De repente surgiu outro obstáculo, ou pelo menos um buraco, para agitar o caminho das negociações entre os EUA e o Irão, com vista a um acordo sobre o programa nuclear no país do Médio Oriente. Um grupo de 47 senadores norte-americanos e republicanos enviou, na segunda-feira, uma carta ao regime iraniano, defendendo que um acordo firmado com a administração de Barack Obama, presidente eleito pelo partido democrata, teria apenas um “vínculo executivo” e poderia ser abolido com “um golpe de caneta” por um futuro presidente dos EUA.

No documento, endereçado aos “líderes da República do Irão”, lê-se que “tudo o que não seja aprovado pelo congresso não passa de um acordo do Executivo” e, portanto, aos olhos dos republicanos, “o próximo presidente poderia revogar o acordo” — ou o “futuro congresso poderia modificar os termos a qualquer momento”. Barack Obama, presidente norte-americano, esteve no sábado em Paris, capital francesa, para mais uma ronda de negociações, que podem resultar num acordo técnico até 1 de julho.

A carta explica que “um acordo internacional” firmado pelo presidente dos EUA “tem de ser ratificado pelo congresso”, pelo menos, com “dois terços dos votos” a favor. Num dos cinco parágrafos, aliás, os 47 signatários lembram que o mandato de Barack Obama termina em janeiro de 2017 (não poderá ser reeleito), enquanto “os senadores têm mandatos ilimitados de seis anos”, ou seja, “a maioria pode permanecer no cargo durante décadas”.

O congresso norte-americano é composto por duas câmaras: o Senado e a Câmara dos Representantes. Em ambas os republicanos preenchem mais assentos — 245 dos 435 na Câmara dos Representantes, e 54 dos 100 no Senado.

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano já reagiu à carta, através de um comunicado, citado pelo New York Times. “Na visão do Irão”, disse, o documento “não tem valor legal e passa, sobretudo, por um truque de propaganda”. Mohammed Javad Zarif achou também “curioso que, enquanto as negociações decorrem e, por enquanto, nenhum acordo foi firmado, alguns grupos políticos de pressão tenham tanto receio que recorram a métodos não convencionais”.

Também Barack Obama comentou o documento, ao considerar “um pouco irónico” ver “membros do congresso querendo ter uma causa comum com os intransigentes no Irão”. Algo que viu como uma “coligação incomum”. No domingo, o presidente norte-americano sublinhara que as negociações para um acordo sobre o programa nuclear iraniano tinham chegado a um ponto “em que já não é uma questão de problemas técnicos, mas de vontade política”.