Governo

Costa é mais fraco do que se julga

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Um verdadeiro líder quando fala sobre um tema tem a última palavra e toma a decisão final. Mas Costa fala e não decide, recua e volta a falar. E já todos perceberam que o país tem um PM sem autoridade

1. Uma pessoa lê a imprensa portuguesa e nota uma surpresa geral pelo apagão sofrido subitamente pelo PM, António Costa. Está tudo admirado pelos erros e pela desorientação de Costa. Mas haverá razão para tanta surpresa? E se Costa for mais fraco do que muitos julgam, ou pensavam?

Quais são as razões que levaram muitos, incluindo alguns nas direitas, a elogiarem as qualidades políticas de Costa? Antes de mais, o percurso político de António Costa. Foi, por duas vezes, um ministro competente. Mas a competência de ministro é insuficiente para ser um bom PM. Há vários casos de chefes de governo com qualidade, quer em Portugal como na Europa, que nunca foram ministros. Tal como há casos de antigos ministros de qualidade que se revelaram Primeiro Ministros incompetentes.

O percurso político fez de Costa um candidato natural à liderança do PS há muitos anos. Mas é aqui que começam as dúvidas sobre as capacidades de liderança de Costa. Em 2004, Costa gozava de um currículo político superior ao de Sócrates. Deveria ter sido ele a disputar a liderança contra Manuel Alegre. Mas não, foi Sócrates que avançou. É nestes momentos que se revela a liderança política. Os líderes, normalmente, apanham o comboio do poder à primeira; não esperam. Costa hesitou e esperou. Foi o primeiro fracasso da sua carreira política. E o argumento de que Costa não queria ser líder socialista não me convence. Como se viu mais tarde, queria mesmo ocupar a liderança socialista e chegar a PM.

Em 2011, voltaram as hesitações de Costa quando Sócrates abandonou a liderança do PS. Mais uma vez, Costa não avançou e esperou. Estas hesitações mostram uma das grandes lacunas de António Costa. Não goza de uma autoridade natural, indispensável à liderança política. Como se nota agora, Costa tornou-se num PM sem autoridade. Um verdadeiro líder quando fala sobre um assunto tem a última palavra e toma a decisão final. Mas Costa fala e não decide, recua e volta a falar. E já todos em Portugal perceberam que o país tem um PM sem autoridade e de palavra fraca e fácil. Está tramado, sobretudo com os seus camaradas de geringonça.

A suposta habilidade de Costa para fazer uma aliança com comunistas e bloquistas foi outra razão para muitos elogiarem o PM. Mais uma vez, discordo dos elogios a Costa. O PCP e o BE quiseram um governo socialista, e sobretudo evitar um segundo governo de Passos Coelho, desde a noite das eleições de 2015. Ofereceram os seus votos no parlamento a Costa. Qual foi o mérito de Costa? Nenhum. Limitou-se a aceitar a oferta do PCP e do BE. A geringonça deve muito mais ao medo que Passos inspirava nas esquerdas do que aos méritos políticos de Costa. Aliás, a vontade de manter Passos afastado de São Bento e os dividendos do poder partilhado entre as esquerdas explicam em grande medida os acordos para os orçamentos desde 2016. Não foi o talento político de Costa.

O anti-Passismo das esquerdas, a boleia de um Presidente da República muito popular e o crescimento económico, para o qual o governo não tem qualquer mérito, fizeram dos dois primeiros anos de Costa em São Bento um perído relativamente fácil. Mas a qualidade dos líderes políticos vê-se quando os tempos são difíceis. Ninguém dúvida que a segunda metade da geringonça será mais difícil do que foi a primeira metade. O governo enfrenta dois problemas muito complicados. No essencial, o programa da geringonça está cumprido a metade do percurso. O que vão fazer nos próximos dois anos? Ninguém sabe. Nem nós, nem eles.

O anúncio do PCP contra uma repetição da geringonça é o problema mais complicado para o governo. A partir de agora vai intensificar-se a competição política entre o PS, o PCP e o BE pelo eleitorado de esquerda. O anúncio dos comunistas obriga o BE a aumentar a sua oposição ao governo, mesmo contra a vontade dos seus militantes que gostariam de se aliar ao PS. O PCP e o BE, mantendo um apoio parlamentar ao governo, vão endurecer a sua oposição para impedir uma maioria absoluta do PS em 2019. Claro que depois das eleições poderão fazer uma nova geringonça para evitar um governo de direita, mas até 2019, serão adversários políticos. Ainda não sabemos qual será o impacto desta rivalidade no governo. Um ponto parece certo. Ninguém espera que Costa revele o seu melhor quando os tempos políticos se tornarem mais difíceis.

O governo de Costa teve um mérito indiscutível durante os últimos dois anos: apesar da aliança com as esquerdas radicais, cumpriu no essencial os compromissos europeus. Mas a reconciliação entre a geringonça e a Europa será a partir de agora mais difícil, sobretudo se Centeno for escolhido para liderar o eurogrupo. O expediente de Costa para tentar resolver essa tenção mostra que o PM já não é capaz de aprender com os seus erros. Mais uma vez, está a criar expectativas impossíveis de cumprir, dizendo que a escolha de Centeno será o primeiro passo para reformar o Euro. No fundo Costa tem um duplo problema que lhe será fatal. Não só julga que é mais esperto do que é, como pensa que os outros são mais estúpidos do que são.

2. Fiquei perplexo com a afirmação de Pacheco Pereira, a propósito da possível ida de Centeno para a liderança do eurogrupo. Afirmou: “será o mesmo que passar a ter como ministro das Finanças um general do exército inimigo.” Esta linguagem belicista e populista, em relação à União Europeia, é inaceitável num antigo deputado português e europeu. A deriva radical de Pacheco Pereira está a ultrapassar os limites aceitáveis. É a versão nacional do Portugal first contra o inimigo europeu. Donald Trump não diria melhor. Quem imaginava que Pacheco Pereira é afinal o trumpista doméstico.

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