm que passar a incluir sociólogos, psicólogos, engenheiros, arquitetos, urbanistas, pessoas das artes e da cultura. Porque temos que dar uma vida a estas pessoas e apenas lhes temos proporcionado, e mal, uma esperança, ténue, de sobrevivência.