Rádio Observador

Caso José Sócrates

Advogado de Sócrates foi celebrar com o PCTP/MRPP a libertação de Arnaldo Matos

291

João Araújo, advogado de José Sócrates, juntou-se aos "camaradas" do PCTP/MRPP nesta quinta-feira para recordar os 40 anos da detenção e libertação de militantes do partido, como Arnaldo Matos.

Num hotel de Lisboa, distribuíram-se abraços, renovou-se o tratamento por "camarada", recordaram-se episódios da "luta contra o social-fascismo"

ANDRÉ SANANO/LUSA

João Araújo, advogado de José Sócrates, esteve na quinta-feira entre a centena de pessoas que recordaram a detenção de militantes do PCTP/MRPP há 40 anos e posterior libertação, nomeadamente do “grande educador da classe operária”, Arnaldo Matos.

Num hotel de Lisboa, distribuíram-se abraços, renovou-se o tratamento por “camarada”, recordaram-se episódios da “luta contra o social-fascismo” e das “grandes figuras” das fileiras do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, apesar da ausência do líder histórico.

O defensor do antigo primeiro-ministro, detido em Évora por suspeitas de crimes de corrupção, João Araújo, sentou-se na última fila de cadeiras da sala, trocando comentários com o ex-membro do “comité Lenine” – então o órgão máximo do partido -, Carlos Oliveira Santos, agora professor universitário de marketing e gestão.

À pergunta da Lusa sobre se fora um dos militantes presos em 28 de maio de 1975, em pleno “Verão Quente”, o advogado continuou divertido: “Eu? Eu não, que não era parvo”.

Mantendo-se sentado enquanto todos cantaram de pé “A Internacional”, embora com vários punhos direitos no ar destoassem da maioria de punhos esquerdos, o ex-militante também trauteou os versos, porque “recordar é viver”, sublinhando o refrão: “Bem unidos façamos/Nesta luta final/Uma terra sem amos/A Internacional”.

Do outro lado da sala, na mesa central, Garcia Pereira e Carlos Paisana comentaram fotografias e um vídeo dos acontecimentos de há quatro décadas, por exemplo concentrações à porta do estabelecimento prisional de Caxias, onde estava, entre outros, Arnaldo Matos, e as investidas dos militares.

“Com o golpe fascista da manhã de 11 de março e o contragolpe social-fascista da parte da tarde, o que se sucede é a tomada de um conjunto de medidas que visam a eliminação do MRPP”, recordou Garcia Pereira, sublinhando que tudo começou com alterações à lei para impedir a foice e ao martelo como símbolo do partido por ser confundível com o do PCP e culminou com o impedimento de participação nas “chamadas primeiras eleições livres” para a Assembleia Constituinte, em 25 de abril de 1975, um mês antes do “ataque violento às várias sedes” e consequente “prisão de 432 militantes”.

O PCTP/MRPP, o Partido da Democracia Cristã (PDC) e a Aliança Operária Camponesa (AOC), todos no lote de 17 forças políticas legalizadas, viram as suas atividades suspensas devido a “comportamento antidemocrático”, pois, à época, eram recorrentes os confrontos físicos, assaltos a sedes adversárias e boicote de ações políticas concorrentes.

Considerando “a perturbação da ordem pública” e “o desrespeito pelo Programa das Forças Armadas” (…) o Conselho da Revolução decreta: suspender a sua atividade política até às eleições para a Assembleia Constituinte, às quais não poderão concorrer”, lê-se em documento assinado pelo então presidente da República, Costa Gomes, de 17 de março de 1975.

Para Garcia Pereira, que não foi um dos detidos nem outros elementos entretanto destacados como o ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso ou o fiscalista Saldanha Sanches, tratou-se de “uma manobra de lacaios do PCP dentro do Movimento das Forças Armadas, nomeadamente o coronel Varela Gomes”.

“Foi duro. Eu e a maior parte não ficámos em Caxias. Levaram-nos para Pinheiro da Cruz, onde estavam presas pessoas por crimes horríveis. E havia muitas doenças, sofremos infeções, nos olhos por exemplo, estivemos em condições terríveis”, lembrou Carlos Oliveira Santos, então um dos cinco membros do órgão máximo do partido, a par do historiador e agora membro do Bloco de Esquerda Fernando Rosas.

Após várias manifestações, com tiros e a presença de blindados “panhards” e chaimites, em Caxias, e uma greve de fome de 18 dias por parte de Arnaldo Matos, o líder do PCTP/MRPP viria a sair em liberdade em 11 de julho de 1975, seguindo-se a libertação da totalidade dos elementos, cerca de uma semana depois.

“Aquilo era a sério, era com tipos que combateram na Guerra Colonial, com armas de verdade. Não havia cá balas de borracha ou bastonadas”, continuou o docente universitário, rejeitando qualquer ilegitimidade do PCTP/MRPP por comportamento antidemocrático, pois “era uma juventude enérgica” e “o que havia era diferença de opiniões” para com os outros partidos, segundo o atual defensor de uma “democracia desenvolvida para Portugal”, sem “qualquer inclinação político-partidária específica” de momento.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)