Zeinal Bava tem qualidades invulgares. Foi com essas características, difíceis de encontrar na mesma pessoa, que fez a sua carreira de gestor até atingir um raro nível de reconhecimento internacional. Não é um medíocre que entrou na PT à boleia de um apelido sonante, por tráfico de influências, permuta de favores ou proximidade partidária. Ao contrário de outros que o antecederam na PT, não precisou desses expedientes para atingir lugares de destaque.

Se, posteriormente, se rendeu a essa cultura para ascender ao topo, já é outra história. Teve obviamente que fazê-lo, tornando-se um gestor de equilíbrios e, para todos os efeitos, também um “homem do BES”. Podia não ser um entusiasta, mas também não afrontava.

Entre o leque de qualidades de Zeinal Bava está o domínio dos números, as contas de cabeça, a habilidade financeira que a banca de investimento lhe deu e depois desenvolveu. Ele não se atrapalha com a quantidade de zeros ou com casas decimais, com as margens e as percentagens, com as somas e divisões. Sabe de cor e salteado os EBITDAS e os ARPUS, os ROE e os ROI, os CAPEX e os yields. E como e em quanto a variação de cada um vai influenciar todos os outros.

Outra qualidade é a exímia preparação para cada reunião, o domínio de cada dossier, a construção de um discurso lógico, convincente e suportado em factos e dados. Ele tem um argumento novo para contrariar cada contra-argumento, dando a entender que já tinha pensado antes em todos os caminhos possíveis e na forma de os barrar para apenas deixar aberto o que ele acha que é o adequado.

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Este homem, que esteve durante alguns anos à frente dos destinos da PT, deve estar hoje com vergonha daquele que esta quinta-feira deu um triste espectáculo perante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES/GES.

Sem memória, incapaz de recordar números, sem conhecimento do que se passava na empresa que dirigia. Sem um dossier minimamente preparado que lhe avivasse factos e o ajudasse a sustentar as suas teses. Os papéis ficaram, aliás, esquecidos em casa porque a última coisa que lhe convinha era entrar nos factos comprovados ou comprováveis. O Zeinal-Bava-CEO-da-PT não contrataria nem para estagiário este Zeinal-Bava-interrogado-na-CPI.

O ex-líder da PT foi responder aos deputados para se tentar safar talvez da única forma possível: fazer um papel de tonto que ele não é nem nunca foi, esperando que todos os que o ouviram sejam tontos o suficiente para acreditarem na sua narrativa. Foi lá dizer que o gestor vencedor de prémios dos últimos anos era, afinal, uma construção de papel, uma ilusão que nunca teve existência real. Foi lá tentar convencer os deputados e o país que era, afinal, um incompentente a quem tinham escapado 900 milhões de euros. Ou, pelo menos, um amador, como certeiramente disse a deputada Mariana Mortágua.

Qual seria a alternativa a este triste papel? Dizer que sim, que sabia. Que tinha participado nas decisões de investimento da PT no grupo GES, ou que, pelo menos, as conhecia e tinha aprovado ou permitido. Assumir que numa empresa não há aplicações de tesouraria de 900 milhões num único produto sem que haja previamente 37 validações internas antes de o assunto subir ao vértice dos decisores para receber o ok final.

Mas o caso PT está longe de estar fechado e as eventuais peças de defesa judicial começam a ser feitas nas audições perante os deputados. Este escândalo, filho legítimo do caso BES, tem contornos jurídicos ainda por definir. No limite, pode haver responsabilidades criminais para alguns dos envolvidos. Diria mesmo que num país decente, com órgãos de supervisão e judiciais que funcionem devidamente, acontecimentos deste calibre na gestão de uma empresa cotada não passariam à margem da imputação de condutas criminais. Foram demasiadas falhas em estruturas preparadas para que elas não aconteçam. Foram demasiadas vontades para que a fusão com a Oi se fizesse a todo o custo, de preferência a um custo mais baixo para os brasileiros. Que interesses estavam ali em jogo? E qual foi o preço desses interesses? E porque é que as auditorias tiveram os nomes dos responsáveis omitidos? Se isto não é um caso de polícia, então não sabemos o que é um caso de polícia.

A economia de mercado e o capitalismo, com as suas complexidades e riscos próprios, não podem ser o álibi perfeito para a destruição de valor ou, pior do que isso, para a transferência ilegítima de valores. Há milhares de pequenos accionistas lesados que, decerto, não perderam de um lado para ganhar do outro. Como diz a cartilha liberal, à máxima liberdade deve corresponder a máxima responsabilidade.

O desfile destas misérias do nosso capitalismo tem sido possível no Parlamento porque os deputados estão, finalmente, a desempenhar o seu papel nesta CPI do BES. O que temos assistido é a um comportamento digno da generalidade dos parlamentares, que mostram interesse em saber e esclarecer e parecem estar genuinamente mais interessados em conhecer a verdade do que em fazer a chicana política que contaminou tristemente a CPI do BPN, para dar só um exemplo. Têm resistido à tentação de torcer escandalosamente os factos até eles satisfazerem conveniências partidárias de ocasião. Isso deve ser realçado e aplaudido porque, por uma vez, a decência não tem cor política e a ética não é de direita nem de esquerda.

Entre os deputados desta comissão destaca-se justamente Mariana Mortágua. Estudou profundamente assuntos que são muito complexos, tem sido implacável nas questões sem entrar no terreno fácil da demagogia nem perder a preciosa honestidade intelectual. É suposto que os deputados sejam também porta-vozes dos cidadãos que não podem sentar-se à volta daquela mesa para questionar directamente os inquiridos. Nesse sentido, eu sinto-me ali representado pela deputada do Bloco de Esquerda. E muitos jornalistas deviam aprender como se faz.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com

P.S. Este artigo foi erradamente publicado com o nome de outro autor, lapso pelo qual pedimos desculpa.