Quando a polícia suíça bateu à porta de sete pessoas em Zurique, na Suíça, e lhes disse que estavam a ser detidas para interrogatório, Walter De Gregorio ainda estava a dormir. É normal, eram 6h. Acordou uma hora depois, despertado por um telefonema que o informou de tudo — que o Departamento de Justiça dos EUA mandara a Procuradoria-Geral helvética deter sete das 14 pessoas suspeitas de estarem envolvidas num esquema de corrupção da FIFA. E o diretor de comunicação da entidade que gere o futebol internacional acordou de vez.

Umas horas depois e já estava à frente de dezenas de jornalistas, na sede da FIFA, como a única pessoa a dar a cara numa conferência de imprensa montada à pressa. Esforçou-se por responder o melhor que pôde e cedo se preocupou em esclarecer uma coisa: “Já vi muitos tweets, comentários e rumores, mas o presidente e o secretário-geral não estão envolvidos nisto.” De Gregorio garantiu assim que Joseph Blatter e Jérôme Valcke, as duas principais figuras da FIFA, não estavam a ser investigados. De resto, pouco mais revelou.

À falta de esclarecimentos da FIFA, olha-se para o que o Departamento de Justiça norte-americano escreveu no despacho no qual anunciou a investigação. Foi nesse documento que o Observador se baseou para construir as perguntas possíveis e dar as respostas adequadas sobre o que, para já, se sabe acerca deste caso. Se quiser saber mais pode consultar o Explicador que preparámos sobre o tema.

O que se passa?

Catorze atuais e antigos dirigentes da FIFA, incluindo membros do comité executivo, foram na manhã desta quarta-feira detidos para interrogatório, por ordem de um despacho de acusação emitido pelo Departamento de Justiça dos EUA. A investigação alega que os suspeitos terão cometido vários crimes desde 1991, entre extorsão, fraude, o “pagamento sistemático de subornos” e lavagem de dinheiro. Por via destes atos, os implicados terão recebido, no total, cerca de 137 milhões de euros.

Sete dos suspeitos foram detidos em Zurique, na Suíça, por volta das 6h, pela Procuradoria-Geral da Suíça, a mando da justiça norte-americana. Os sete detidos estavam na cidade helvética devido ao Congresso da FIFA, que se realizará entre quinta e sexta-feira e servirá para eleger o próximo presidente. Luís Figo já não está nesta corrida desde a passada semana. “Este processo eleitoral é tudo menos isso, uma eleição. Este processo é um plebiscito de entrega do poder absoluto a um só homem – algo que me recuso a caucionar”, justificou, na altura.

Mas são acusados do quê, exatamente?

Os dirigentes da FIFA terão aceitado subornos de empresas de marketing desportivo para, em troca, lhes concederem direitos comerciais e televisivos de competições organizadas pela entidade. Esses direitos eram relativos a jogos de várias provas: Mundiais, fases de qualificação da CONCACAF (a Associação de Futebol da América do Norte, Central e das Caraíbas), a Gold Cup, a Copa América, a Copa dos Libertadores, a Copa do Brasil e a Liga dos Campeões da CONCACAF.

Os suspeitos, em suma, terão participado “num esquema para enriquecerem através da corrupção no futebol internacional” que já durava há 24 anos. O comunicado emitido pela justiça norte-americana diz que há suspeitas de que tenham existido subornos na atribuição do Mundial de 2010 — que se realizou na África do Sul — e nas eleições presidenciais da FIFA, em 2011. E mais: no documento lê-se também que “uma grande marca desportiva dos EUA” terá pago um suborno à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para conseguir patrocinar a entidade. O equipamento e material desportivo da seleção brasileira são hoje assegurados pela Nike.

Quem são eles?

Entre os 14 suspeitos identificados, nove exercem ou exerceram funções na FIFA. E alguns ainda desempenham cargos bem importantes. O mais conhecido será José Maria Marin, antigo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (entre março de 2012 e abril de 2015) e atual responsável pela organização do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 2016, do Rio de Janeiro. Mas os outros oitos não lhe ficam muito atrás.

Jeffrey Webb, 50 anos, Ilhas Caimão: um dos atuais vice-presidentes da FIFA e membro do comité executivo. É presidente da CONCACAF, líder da Associação de Futebol das Ilhas Caimão e também membro do comité executivo da União de Futebol das Caraíbas.

Costas Takkas, 58 anos, Reino Unido: é descrito pela investigação como um “adido” de Jeffrey Webb, ou seja, será um dos seus braços direitos na organização ou desempenhará um cargo na direção da entidade.

Jack Warner, 72 anos, Trinidade e Tobago: este é um antigo vice-presidente da FIFA que sabe o que é ser alvo de suspeitas de corrupção. Em 2002 e 2006, por exemplo, suspeitou-se que o antigo líder da CONCACAF vendeu no mercado negro bilhetes para jogos dos Mundiais. Depois, em 2011, Warner foi investigado por, alegadamente, ter oferecido votos a favor da candidatura inglesa para organizar o Campeonato do Mundo de 2018 em troca de subornos. Nenhum destes processos foi avante. Warner demitiu-se de todos os cargos que exercia.

Eduardo Li, 56 anos, Costa Rica: além de presidir à Federação de Futebol da Costa Rica, é membro do comité executivo da FIFA e da CONCACAF.

Julio Rocha, 64 anos, Nicarágua: pertence ao Departamento de Desenvolvimento da FIFA e, antes, liderava o futebol na Nicarágua.

Eugenio Figueredo, 83 anos, Uruguai: é outro dos vice-presidentes da FIFA e membro do comité executivo. Já liderou a Federação Uruguaia de Futebol e a CONMEBOL, a Confederação Sul-Americana de Futebol.

Rafael Esquivel, 68 anos, Venezuela: é quem manda na federação venezuelana e tem igualmente um lugar no comité executivo da CONMEBOL.

Nicolás Leoz, 86 anos, Paraguai: ex-membro do comité executivo da FIFA e presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol.

E os outros cinco?

Basicamente, são pessoas que também puxavam uns cordelinhos do outro lado da barricada — das empresas que pagavam os subornos. Chamam-se Alejandro Burzaco, Aaron Davidson, Hugo e Mariano Jankis e José Margulies e todos lideram ou, pelo menos, desempenham cargos administrativos em empresas que operam na área do desporto.

O que lhes pode acontecer?

Pouco se sabe além do que aparece escrito num parágrafo do comunicado do Departamento de Justiça norte-americano. À exceção de Eugenio Figueredo, os 14 suspeitos poderão ser condenados a cumprir penas de prisão de, no máximo, 20 anos. As novidades, contudo, devem demorar a aparecer. O documento não aponta quaisquer datas ou prazos relativos a interrogatórios ou fases do processo, indicando apenas que “a investigação está a decorrer”.

ZURICH, SWITZERLAND - MAY 27: FIFA Director of Communications Walter de Gregorio attends a press conference  at the FIFA headquarters on May 27, 2015 in Zurich, Switzerland. Swiss police on Wednesday raided a Zurich hotel to detain top FIFA football officials as part of a US investigation. (Photo by Philipp Schmidli/Getty Images)

Teve de ser Walter De Gregorio, o diretor de comunicação, a dar o peito às balas, ou às perguntas, após a detenção de 14 suspeitos de corrupção ligados à FIFA. Nenhum outro dirigente da entidade falou. Foto: Philipp Schmidli/Getty Images

Então e Joseph Blatter, safou-se?

Tanto o presidente da FIFA como Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade, não foram detidos nem são considerados suspeitos. Nenhum deles, por enquanto, disse uma palavra sobre o caso. Teve de ser Walter de Gregorio, diretor de comunicação da FIFA, a garantir na manhã desta quarta-feira que nada se passara às duas maiores figuras da entidade. De Gregorio deu a cara às perguntas dos jornalistas numa conferência de imprensa organizada à pressa e chegou a dizer que Blatter estava “bastante relaxado por saber que não estava envolvido”.

Os presentes estranharam a descrição e, por isso, voltaram a questionar. “Ele não está a dançar no seu escritório. Está muito calmo e a cooperar com toda a gente. Não está feliz com isto, mas sabe que isto é consequência do que iniciámos. É uma surpresa ter acontecido hoje, mas não é uma surpresa ter acontecido”, esclareceu, depois, o responsável pela comunicação da entidade. Mas a FIFA, afinal, iniciou o quê? Walter De Gregorio referia-se à lista de nomes alegadamente ligados a “uma troca ilegal de bens” durante o processo de candidaturas à organização dos Mundiais de 2018 e 2022.

Esta lista foi enviada pela FIFA à Procuradoria-Geral da Suíça a 18 de novembro de 2014 e, pelos vistos, demorou seis meses a surtir efeitos.

E a FIFA está contente.

Está mesmo. O diretor de comunicação bem o disse: “Isto magoa, não é fácil, mas também é bom porque confirma que estamos no bom caminho. Isto é bom para a FIFA. Não é bom para a imagem e reputação, mas é bom para limpar. Não teríamos tido interesse em prestar declarações à justiça a 18 de novembro se não soubéssemos as consequências que iria ter agora.”

Em comunicado publicado após a conferência de imprensa, a FIFA reforçou que “está contente por ver que a investigação está a ser energicamente conduzida pelo bem do futebol” e “acredita que ela ajudará a reforçar medidas que a FIFA já tomou”. A organização está feliz porque acredita que esta investigação “vai limpar” a FIFA. Bem precisa e esta cronologia que o Daily Telegraph montou também ajuda a explicar porquê.