Durante os anos 70, Chevardnadze perseguiu a corrupção no seio do Partido Comunista e impulsionou reformas para a abertura dos mercados. Há quem sugira que se deve a Chevardnadze a política de abertura que viria a marcar os últimos anos da União Soviética.

Chevardnadze que se via como alguém que havia ajudado a “pôr um fim à Guerra Fria, a libertar a Europa, a reunificar a Alemanha e a democratizar o antigo espaço soviético”, morreu esta segunda-feira com 86 anos, vítima de doença prolongada.

Eduard Chevardnadze nasceu a 25 de janeiro de 1928 na República Socialista Federativa Soviética Transcaucasiana, que incluía os territórios da Arménia, do Azerbaijão e da Geórgia. Filho de um professor comunista, Chevardnadze tornou-se, aos 18 anos, um Komsomol (Liga da Juventude Comunista) e rapidamente ascendeu ao cargo de secretário da Liga da Juventude Comunista da Geórgia e de chefe da polícia, acabando por ser nomeado ministro do Interior na república georgiana.

Foi à frente das forças da autoridade que ganhou a fama de lutar contra a corrupção, principalmente no seio do Partido Comunista. Como lembra a BBC e a AP, Chevardnadze obrigou muitos oficiais georgianos a despojar-se dos carros de luxo, de mansões e de outras propriedades.

Durante a década de 70, Chevardnadze lutou contra a burocracia e introduziu reformas de mercado-livre tão amplas que levaram alguns a sugerir, como escreve esta segunda-feira a cadeia britânica, que a glasnost foi introduzida pelo futuro presidente da Geórgia e não por Gorbachev nos anos 80.

A atuação de Chevardnadze terá captado a atenção de Moscovo e em 1972 foi escolhido para liderar o Partido Comunista da Geórgia. Segundo a AP, durante essa época, a República georgiana tornou-se uma das mais progressistas na esfera cultural, tendo sido produzida uma grande quantidade de filmes que quebraram tabus, bem como peças de teatro.

Em 1985, Mikhail Gorbachev nomeou-o ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética. Chevardnadze, que sucedeu a Andrey Gromyko, passou os cinco anos seguintes a dirigir as transformações na política externa da URSS. Foi um dos aliados mais próximos de Gorbachev, cabendo-lhe a responsabilidade de negociar os acordos de dearmamento com os EUA e de retirar as tropas soviéticas do Afeganistão em 1988.

Um dos grandes embaixadores da glasnost e da perestroika, Chevardnadze teve um papel importante na queda do comunismo nos países da Europa central e de leste ao ter tomado a decisão de acabar a presença militar soviética nessas regiões. Foi ele que em 1990 negociou a reunificação da Alemanha.

O seu papel reformista e as suas ideias liberais trouxeram-lhe muitos inimigos dentro da linha mais conservadora do PCURSS, escreve a BBC. Em 1990, como protesto contra a influência crescente dessa mesma ala, Chevardnadze demitiu-se. Quando, em agosto do ano seguinte, os tanques entram em Moscovo numa tentativa de golpe levada a cabo pela linha dura do Partido Comunista, Chevardnadze juntou-se ao presidente russo Boris Yeltsin na oposição e resistência aos golpistas.

Voltou a ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros de uma União que se dissolvia rapidamente e cujo fim chegou em dezembro desse ano.

Quando regressou à Geórgia, depois de o primeiro Presidente eleito, Zviad Gamsakhurdia, ter sido deposto num golpe em 1992, Chevardnadze encontrou um país mergulhado no caos, onde faltava comida, gás e electricidade, e dilacerado por uma guerra civil. Ocupou o lugar de presidente do Conselho de Estado e lutou contra o crime organizado, tentando também travar a violência nas províncias separatistas da Ossétia do sul e da Abecásia.

Depois de Gamsakhurdia ter morrido em circunstâncias misteriosas, Chevardnadze foi eleito presidente em 1995, pouco tempo depois de ter sobrevivido à primeira de duas tentativas de homicídio. A AP escreve que muitos analistas terão sugerido que os ataques à sua vida travaram os impulsos reformistas de Chevardnadze e tornaram-no obcecado com a manutenção do poder. Por várias vezes foi acusado de corrupção.

Os EUA aproximaram-se de Chevardnadze e o Governo norte-americano tentou manter o país na sua órbita, oferecendo aos georgianos milhões de dólares em apoio financeiro. Chevardnadze desejou que a Geórgia se juntasse à NATO, chegando a dizer que um dia o país “bateria à porta” da aliança atlântica.

Em 2000, quando foi reeleito, houve suspeitas de fraude eleitoral, o que voltou a acontecer três anos depois, durante as eleições legislativas, que deram a vitória aos partidos que apoiavam o Presidente.

Depois de uma vaga de protestos que demorou três semanas e ficou conhecida como a Revolução Rosa, os manifestantes invadiram o Parlamento georgiano e tiraram Chevardnadze do edifício. Mais tarde, acabaria por demitir-se. “Penso que a minha demissão era a única forma de evitar um banho de sangue”, disse, citado pela BBC.