Sem surpresa, António José Seguro foi confortavelmente eleito Presidente da República. Mas as presidenciais ditaram mais vencedores e vencidos e este é um bom momento para fazer um balanço, destacando quatro vencedores e quatro derrotados nestas presidenciais.

Vencedores

António José Seguro: É inequivocamente o grande vencedor destas presidenciais, não só pela vitória mas também pela margem conseguida e pelo contexto em que avançou com a sua candidatura.  Os quase três milhões e meio de votos que reuniu – o maior resultado de sempre em valores absolutos – colocam Seguro cerca de um milhão de votos acima das votações conseguidas por Marcelo Rebelo de Sousa, o que reforça o carácter histórico da sua eleição, assim como a legitimidade e responsabilidade do novo Presidente. Desprezado por boa parte dos costistas e odiado pela ala mais radicalizada do PS, Seguro avançou de forma decidida e corajosa numas eleições em que se provou que tinha, de facto, o perfil ideal para ser candidato do centro-esquerda. Conforme escrevi em Julho de 2025:

“O ódio intenso dedicado por boa parte do aparelho e das elites do PS contra António José Seguro é um caso que merece ser estudado. Por qualquer indicador objectivo, Seguro parece ser neste momento o melhor candidato que o centro-esquerda pode apresentar às próximas eleições presidenciais mas, simultaneamente, parece ser também o candidato mais odiado no interior do próprio aparelho do PS. (…) Aos bons dados nas sondagens, acresce a disponibilidade atempadamente manifestada por António José Seguro, assim como o seu perfil sensato e moderado. Um perfil que aliás evidenciou também depois de ter sido vítima do oportunismo político de António Costa na forma como se remeteu ao silêncio agindo de forma leal para com o líder do PS que o afastou de forma pouco edificante. (…) O ódio dirigido contra António José Seguro parece ter como principal motivação o facto de, em vários temas importantes, ele ter tido razão antes do tempo. Acima de tudo, o PS não perdoa a António José Seguro ser diferente daquilo em que o PS, lamentavelmente, se tornou.”

André Ventura: O líder do Chega falha no objectivo de crescer (ainda) mais e falha (para já) em agregar a maioria do espaço não socialista, mas continua a expandir rapidamente a sua base eleitoral e conquista o seu melhor resultado eleitoral de sempre tanto em termos percentuais como em número absoluto de votos.

Nas legislativas de 2019, Ventura conseguiu 1,3% e 67.826 votos. Esse não foi o seu tecto eleitoral.
Nas presidenciais de 2021, Ventura conseguiu 11,9% e 496.773 votos. Esse não foi o seu tecto eleitoral.
Nas legislativas de 2022, Ventura conseguiu 7,2% e 399.510 votos. Esse não foi o seu tecto eleitoral.
Nas legislativas de 2024, Ventura conseguiu 18,1% e 1.169.836 votos. Esse não foi o seu tecto eleitoral.
Nas legislativas de 2025, Ventura conseguiu 22,8% e 1.437.881 votos. Esse não foi o seu tecto eleitoral.
Nas presidenciais de 2026, Ventura conseguiu 33,2% e 1.729.520 votos. Não é certo que tenha atingido o seu tecto eleitoral.

Sondagens pré-eleitorais: As tantas vezes vilipendiadas sondagens voltaram, uma vez mais, a revelar-se globalmente um indicador bastante fiável. Nunca é demais relembrar que sondagens pré-eleitorais não são previsões de resultados, mas não resisto a recordar que a última sondagem pré-eleitoral do CESOP-Católica deu Seguro com 67% e Ventura com 33%. É bastante provável que entre o trabalho de campo desta sondagem e o dia das eleições tenha havido oscilações (pela minha parte, suspeito que Ventura ainda estreitou a margem para depois perder terreno novamente nos últimos dias, em especial com o pedido de adiamento das eleições) mas a correspondência deveria agora ser reconhecida por quem tanto critica as sondagens noutras alturas.

Pedro Passos Coelho: Ainda que ausente, é paradoxalmente a grande figura à direita, tanto na primeira como na segunda volta. O seu silêncio valeu mais – muito mais – do que os apoios públicos de Luís Montenegro, Cavaco Silva, Durão Barroso, Manuela Ferreira Leite e toda uma galeria de “notáveis” e “históricos” do PSD à débil candidatura de Marques Mendes. O eleitorado tradicionalmente alinhado com o PSD não se impressionou com os apelos dos “notáveis” do partido e provou que o silêncio de alguém com a credibilidade de Passos pode ecoar mais alto do que o coro ruidoso de muitos outros. Sendo certo que Ventura deu mais um passo importante para liderar a direita em Portugal e eventualmente chegar a primeiro-ministro, os resultados mostram também que a única figura verdadeiramente unificadora à direita em Portugal continua a ser Pedro Passos Coelho. Muito do futuro político do país vai depender da sua decisão de voltar (ou não) à política activa.

Vencidos

António Costa: O grande derrotado destas presidenciais é António Costa e, com ele, os costistas que sempre odiaram e desprezaram António José Seguro. Como foi adequadanente destacado e explicado neste interessante artigo no Politico:

“The biggest loser of this weekend’s presidential election in Portugal was European Council President António Costa. Not only was Costa’s former rival in the Socialist Party, António José Seguro, elected the new head of state, the results also cemented the far-right Chega party as the country’s second-largest political force.”

O sucesso fulgurante do Chega deveu-se também a outros factores – como a liderança de Rui Rio no PSD, a conduta de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência ou a desastrosa estratégia das “linhas vermelhas” – mas a ascensão meteórica de André Ventura é sem dúvida em larga medida um legado da governação falhada de António Costa.

Luís Montenegro: Conforme era previsível, o gravíssimo erro estratégico da actual liderança do PSD ao insistir no apoio à candidatura pré-anunciada de Marques Mendes e a desunião das direitas ditaram mesmo a eleição de um Presidente socialista (depois de 20 anos de afastamento de Belém) e, simultaneamente, o maior resultado de sempre de André Ventura. Graças a esse erro grave e perfeitamente evitável, Montenegro coloca o PSD numa posição delicada, entalado entre um Presidente da República socialista e um Chega mais forte do que nunca.

Henrique Gouveia e Melo: Gouveia e Melo tinha a seu favor o potencial de corporizar de forma relativamente benigna a saturação do eleitorado com PS e PSD e beneficiava também do contraste de personalidade e postura com Marcelo, mas acabou por desbaratar o seu enorme potencial. A excessiva e contraproducente colagem ao sistema – patente na forma como se deixou rodear por algumas das figuras menos recomendáveis do regime ao longo das últimas décadas – somada à notória desorientação estratégica da campanha e ao fraco desempenho nos debates (com a notória excepção da forma assertiva como liquidou definitivamente a candidatura presidencial de Marques Mendes) acabaram por ser letais.

Extrema-esquerda e esquerda radical: Os candidatos apoiados por partidos à esquerda do PS não conseguiram sequer reunir, no seu conjunto, 5% dos votos (Catarina Martins teve 2,1%, António Filipe 1,6% e Jorge Pinto 0,7%, bem abaixo dos honrosos 1,1% de Manuel João Vieira). Vítimas certamente do voto útil em Seguro mas também da experiência da geringonça e da viragem do país à direita. É arriscado decretar a sua morte (até porque continuam a ter um enorme peso no sistema mediático e académico) mas estas presidenciais mostraram também que a extrema-esquerda e a esquerda radical terão de se reinventar para voltarem a ser eleitoralmente relevantes em Portugal.