Liberdade de Expressão

O triunfo da vontade

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A cada mentira, segue-se a impunidade, a cada impunidade segue-se um novo avanço no controlo de um país apático. A “tenebrosa máquina de propaganda” não é particularmente sofisticada. Mas é suficiente

Há dois ou três anos, os ataques à liberdade de expressão ainda implicavam considerável logística: reunir uma quadrilha, enviar a quadrilha a eventos alheios à moral vigente, fazer a quadrilha cantar a “Grândola” até calar o orador/blasfemo em questão. Agora, os ventos que sopram favorecem uma espécie de Simplex da censura e o processo simplificou-se imenso: basta pedir.

Já toda a gente sabe que a direcção da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova cancelou uma conferência de Jaime Nogueira Pinto por exigência da associação de estudantes. Não importa que a conferência tenha sido organizada por uma entidade, a Nova Portugalidade, que pelos vistos venera ditadores de Salazar a Chávez. Nem importa que a associação de estudantes, cheiinha de meninos do BE, apenas venere alguns dos ditadores inventariados e abomine os restantes. Importa que a proibição tenha vingado, e que um espaço teoricamente plural seja sequestrado por semi-analfabetos com pulsões totalitárias. A designação do estabelecimento já não prometia nada de especial (nas “ciências sociais” cabe justamente tudo o que não é científico). Os acontecimentos referidos demonstram o estado do ensino e as esperanças suscitadas pela “geração mais bem preparada de sempre”.

Além disso, dizem-nos umas coisas sobre o país em geral e as forças “democráticas” que o assaltam. Principalmente quando estas não dizem nada: boa parte do PS, o BE em peso e o PCP quase inteiro dedicaram ao acto de delinquência um interessante silêncio. A excepção veio do deputado comunista Miguel Tiago, que proclamou no Twitter: “Uma democracia que tolera fascistas é suicida. Uma que os promove é falsa.” Se não estou em erro, o deputado Miguel Tiago é o sujeito que na semana passada ameaçou retirar o emprego à presidente do Conselho de Finanças Públicas. Esta semana está carregado de razão.

Apesar das advertências constitucionais, Portugal tolera e promove o fascismo com vasta irresponsabilidade. O à-vontade do deputado Miguel Tiago é um exemplo. Outros exemplos não faltam. Os fascistas promovem palestras anti-semitas sem arriscar o cancelamento por direcções zelosas. Os fascistas organizam festas em louvor de despotismos sortidos sem risco de verem os trabalhos sabotados com cantorias ou bastonadas. Os fascistas passeiam os respectivos símbolos na rua sem inspirarem um reles insulto ou uma sova das antigas. Os fascistas concorrem a eleições com programas criminosos e a bênção dos “media”. Os fascistas desfilam nos “media” e infestam as “redes sociais”. Os fascistas infiltram os sindicatos e as “causas”. Os fascistas ocupam uma percentagem significativa do Parlamento, onde subscrevem os genocídios de Estaline. Os fascistas influenciam decisivamente o governo.

Durante anos, acreditei nas virtudes do ecumenismo partidário. Na minha ingenuidade, imaginei-nos civilizados o bastante para reduzir “naturalmente” ao devido e ínfimo lugar as ideologias do ódio e do sangue. É escusado notar que me enganei. A tolerância para com o fascismo sufoca a democracia, a sua promoção impõe o tipo de regime que começa a espreitar.

Nestes tempos tristes, acho que acharia graça a que os democratas que sobram por aí aplicassem aos fascistas o tratamento que os fascistas prescrevem. Não teria preço assistir à interrupção das gémeas Mortágua através de uma cantata de Bach, ou à troca da t-shirt do “Che” por uma estadia em campo de reeducação. Mas também não teria grande utilidade. Por dois motivos. O primeiro prende-se com o número: duvido que a maioria dos portugueses preze a liberdade a ponto de valer a pena defendê-la. O segundo prende-se com o método: é fundamental não descer ao nível dessa gente. A bem da higiene, às vezes no sentido comum do termo, há que manter a distância. Por mim, procuro aumentá-la a cada dia. Se os fascistas desejam assim tanto o país, os fascistas que fiquem com ele. É, de certo modo, o fim do país? Não é o fim do mundo.

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1.
Pela LER, Lei da Ética Republicana, 89,6% das falcatruas ou similares realizadas em Portugal com aval partidário conduzem direitinhas ao PS. Por isso, foi com naturalidade que a monstruosa “fuga” de capitais para os offshores, um “escândalo” que comprometia dramaticamente o governo anterior, afinal dizia sobretudo respeito a casos sucedidos durante o governo actual. Felizmente, também existe a LORPAS, Lei da Ocultação Republicana de Pelintragens Atribuíveis a Socialistas, a qual, como o nome indica, transforma os escândalos em histórias sem importância logo que o PS aparece neles.

Num ápice, os “paraísos fiscais” que, a fim de anularem os saques na CGD, alimentaram manchetes bombásticas e editoriais inconformados, quase desapareceram dos noticiários. A CGD desaparecera antes. Hoje, o grande desígnio nacional é anular a dra. Teodora Cardoso, além de sugerir o vil desempenho do governador do Banco de Portugal, de modo a controlar o dito. Amanhã, a indignação será outra, sem que as indignações prévias sejam justificadas ou resolvidas. A cada mentira, segue-se a impunidade, e a cada impunidade segue-se um novo avanço no controlo de um país genericamente apático. A “tenebrosa máquina de propaganda” para que o prof. Cavaco avisou não é particularmente sofisticada. Mas é suficiente.

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2.
Votei em Marcelo contra Sampaio da Nóvoa. Hoje, começo a acreditar que a candidatura do segundo foi um estratagema para eleger o primeiro. Se não foi, parece, dada a “cooperação exemplar”, ou os excessos a que o PR chega para legitimar as patranhas que o governo conta enquanto lança o país para o abismo, económico e não só. Na perspectiva do PR, trata-se de ler as sondagens e, entre abundante folclore, garantir a sua popularidade à esquerda e à “direita”, método cuja eficácia está por apurar. Na perspectiva do país, é qualquer coisa de muito mais sinistro. Há nomes, e nomes feios, para definir o modo como uma pessoa colabora na ruína de muitos para acautelar a própria pele. A questão é se, um ano depois da tomada de posse, estou arrependido de ter votado em Marcelo. A palavra é apavorado.

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