O que seria do cinema australiano sem o “Outback”, o interior desértico, inóspito e magicamente fotogénico que abrange quase 60 por cento da área do país-continente? A paisagem do “Outback” é parte integrante da identidade geográfica e colectiva da Austrália, um desafio à resistência física e mental daqueles que nele se embrenham ou lá decidem viver, cheia de sinais, lendas e símbolos ancestrais da cultura aborígene, e o espaço alternativo ao país costeiro e urbano.

Lá foram rodados muitos dos melhores e mais emblemáticos títulos do cinema australiano, dos mais diversos géneros, desde o drama social ao terror e à ficção científica, passando pela versão local do “western”. Pensemos apenas em “The Overlanders”, de Henry Watt”, “Wake in Fright”, de Ted Kotcheff, “Piquenique em Hanging Rock”, de Peter Weir, nos dois “Mad Max” de George Miller, “Walkabout”, de Nicolas Roeg, “Terras do Fim do Mundo”, de Igor Auzins, “O Homem de Snowy River”, de George T. Miller, “Um Grito de Coragem”, de Fred Schepisi, “Ten Canoes”, de Rolf De Heer e Peter Djigrr, “Escolha Mortal”, de John Hillcoat, “Wolf Creek”, de Greg McLean, ou até mesmo em “Crocodilo Dundee”, de Peter Faiman, e ainda na série de televisão “Uma Cidade Chamada Alice”, vista em todo o mundo, Portugal inclusive, no início dos anos 80.

Um guia para o “Outback”

Quase que se pode dizer que o “filme de Outback” se confunde com o próprio cinema australiano, e muitos realizadores escolhem o deserto para fazerem os seus primeiros filmes. É o caso de Kim Farrant, que se estreia nas longas-metragens com “Em Terra Estranha” e conseguiu recrutar, para o papel principal, a sua compatriota Nicole Kidman, que surge acompanhada por caras sobejamente conhecidas como Joseph Fiennes e Hugo Weaving. Kidman e Fiennes interpretam Catherine e Matthew Parker, um casal com um filho pequeno, Tom, e uma filha adolescente, Lily, que se instalaram no “Outback”, na pequena e remota vila de Nathgari, onde se pressente imediatamente que não estão à vontade, nem no seu elemento social natural. E é também logo claro que existe um problema na família Parker, na pessoa da sexualmente demasido descontraída Lilly.

“Trailer” de “Em Terra Estranha”

Numa noite tórrida, Tom e Lily saem silenciosamente dos seus quartos e desaparecem no escuro. Horas depois, uma enorme (e pesamente simbólica) tempestade de areia vermelha atinge a vila, impedindo que alguém consiga ver dois palmos à frente do nariz durante algumas horas. O polícia local (Hugo Weaving) começa a investigar os desaparecimentos, o calor torna-se ainda mais insuportável, os boatos começam a correr, os nervos a falhar, Catherine e Matthew a quebrar, cada qual pelo seu lado e à sua maneira, e vai pingando informação sobre coisas que se passaram com família e levaram à sua mudança para o deserto.

Entrevista com a realizadora Kim Farrant

O problema com “Em Terra Estranha” é que a realizadora não sabe o que fazer com a história, com as personagens e muito menos com o deserto que tudo envolve, tudo condiciona e que poderá – ou não – ter engolido os filhos do casal. O enredo marca passo e começa a coleccionar situações feitas e o filme não se decide entre ser psicodrama familiar ou “thriller” semi-fantástico e põe-se a perseguir a  própria cauda, os actores ficam reduzidos a estereótipos da impotência, do desespero ou do colapso anímico, e Kim Farrant faz pontuação visual com planos aéreos do “Outback”, sem conseguir que haja qualquer correlação com a narrativa ou extrair sumo dramático das paisagens. Ainda o filme não vai a meio e já estamos desligados das personagens, desinteressados do que irá acontecer, indiferentes à resolução do mistério e a olhar para o relógio.

Entrevista com Nicole Kidman

Farrant quer que a fita acabe em meias tintas, parcialmente resolvida, com uma nota de ambiguidade, como parece agora ser (irritante) moda, mas nem sequer consegue que essa ambiguidade seja inquietante ou intrigante. “Terra Estranha” é um desperdício de Nicole Kidman, limitada a fazer que anda a cair da boca dos gatos, entre gritinhos histéricos e ridículos ataques de cio, e de “Outback”, reduzido a verbo de encher cinematográfico.