O país continua entre Cila e Caríbdis e o governo no mesmo sítio . A pandemia parece estar sob controle mas as dúvidas escondem-se, por exemplo, num número diário de óbitos sempre igual. O «excesso de mortalidade» é omisso, ao contrário do que se passa em Espanha, e o governo persiste em ocultar onde viviam os falecidos e onde morreram (casa, hospital, «lar de idosos»), enquanto responsabiliza as pessoas da Grande Lisboa pela continuação dos «novos casos»!

Entretanto, a Presidente da Comissão Europeia decidiu colocar ao dispor de todos os países da União um fundo financeiro destinado a restaurar a economia europeia. Ao governo português couberam 26 mil milhões de euros: 58% à borla e 42% a crédito: mais de 10% do PIB! Além de o dinheiro que não custa a ganhar pouca riqueza gerar, podemos ter a certeza que, neste caso ainda por decidir, a dívida nacional, que já está a crescer devido à ruptura económica, aumentará.

Em suma, dê o projecto da Comissão no que der, a pergunta é de que forma conta o governo conseguir aquilo que não conseguiu em quase 5 anos durante os quais a dívida provocada pela bancarrota de 2011 permanece acima do PIB anual do país? Que garantias dão o PS e os partidos que o apoiam? Nenhumas! Entre muitos outros, o caso da TAP é paradigmático: o Estado pretende resgatar hoje de novo a empresa, quando já foi decretada há 20 anos a venda da TAP à Swissair – António Costa era membro do governo Guterres – e isso só não aconteceu porque esta faliu antes! Outra prova da falta de visão dos governos PS é o papel do actual primeiro-ministro na entrega da EFACEC a Isabel dos Santos, cujo dinheiro nunca mais veremos!

A oferta feita pela Comissão Europeia na esperança de impedir a implosão da UE e a eventual recomposição de um «bloco frugal», como designam os países que não estão convencidos das vantagens em desbaratar milhões de euros com governos incapazes de se emendar, coloca-me um dilema. Com efeito, não deixa de ser contraditório que todos os adversários do projecto de uma Europa federal, sejam de esquerda ou de direita, estatistas e nacionalistas como são, se entusiasmem com o dinheiro oferecido pela Comissão, quando os federalistas temem, com razão, que aquilo que nos for dado sirva apenas, como tem servido, para manter o corporativismo estatal herdado de Salazar e que faz de Portugal aquele país que não sai da «cepa torta»!

Chego a perguntar-me se não é isso que os estrategos da UE querem. Quando tomamos conhecimento que o primeiro-ministro, dada a sua aparente falta de tempo, decidiu recrutar o administrador da Partex até a Gulbenkian decidir vendê-la à… Tailândia (?!), a fim de este conceber o plano de restauração económica nacional, fomos rapidamente informados pelo próprio que não será membro do governo (seria apenas mais um entre 70 membros!) mas, em compensação, já tinha concebido num par de horas um programa de renovação nacional com o qual imagino que todos iremos discordar nem seja só por discordar…

Pela minha parte, o conservadorismo pós-salazarista das estradas e do turismo que Costa e Silva disse ir propor, fez-me pensar que, se calhar, o melhor para Portugal era que os quatro países «frugais» da UE votassem contra aquele projecto pseudo-desenvolvimentista e acabassem com o «bodo aos pobres», mas não com a actual União, a fim de a refazer de cima a baixo! Admitindo, todavia, que haja uma espécie de nova «troika», com uma concepção moderna da economia capaz de desfazer o plano Costa e Silva, então muito haveria a fazer ao arrepio de quase tudo o que tem sido feito no país nos últimos 25 anos!

Onde o Estado tem crescido, terá de encolher e muito, desde logo para separar de vez o funcionalismo público da angariação de votos. Para aumentar a produtividade da função pública, em especial no sector da justiça, é retirar-lhe os privilégios que vêm do século XIX, como o «emprego para sempre». O «estado social» deixaria de ser essa teia infinita de subsídios concebidos para comprar eleitores e as reformas passariam a basear-se em descontos reais corrigidos pelo IRS. E se alguma coisa falta, não são estradas como as do salazarismo. São comboios e portos modernos ligados ao resto do mundo. Quanto ao turismo, é, juntamente com a construção civil, a indústria de mais baixa produtividade. E esta última vem de um sítio só: do efectivo conteúdo da aprendizagem escolar e daí a necessidade de uma reforma a sério do ensino e do elitismo do professorado perante a futura vida profissional dos alunos. E muito mais há que exigir se porventura o «bodo aos pobres» europeu se mantiver!