Crescimento Económico

2,8%: ou isto ou aquilo

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É um pouco absurdo culpar o governo pelo fraco crescimento do (primeiro semestre do) primeiro ano da governação e dizer que não tem mérito algum no crescimento do (primeiro trimestre do) segundo ano.

Como ontem explicou Rui Ramos, é tão absurdo dizer que António Costa merece os parabéns pela taxa de crescimento homóloga de 2,8% como pela vitória no Festival da Eurovisão. E, se a vitória no Festival da Eurovisão se deve ao cantor, Salvador Sobral, e à autora, Luísa Sobral, o crescimento das exportações, o grande motor do crescimento da economia, deve-se aos empresários, às empresas e aos seus trabalhadores. Todos os responsáveis estão de parabéns.

Este é um lado da moeda. O outro lado da moeda diz-nos que, se tivéssemos ficado em último lugar do Festival, também não haveria razões para culpar António Costa. E, naturalmente, se a taxa de crescimento tivesse sido zero, então a culpa também não teria sido de António Costa. Não dá para ter sol na eira e chuva no nabal. Se se culpa Costa e a sua Geringonça pelo fraco crescimento de 2016, então dê-se os parabéns pelo crescimento de 2,8%. É um pouco absurdo culpar o governo pelo fraco crescimento do (primeiro semestre do) primeiro ano da sua governação e dizer que não tem mérito algum no crescimento que se verifica no (primeiro trimestre do) segundo ano.

E o mesmo raciocínio se aplica relativamente a outras variáveis económicas. Se quando as taxas de juro da dívida de longo prazo portuguesa subiram aos 4,3% em meados de Março a culpa era do governo, então o facto de elas ontem se situarem nos 3,3% também é mérito do governo. Ou a responsabilidade é do governo ou não é, as duas coisas ao mesmo tempo é que não. “Ou isto ou aquilo”, até uma criança entende.

Esta dificuldade em atribuir crédito ao governo pelos bons resultados da economia pode vir a ser muito pedagógica, caso o Diabo resolva visitar-nos nos tempos mais próximos. Entre outros possíveis motivos, a vinda do Diabo pode ser o resultado do BCE deixar de comprar dívida nos mercados financeiros, de a agência de rating DBRS baixar a notação de Portugal, de as coisas na Grécia descambarem completamente e os mercados ficarem nervosos, de o Euro deixar de ser uma moeda politicamente viável, de rebentar uma bolha financeira mundial que resulta de tantos anos de políticas monetárias hiperexpansionistas, etc.

Como espero ser claro do parágrafo anterior, a visita do Diabo nos próximos tempos depende muito mais de factores externos do que de factores que possamos controlar internamente. O que verdadeiramente depende do governo, as finanças públicas, é o que se sabe: um défice orçamental de 2%. Dificilmente seria possível almejar melhor e, objectivamente, se o défice fosse de 1,6 ou 1,8%, a nossa capacidade para pagar a dívida seria similar, pelo que a nossa vulnerabilidade à turbulência externa seria semelhante.

Se, do ponto de vista económico, o crescimento anunciado para o PIB é uma boa notícia (que apenas será excelente se se tornar recorrente), do ponto de vista político os efeitos são muito engraçados: quer à esquerda quer à direita de Costa, o discurso fica esvaziado.

À direita, passou a ser absurdo dizer que o desastre é a consequência necessária das actuais políticas. É também divertido ver Passos Coelho, um líder político de direita, alegar que o crescimento das exportações é mérito dum (seu) governo e a criticar o actual por falta de investimento público. É a prova de que a fé no intervencionismo estatal não é um exclusivo da esquerda (tal como o liberalismo não é exclusivo da direita).

À esquerda, fica desmentida a tese de que é impossível crescer sem haver uma reestruturação da dívida. Afinal, não só é possível crescer, como, caso este ritmo de crescimento se mantenha, é possível, sem um esforço descomunal, chegar a um défice de zero em 2020. E, como expliquei há 15 dias (e considerando uma taxa de crescimento médio de apenas 2%), nessa situação o rácio da dívida pública em relação ao PIB desce por si próprio a um ritmo bastante apreciável.

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