O PS receia que a abstenção lhe roube uma “vitória histórica”, como pede o líder, e uma subida do PCP pode tornar os comunistas nos grandes vencedores, deixando o PS para segundo plano. A união dos socialistas pode ser só aparente, para eleitor ver. O objetivo é esse mesmo: tentar convencer o maior número de portugueses a votar e pedir-lhes para “concentrarem” os votos no PS.

A vitória nas europeias, esperam os socialistas, servirá para aumentar a legitimidade do PS em “censurar” o Governo. Mas para o bolo ficar completo falta uma decisão do Constitucional. Um dirigente socialista confessa ao Observador que o chumbo esperado do TC às medidas do Governo vai fragilizar ainda mais uma coligação já partida: “Imagine se o chumbo tem efeitos retroativos a Janeiro. Ainda têm de apresentar um Orçamento Retificativo, depois da derrota, já vai ser muito difícil conseguirem novas medidas”.

Os socialistas reúnem-se em Comissão Política para a semana para avaliarem o que vão fazer com a vitória (esperada) de domingo, mas vontade para apresentarem uma moção de censura ao Executivo de Passos Coelho não falta. Tal como o Observador avançou, há dirigentes socialistas que querem aproveitar o capital político de domingo para pressionar politicamente o Presidente da República. António José Seguro não o desmentiu. E Assis, falando em nome do PS, deixou-o para depois de domingo.

Isto porque na caravana, na última semana cresceu o medo de que a vitória afinal poderá não ser tão grande quanto esperavam. Em vez da meta do PS para uma “vitória histórica” se fixar nos números de votos socialistas, fixam-na numa vitória pela derrota da Aliança Portugal. “Mais do que nós ficarmos acima dos 40%, se eles ficarem abaixo dos 30%, ou perderem mais um deputado do que se espera, o PS fica com maior legitimidade”, confessava um dirigente ao Observador. O problema está no facto de a abstenção atingir em cheio o eleitorado do bloco central. Os comunistas conseguem atrair os seus, os indecisos poderão nem ir votar.

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União contra todos, mas não com todos

O receio da última semana explicava-se pela saída das sondagens que davam uma elevada abstenção e uma subida do PCP. E por isso, nos discursos, Seguro (e por vezes Assis) foi pedindo um PS unido contra a direita, mas também contra a esquerda, a quem quer roubar votos. Numa primeira fase, o Bloco entrava neste lote, com a saída de sondagens, o PS virou-se para o PCP. Os dois pediram uma grande mobilização e uma concentração dos votos.

E se a concentração e união são mensagem de força, a presença de José Sócrates em Lisboa foi a cereja no topo do bolo, só estragado pela recusa de Mário Soares. Na falta de Mário Soares, passou pela campanha a mulher. Maria Barroso “quis dar um beijinho” a Assis e a Seguro e desejar-lhe sorte, porque soube que estavam na Baixa, onde tinha ido. Já Sócrates chegou para ser a estrela do último dia de campanha e para atirar à direita e dizer que a campanha tem “alterado entre o ódio e a imbecilidade”.

E foi estrela também pelo silêncio. Sócrates não discursou e em respostas aos jornalistas nunca referiu Seguro. “Gostei muito do discurso de Francisco Assis”, disse. E Seguro deixou para Assis a defesa do passado e nem por uma vez falou do Governo anterior. Agradeceu apenas a presença do “caro José Sócrates” no almoço da Trindade e ficou por aí. Questionado se gostava de ter visto o ex-primeiro-ministro na campanha, Seguro respondeu: “Gostava que o Governo descesse muito”. Assunto arrumado para Seguro, até porque falar de José Sócrates ainda lhe é caro.

O líder do PS tinha o alvo definido: o Governo de Passos Coelho. E foi também por isso que tomou o papel principal numa eleições que quis, propositadamente, que fossem confundidas entre nacionais e europeias. Porque são a “última oportunidade”, repetiu, para “dar uma grande derrota ao Governo” ou “censurar o Governo”. As europeias mais não são do que um primeiro acto. As legislativas (em 2015 ou antes) são o objetivo deste PS.

Seguro uns metros mais à frente

Assis tem mais dificuldades nas ruas. Não quer atrapalhar. “Bom trabalho, não quero incomodar”, respondeu a uma funcionária de uma peixaria, quando esta quase que ignorou a presença do candidato.

“Como está?”, “muito gosto”, foi assim que na maior parte das vezes cumprimentou na rua. A conversa não fluia com os portugueses na rua como fluia nos discursos. Pedia ajuda aos outros candidatos para a tarefa. “Onde está a Elisa Ferreira. Elisa Ferreira! Alguém chame a Elisa Ferreira”, pedia em Fafe, numa das arruadas permitidas pela chuva na última semana.

Seguro, por outro lado falava dos planos de reindustralização, da necessidade de mudança quando ouvia queixas. Assis ficava ou uns passos atrás, a falar com os representantes locais, ou uns passos ao lado. A acenar ou a cumprimentar.

A relação não é calorosa entre os dois, mas a mensagem e os elogios foram sendo repetidos na última semana para mostrarem um “PS unido” contra a direita “mais extremista” desde o 25 de abril. A rua também não foi amiga. Ou o tempo. A chuva roubou o palco a arruadas e o contacto com a população foi menor do que o previsto.