Caso José Sócrates

Advogado de Sócrates foi celebrar com o PCTP/MRPP a libertação de Arnaldo Matos

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João Araújo, advogado de José Sócrates, juntou-se aos "camaradas" do PCTP/MRPP nesta quinta-feira para recordar os 40 anos da detenção e libertação de militantes do partido, como Arnaldo Matos.

Num hotel de Lisboa, distribuíram-se abraços, renovou-se o tratamento por "camarada", recordaram-se episódios da "luta contra o social-fascismo"

ANDRÉ SANANO/LUSA

João Araújo, advogado de José Sócrates, esteve na quinta-feira entre a centena de pessoas que recordaram a detenção de militantes do PCTP/MRPP há 40 anos e posterior libertação, nomeadamente do “grande educador da classe operária”, Arnaldo Matos.

Num hotel de Lisboa, distribuíram-se abraços, renovou-se o tratamento por “camarada”, recordaram-se episódios da “luta contra o social-fascismo” e das “grandes figuras” das fileiras do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, apesar da ausência do líder histórico.

O defensor do antigo primeiro-ministro, detido em Évora por suspeitas de crimes de corrupção, João Araújo, sentou-se na última fila de cadeiras da sala, trocando comentários com o ex-membro do “comité Lenine” – então o órgão máximo do partido -, Carlos Oliveira Santos, agora professor universitário de marketing e gestão.

À pergunta da Lusa sobre se fora um dos militantes presos em 28 de maio de 1975, em pleno “Verão Quente”, o advogado continuou divertido: “Eu? Eu não, que não era parvo”.

Mantendo-se sentado enquanto todos cantaram de pé “A Internacional”, embora com vários punhos direitos no ar destoassem da maioria de punhos esquerdos, o ex-militante também trauteou os versos, porque “recordar é viver”, sublinhando o refrão: “Bem unidos façamos/Nesta luta final/Uma terra sem amos/A Internacional”.

Do outro lado da sala, na mesa central, Garcia Pereira e Carlos Paisana comentaram fotografias e um vídeo dos acontecimentos de há quatro décadas, por exemplo concentrações à porta do estabelecimento prisional de Caxias, onde estava, entre outros, Arnaldo Matos, e as investidas dos militares.

“Com o golpe fascista da manhã de 11 de março e o contragolpe social-fascista da parte da tarde, o que se sucede é a tomada de um conjunto de medidas que visam a eliminação do MRPP”, recordou Garcia Pereira, sublinhando que tudo começou com alterações à lei para impedir a foice e ao martelo como símbolo do partido por ser confundível com o do PCP e culminou com o impedimento de participação nas “chamadas primeiras eleições livres” para a Assembleia Constituinte, em 25 de abril de 1975, um mês antes do “ataque violento às várias sedes” e consequente “prisão de 432 militantes”.

O PCTP/MRPP, o Partido da Democracia Cristã (PDC) e a Aliança Operária Camponesa (AOC), todos no lote de 17 forças políticas legalizadas, viram as suas atividades suspensas devido a “comportamento antidemocrático”, pois, à época, eram recorrentes os confrontos físicos, assaltos a sedes adversárias e boicote de ações políticas concorrentes.

Considerando “a perturbação da ordem pública” e “o desrespeito pelo Programa das Forças Armadas” (…) o Conselho da Revolução decreta: suspender a sua atividade política até às eleições para a Assembleia Constituinte, às quais não poderão concorrer”, lê-se em documento assinado pelo então presidente da República, Costa Gomes, de 17 de março de 1975.

Para Garcia Pereira, que não foi um dos detidos nem outros elementos entretanto destacados como o ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso ou o fiscalista Saldanha Sanches, tratou-se de “uma manobra de lacaios do PCP dentro do Movimento das Forças Armadas, nomeadamente o coronel Varela Gomes”.

“Foi duro. Eu e a maior parte não ficámos em Caxias. Levaram-nos para Pinheiro da Cruz, onde estavam presas pessoas por crimes horríveis. E havia muitas doenças, sofremos infeções, nos olhos por exemplo, estivemos em condições terríveis”, lembrou Carlos Oliveira Santos, então um dos cinco membros do órgão máximo do partido, a par do historiador e agora membro do Bloco de Esquerda Fernando Rosas.

Após várias manifestações, com tiros e a presença de blindados “panhards” e chaimites, em Caxias, e uma greve de fome de 18 dias por parte de Arnaldo Matos, o líder do PCTP/MRPP viria a sair em liberdade em 11 de julho de 1975, seguindo-se a libertação da totalidade dos elementos, cerca de uma semana depois.

“Aquilo era a sério, era com tipos que combateram na Guerra Colonial, com armas de verdade. Não havia cá balas de borracha ou bastonadas”, continuou o docente universitário, rejeitando qualquer ilegitimidade do PCTP/MRPP por comportamento antidemocrático, pois “era uma juventude enérgica” e “o que havia era diferença de opiniões” para com os outros partidos, segundo o atual defensor de uma “democracia desenvolvida para Portugal”, sem “qualquer inclinação político-partidária específica” de momento.

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