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Confiar nos prazos de validade pode ser um desperdício

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Duvidar dos prazos de validade (com cuidado) pode parecer um atentado à saúde, mas é uma forma mais racional de consumir alimentos. É o que diz o blogue Afterdate, de Inês Marques e Anne Vaandrager.

No Afterdate ensina-se a avaliar o estado dos alimentos, em vez de olhar para o prazo de validade.

Ines Marques / Anne Vaandreger

Pão, legumes e fruta são os alimentos mais desperdiçados a nível mundial, e não só porque apodrecem nas fruteiras ou ganham bolor nos sacos do pão. Quase metade da comida que deitamos fora é fresca. E ao mesmo tempo, este parece ser este o advento dos blogues de cozinha, dos programas de televisão que mostram como cozinhar está ao alcance de todos, ou da comida bonita no Instagram.

A portuguesa Inês Marques e holandesa Anne Vaandrager aperceberam-se do desperdício e aproveitaram a moda: criaram o Afterdate, um blogue de receitas com alimentos que já não estão frescos ou que passaram o prazo de validade, mas não vão provocar intoxicações alimentares. Da sopa de tomate à lasanha de beringela, ensina-se a avaliar o estado dos alimentos em vez de se olhar cegamente para os prazos de validade. A chave é simples: cheirar, verificar a textura e o aspeto e saber que há alimentos com que não se brinca: a carne e o peixe.

Inês e Anne são estudantes em Londres, na Central Saint Martins, no mestrado de Material Futures, que trabalha na pesquisa de materiais sustentáveis e designs que criem soluções para os problemas do futuro. O Afterdate, lançado em Junho, começou por ser o projeto de uma disciplina, por causa da superprodução atual de alimentos e do consequente super desperdício.

Apesar do problema ser de hoje, as receitas são de sempre: a cozinha tradicional portuguesa deu-lhes a açorda, a holandesa, o Wentelteefje — uma espécie de rabanada —, a cozinha inglesa, o chocolat bread pudding. “Londres é uma cidade muito multicultural e queríamos trazer isso para o blogue para que as pessoas se identificassem. Escolhemos as receitas que nos estavam mais próximas e depois colegas de Singapura, Japão ou Estados Unidos começaram a dar-nos mais ideias. É interessante ver como diferentes culturas lidam com o desperdício”, conta Inês.

O toque pessoal de Anne e Inês nestas receitas foi dado pelas circunstâncias: fizeram-nas com o que tinham em casa no momento, e quando escrevem nas listas de ingredientes que o leite passou um dia da validade, é porque passou mesmo. No final comeram tudo — zero desperdício.

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Uma das receitas, neste caso da açorda. (foto: © Afterdate)

Ao desenhar o Afterdate escolheram uma estética muito limpa e simples, visual, com poucas coisas escritas. Os ingredientes aparecem dispostos uns ao lado dos outros por ordem de importância na receita. “A ideia é apelar a uma geração mais jovem e urbana: tem de ser prático e a imagem é mais direta” — Inês explica que pensaram sobretudo na realidade britânica.

No Reino Unido — e o natural é que o fenómeno exista também em Portugal, embora em números não tão expressivos — quem vive sozinho compra como se vivesse com outros três: o marketing e as prateleiras de supermercados cheias de produtos, que precisam de ser escoados para não travar a produção, facilitam o consumo. Além disso, “normalmente as embalagens grandes, para famílias, são mais baratas e sentimo-nos na obrigação de comprar”, exemplifica Inês, “quando vês um pacote de pão gigante e moras sozinho sabes que não vais comer tudo, mas compras na mesma”.

Não se come tudo e não é má vontade. É o ritmo de vida que não deixa tempo para isso e empurra os ingleses para a comida pré cozinhada, para as refeições confecionadas e vendidas nos supermercados ou para o take away e entregas ao domicílio. Isto faz com que muitos não cozinhem e entreguem aos prazos de validade a responsabilidade de decidir o que está ou não em condições de ser consumido. Resultado: desperdício.

O que quer dizer este prazo de validade?

“Os ingleses têm uma relação muito superficial com a comida, é quase nenhuma. Para mim é instintivo perceber pelo toque ou odor se a fruta ou os vegetais estão estragados, mas para muita gente não é”. Esta realidade ainda surpreende Inês.

A relação dos portugueses com os alimentos é muito diferente, deixa claro: está em muitas famílias ligada à terra, à possibilidade de se colherem os próprios alimentos e se reconhecerem o seu cheiro, textura e aspeto. Talvez por isso não haja legislação em Portugal que obrigue a que legumes e fruta sejam vendidos com prazo de validade, ao contrário do que acontece nos supermercados britânicos, explica a autora do blogue, em que tudo é embalado e associado a uma data.

Para adensar a confusão, as datas de validade podem ser de três tipos no Reino Unido: best before — consumir preferivelmente antes de —, use by — só pode ser vendido até —, expired by — expira a validade a. Inês diz que não há muito conhecimento acerca do que distingue estas três informações e que por isso, os alimentos vão para o lixo logo que uma das datas termina. “É também uma questão de marketing: esta informação não passa e assim as pessoas consomem mais”. Inês dá o exemplo dos iogurtes, que são consumíveis até muito tarde, mas que são feitos de leite, e o leite está todos os dias a ser produzido e precisar ser escoado — os iogurtes não podem ficar muito tempo nas prateleiras. “É importante que as pessoas criem uma sensibilidade natural para perceber se um alimento está bom ou não, mesmo fora do prazo de validade. Mas há coisas com que não se arrisca: o peixe a a carne podem ser perigosos”, diz Inês.

Em Portugal, o principal problema no desperdício de alimentos está no momento da produção. “Os alimentos têm de ser bonitos mas metade deles têm buracos, manchas ou são demasiado pequenos, o que na altura dos nossos avós era sinónimo de sabor”, lembra Inês, dando o exemplo do projeto Fruta Feia, que faz por escoar estes produtos, ou do Snact em Inglaterra, que vende esta fruta desidratada, sendo o nome uma junção de snack e act.

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A forma como um pimento envelhece na prateleira. (foto: © Afterdate)

No Afterdate há esta ideia de retorno a um momento de maior ligação com a comida, “uma relação mais afetiva e nostálgica, quase poética”, explica, para falar da secção organoleptic, onde as duas amigas fotografaram manjericão a secar ou como um pimento envelhece na prateleira. Tudo isto com muita simplicidade nas fotografias e nas explicações, que são quase nenhumas.

“Muitas vezes nas campanhas e projetos associados à agricultura sustentável o design usado não é o indicado e fica tudo muito conotado com movimentos hippies. As pessoas olham e pensam que isto não tem hipótese de ser viável.” Para as duas estudantes é essencial que se tornem estas ideias acessíveis a uma geração urbana e consumidora. “Muitas vezes pensamos na criação de novos hábitos, mas não é bem assim. Podes criar novas soluções para os teus hábitos, porque ninguém muda estas coisas de um momento para o outro.”

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