PS faz 44 anos: na meia idade como um “partido novo”

20 Abril 2017

PS celebrou os 44 anos com gin, croquetes, concerto de jazz e uma homenagem a Soares, que dá agora nome ao jardim da sede no Rato. Ferro Rodrigues fala em momento "novo" e "excecional" para o PS.

Meio sunset moderno, meio copo de água de casamento tradicional. Foi assim a festa de aniversário do PS que começou com copos de gin na mão e um mini-concerto de jazz, ainda antes da chegada do líder, António Costa. No jardim da sede do largo do Rato — que mudaria de nome antes de anoitecer –, Ferro Rodrigues, o único antigo secretário-geral socialista presente, falava sobre os 44 anos do PS ao Observador: “Este é um momento excecional para o partido. O PS vive um momento novo, mais muito importante.

O tempo “novo” de que fala Ferro Rodrigues é o de governar virado para a esquerda. Mais do que isso: com o apoio da esquerda. Daí que, horas mais tarde, António Costa tenha rejeitado o bónus de deputados para o partido que vencesse as eleições, que o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, tinha proposto de manhã num almoço. “Seria um bónus na secretaria” e “mau para a democracia”.

"Este é um momento excecional para o partido. O PS vive um momento novo, mais muito importante."
Ferro Rodrigues, em declarações ao Observador

Primeiro, a festa. O PS fazia esta quinta-feira 44 anos, naquele que foi o primeiro aniversário do partido após a morte do seu histórico fundador Mário Soares. Era com o nome do primeiro secretário-geral do PS que havia de ser batizado o jardim da sede do PS no Largo do Rato. Mas primeiro era altura de “convívio” entre militantes. Ferro Rodrigues era o único antigo antigo líder na festa — se descontarmos o tempo que Maria de Belém, ali presente, assumiu o cargo de forma interina — mas os militantes podiam ver as fotos de todos os antigos secretários-gerais, expostas nas paredes, no caminho até ao jardim. É fácil perceber as ausências de todos: António Guterres está na ONU, Sampaio por questões de saúde (e não só) evita eventos do partido, Vítor Constâncio está em Frankfurt no BCE e António José Seguro anda afastado de tudo o que seja política, e vive longe, nas Caldas da Rainha.

O bolo dos 44 anos do PS.

ANDRÉ CARRILHO / OBSERVADOR

Falta outro antigo líder e ex-primeiro-ministro, afastado das ações partidárias oficiais: José Sócrates, para quem o 44 tem um significado especial. Era este o número de prisioneiro do antigo primeiro-ministro no Estabelecimento Prisional de Évora e, por coincidência, o número de anos que completou esta quinta-feira o PS. José Sócrates esteve ausente, mas não foi esquecido. Já depois de cortado o bolo, no corredor com retratos de secretários-gerais, um militante de base vira-se para um camarada de partido e, enquanto se prepara para uma selfie, afirma: “Vamos tirar uma foto aqui com o patrão. Este é que é o meu patrão”. O “patrão” era José Sócrates. Ou melhor: o retrato de José Sócrates.

Militantes tiram selfie junto a retrato de José Sócrates, o “patrão”.

Logo após o corredor com as molduras, chega-se à sala que dá para o Jardim, com os militantes a serem recebidos por um poema de Sophya de Mello Breyner, escrito a 1 de maio de 1975, que se chama, precisamente, “Para os militantes do PS”.

Cartaz colocado à entrada para o jardim onde decorreu o convívio de aniversário do PS.

Mas vamos à festa, no jardim. Houve um desfile de governantes: Maria Manuel Leitão Marques (ministra da Presidência), Azeredo Lopes (ministro da Defesa), Castro Mendes (ministro da Cultura), no meio de vários secretários de Estado. Deputados, ex-deputados. Muita gente do PS, embora uns mais destemidos que outros no momento de pedir um gin, ou tirar um croquete. Ao mesmo tempo, os militantes iam tirando a foto junto a um painel de rosas e segurando num cartaz que dizia: “44 anos. Parabéns, PS”. Também Costa acabaria por não resistir a uma foto de família nesse mesmo cenário. Rosas, rosas e mais rosas. Laranja, só mesmo o sumo servido pelo catering.

O secretário-geral deu, no entanto, espaço para o convívio. Só chegou perto das 20h00, quando a festa tinha começado às 18h30. Das colunas foram saindo músicas como o Cais de Sodré“, de Rodrigo, o “125 Azul“, dos Trovante, o “Desfado“, de Ana Moura ou o “Brilhozinho nos Olhos”, de Sérgio Godinho — música com que foi apresentado António Costa no seu primeiro Congresso como secretário-geral.

Entretanto, houve um mini-concerto de jazz do pianista Filipe Raposo e da cantora Rita Maria, com músicas como “My Favourite Things“. Carlos César, o presidente do partido e líder da bancada parlamentar socialista, fazia de anfitrião antes da chegada de Costa. Alguns militantes optavam pela conversa, outros por ouvir atentamente o jazz, nas cadeiras junto ao palco improvisado ou até sentados num pequeno muro, como era o caso de Helena Roseta, quase sentada no chão.

O jardim Mário Soares

No primeiro aniversário sem Mário Soares, o PS quis fazer-lhe mais uma homenagem: dar o nome do jardim da sede do PS ao pai. Para os socialistas, homenagear o fundador, nunca é de mais. João Soares começou por dizer, em declarações ao Observador, que o gesto do PS é uma “homenagem bonita”. O deputado do PS ainda vai sendo muito abordado pelos militantes, enquanto explica que os socialistas ainda têm “uma ligação muito forte com ele [Mário Soares] e com a memória dele”. No entanto, destaca que é uma “ligação afetiva”, não se trata de um “sentimento de herança política”, mas de “afetividade”.

"É uma homenagem bonita. Os militantes sentem uma ligação muito forte com ele [Mário Soares] e com a memória dele".
João Soares, deputado do PS e filho de Mário Soares, em declarações ao Observador

A placa com o rosto de Mário Soares, da autoria do artista plástico Rogério Timóteo, estava ainda tapada com a bandeira do PS, quando António Costa chegou. O primeiro-ministro deu abraços, cumprimentou pessoas, tirou a foto no spot preferido da JS — o tal painel de rosas — e ouviu um forte aplauso. Depois disso era a hora da homenagem. Maria Rui — ex-assessora de Costa enquanto presidente da câmara de Lisboa, que ficou como assessora de imprensa no Largo do Rato — ajustou o microfone ao primeiro-ministro. O secretário-geral do PS falou apenas três minutos, para dizer que esta era uma “singela homenagem àquele que não foi só o fundador do PS, foi aquele que deu a alma e que deu o espírito ao Partido Socialista”.

Costa falou no “amor que Soares tinha à liberdade”, da “imensa dedicação que tinha à democracia”, ao “enorme esforço que fez para tornar o PS num partido nacional e popular”. Lembrou depois um outro “grande amor” do fundador do PS: “O amor aos jardins, às árvores e à natureza em geral. Mas em especial às árvores. E a capacidade que tinha de descrever cada árvore que tinha nos jardins que ia plantando”. Daí, ter decidido dar o seu nome, não a uma sala ou à própria sede, mas sim ao jardim.

Coube à neta de Mário Soares, Lilah, tirar a bandeira da nova placa/escultura do jardim da sede do PS. Após tirar a bandeira, Costa deu um beijo a Lilah e perguntou-lhe: “Está bonito o avô?”. A neta de Mário Soares respondeu afirmativamente com a cabeça.

António Costa lembrou ainda que além desta placa, mantém no seu gabinete “a lindíssima foto de Mário Soares na varanda no dia em que chegou do exílio à estação de Santa Apolónia”.

O ambiente seguiu de festa e, para o fim, ficou o bolo. Os militantes cantaram os parabéns ao PS, mas dispensaram as velas. O próprio bolo tinha a imagem de uma rosa vermelha, o símbolo do PS e a indicação de “44 anos do Partido Socialista”. António Costa não quis ser o “senhor do bolo” e deixou a tarefa de cortar as primeiras fatias para o presidente do PS, Carlos César, que, com rigor, foi cortando pequenos retângulos e distribuindo por quem se aproximava.

Não é o tempo de “bónus na secretaria”

Durante toda a festa quase não se falou de política. Mas à saída do bolo, Costa lá tinha as câmaras de televisão, os microfones e os gravadores apontados. “Não há declarações”, disse a assessora ao mesmo tempo que Costa se perfilava para responder aos jornalistas.

Primeiro assunto: o líder parlamentar do PSD tinha defendido a atribuição de um bónus de deputados para o partido que vencesse as legislativas, de forma a facilitar maiorias parlamentares e a estabilidade governativa. Costa não gosta da ideia. “Ao fim de todos estes anos de democracia, era bom que nos habituássemos a viver com um sistema eleitoral que assegure e respeite escrupulosamente a proporcionalidade“.

O primeiro-ministro até reconhece que “há melhorias que deveriam ser introduzidas, designadamente aquelas que permitissem uma maior personalização do mandato, uma maior proximidade entre eleitores e eleitos”, mas “manifestamente sistemas que deem bónus na secretaria, não faz qualquer sentido, é absolutamente inaceitável e seria uma desproporção absoluta da proporcionalidade. Não seria só inconstitucional, como seria mau para a nossa democracia.”

Além disso, “não responderia a problema nenhum porque o sistema eleitoral pode e deve ser melhorado. Não será nesta legislatura porque faz parte do acordo que não haverá qualquer alteração do sistema eleitoral, agora não há problema nenhum com a governabilidade porque nós há muitos anos que temos encontrado sempre fórmulas de ter governos que têm apoio maioritário da Assembleia da República, ou porque há maioria absoluta ou porque há soluções parlamentares que têm permitido assegurar a governabilidade. Portanto, não é uma medida que se justifique.”

António Costa destacou ainda que o seu Governo tem “muitas batalhas pela frente” e que “um dos principais desafios é reduzir as desigualdades”. Isso, explica Costa, “implica uma estrutura de IRS que seja mais justa e que permita começar a inverter a situação que resultou das últimas reformas do IRS, que, ao comprimir os escalões, diminuiu a progressividade. E isso diminui a justiça fiscal”. Por outro lado, o primeiro-ministro quer repor a justiça no acesso à reforma de quem começou a trabalhar, por exemplo, com 12 anos. Sobre o facto de Legislativas e Europeias serem em 2019, António Costa considerou “prematuro” fazer essa discussão.

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