O mínimo que se pode dizer é que as relações diplomáticas entre Espanha e Venezuela estão tensas. Em outubro do ano passado, tremeram quando Nicolas Maduro convocou o embaixador venezuelano em Madrid depois de Mariano Rajoy ter recebido a mulher do principal líder da oposição venezuelana, entretanto preso. E esta semana voltaram a tremer com novos episódios do mesmo capítulo, que envolveram acusações de “racismo” e a convocação de reuniões de emergência com os respetivos embaixadores em Madrid e em Caracas. Ao ponto de Nicolas Maduro ter anunciado um conjunto de medidas diplomáticas “de todo o tipo” contra Madrid, e de ter exigido uma revisão “exaustiva” das relações bilaterais. Porque, segundo Maduro, na Venezuela não há “presos políticos”, mas sim “políticos presos”.

Tudo começou na terça-feira quando o congresso espanhol aprovou uma resolução para a libertação dos presos políticos na Venezuela, referindo-se aos manifestantes presos no ano passado na sequência da onda de protestos anti-governo que resultou em 40 mortos, mas em particular ao ex-presidente da câmara de Caracas, António Ledezma, e ao líder da oposição Leopoldo López, preso há mais de um ano. A decisão dos deputados espanhóis foi vista como uma provocação para o Governo de Maduro e como um ataque à soberania venezuelana, e abriu portas a uma crise diplomática de todo o tamanho.

A primeira acusação de Maduro foi em relação ao primeiro-ministro Mariano Rajoy, que acusou de ser “racista” e de estar “por detrás de todas as manobras contra a Venezuela”. Mas foi mais longe: “Que os deputados espanhóis opinem sobre as suas mães tudo bem, mas não têm o direito de opinar sobre a Venezuela”, disse logo na terça-feira durante o seu programa de televisão “Em Contacto com Maduro”, transmitido pelo canal de televisão público da Venezuela. “Acabaram-se os teus abusos Rajoy. Para que Espanha saiba, a Venezuela é respeitada”, acrescentou, citado pelo El Mundo.

O tom foi duro e quase de declaração de guerra diplomática. Lembrando a história, o sucessor de Hugo Chavez criticou as “elites corruptas de Espanha” que diz terem “desprezado” sempre os povos não europeus. “Mariano Rajoy tem racismo histórico, racismo social” atirou, marcando a posição de que Caracas “não vai tolerar mais abusos, desprezos e racismo”.

E prometeu anunciar um conjunto de medidas diplomáticas “de todo o tipo”, não especificando no entanto ao que se referia.

Embaixadores convocados

Depois da ação, a reação. Um dia depois, Madrid decidiu reagir e convocou o embaixador da Venezuela para manifestar o seu repúdio face às declarações de Maduro e para pedir explicações. “O Governo considera intoleráveis as últimas declarações, insultos e ameaças proferidas pelo presidente Maduro contra a Espanha”, lia-se no comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol depois da reunião com o embaixador Mario Isea.

Até aqui, o Governo espanhol tinha evitado responder para não desencadear uma escalada de acusações que pudesse vir a prejudicar os interesses espanhóis na Venezuela, mas acabaram por concluir que “insultos” ao primeiro-ministro e a todo o Parlamento não podiam ser ignorados. A posição tornou-se então mais firme. Como disse o secretário de Estado das Relações com as Cortes, José Luis Ayllón, “acusar um Governo, um político, um partido ou todo um Parlamento por defender a liberdade e a pluralidade nas democracias está absolutamente fora de questão”.

E Caracas não se ficou, repetindo o gesto ao convocar também o embaixador de Espanha na Venezuela, Antonio Pérez-Hernández y Torra. Segundo o jornal espanhol El Mundo, o embaixador foi recebido pela própria ministra dos Negócios Estrangeiros venezuelana que lhe motrou um dossiê com todas as declarações – “uma a uma” – sobre a Venezuela feitas nos últimos seis meses pelas autoridades espanholas para dizer que “não podemos permitir que ministros de assuntos sem importância se pronunciem publicamente contra a Venezuela”. No fim, disse que iria propor uma revisão “exaustiva” das relações entre os dois países.

“Não vamos permitir intervenção ou ingerência de nenhum tipo, se for preciso vamos repetir todos os duas que as regras do direito internacional devem ser respeitadas”, disse a ministra venezuelana.

Sem medidas de ação concretas no plano diplomático, certo é que as relações entre os dois países continuam tensas esta quinta-feira. O último episódio, conta o El Mundo, foi protagonizado pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Diosdado Cabello, que contestou a “moral” do Parlamento espanhol de se pronunciar contra a Venezuela por manter presos políticos (ou políticos presos, como diz Maduro), quando o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González “dirigiu grupos paramilitares para assassinar quem o contrariasse politicamente”, acusou.

Felipe González está desde março responsável pela defesa judicial do líder da oposição ao regime chavista Leopoldo López e do ex-presidente da Câmara de Caracas Antonio Ledezma. O que, segundo vem agora dizer o presidente da Assembleia Nacional venezuelana, é um “atentado à moral”.