A morte de Boris Nemtsov, o opositor de Vladimir Putin e antigo vice-primeiro-ministo que foi assassinado na sexta-feira na capital russa, foi “minuciosamente planeada”, referem os oficiais responsáveis pela investigação. De acordo com um comunicado divulgado este sábado, Nemtsov tornou-se numa “vítima sacrificial”, que será usada para angariar opositores contra o governo.

Segundo o New York Times, o comunicado, a única resposta oficial completa ao assassinato de Nemtsov até ao momento, refere que a polícia está a investigar seis possíveis suspeitos e que “não há qualquer dúvida de que este crime foi minuciosamente planeado, assim como o local escolhido para o assassinato”. Nemstov estava na companhia da namorada quando foi morto a tiro por um grupo de homens na Ponte de Pedra, junto ao Kremlin. “Boris Nemtsov dirigia-se com a sua companheira para casa, localizada perto do local do crime. É evidente que os organizadores e os autores do crime estavam informados do seu trajeto”, concluiu a comissão responsável pela investigação.

No comunicado, as autoridades referem a possibilidade de o antigo vice-primeiro-ministro ter sido morto por radicais islâmicos, devido à sua posição em relação ao atentado ao jornal francês Charlie Hebdo. De acordo com a comissão, Nemstov terá recebido ameaças por parte de islamitas, que eram do conhecimento da polícia.

Para além desta possibilidade, as autoridades afirmaram que “personalidades radicais” ucranianas podem também ser as responsáveis pelo assassinato. A estação de televisão “Life News”, com ligações aos serviços secretos russos, refere ainda a possibilidade de Nemtsov ter sido morto num ato de vingança, por ter levado uma mulher a abortar.

O comunicado refere ainda que a polícia está a considerar outras motivações, de ordem pessoal e profissional. “A investigação está a considerar várias versões. A primeira é a de que o assassinato foi uma provocação para destabilizar a situação política no país, onde a figura de Nemtsov se tornou numa espécie de vítima sacrificial para aqueles que não olham a meios para atingir os seus objetivos políticos”, pode ler-se no comunicado.

A explicação dada pela comissão é semelhante à elaborada num comunicado publicado durante a noite de sexta-feira no site oficial do Kremlin, no qual Vladimir Putin caracterizava o assassinato como “provocatório”, refere o New York Times. No local do crime, foram encontradas seis cápsulas de munições de calibre 9 mm, provenientes de diferentes fabricantes, o que torna mais difícil rastrear a sua origem.”Tudo indica que a arma usada foi uma pistola Makarov”, um revólver utilizado pelas forças policiais e pelo exército russo.

Os governantes ocidentais já reagiram ao assassinato de Nemstov. Condenando publicamente o crime, pediram para que a verdade fosse averiguada com rapidez e isenção. Num comunicado divulgado pela Casa Branca, e citado pela BBC, o presidente norte-americano Barack Obama classificou o crime como um “assassinato brutal” e referiu que o governo russo deve conduzir uma “investigação rápida, imparcial e transparente”. “Admirava a coragem de Nemtsov e a coragem com que lutava contra a corrupção na Rússia. Apreciei a sua vontade de partilhar os seus pontos de vistas sinceros comigo, quando nos encontramos em Moscovo em 2009”, referiu.

Angela Merkel também fez referência à “coragem” de Nemstov. Num comunicado divulgado pelo seu gabinete, a chanceler alemã pediu ao “presidente Vladimir Putin que assegure que o assassinato é esclarecido e que os autores sejam levados à justiça. O primeiro-ministro David Cameron pediu que fosse feito um inquérito e disse ter ficado “chocado e enjoado” com as notícias. Por seu lado, François Hollande chamou ao crime um “assassinato odioso” de um “defensor da democracia”, refere a agência noticiosa France-Presse.

Boris Nemstov, de 55 anos, era co-presidente do Partido Republicano da Rússia. Entre os vários cargos políticos que ocupam, encontram-se o de governador da região de Nizhny Novgorod, no centro da Federação Russa, de deputado e de vice-primeiro-ministro durante a presidência de Boris Yeltson, no final da década de 1990. Depois de ter saído do parlamento em 2003, criou e liderou vários partidos e grupos da oposição.