Toda a gente anda a falar dos videojogos de Portugal. A Visão, o Público, o Expresso, o Diário Económico, entre outros, e até alguns media estrangeiros. Culpem o Microsoft Game Dev Camp deste ano, que decorreu no passado dia 12.

Ao contrário do que se tem feito, este texto não é uma notícia, principalmente (mas não só) porque, para nós, as conclusões tiradas não são novidade. O Microsoft Game Dev Camp é um evento que se foca no showcasing de videojogos portugueses e em palestras de grandes nomes da indústria, nacionais e internacionais. Toda a gente fala e tem falado, porque é quase como medir a pulsação de um cadáver – Há indústria de jogos cá? – muitos têm dito que não, outros que sim, mas todos concordam que os videojogos em Portugal, estejam vivos ou não, não têm dado muitos sinais de vida. A partir deste mês, as coisas parecem ter oficialmente mudado.

A primeira edição do Game Dev Camp realizou-se em Lisboa, nos escritórios da Microsoft Portugal. Este ano voltámos a ver as mesmas caras, a diferença é que desta vez havia mais equipas a mostrar os seus jogos, maior quantidade de jogos, mais energia, confiança e um ambiente de camaradagem muito mais palpável. Portugal é um país pequeno e neste meio todos se conhecem uns aos outros.

Estiveram quase 500 pessoas presentes no evento, e sinto que vi e ouvi mais “olá, como estás?” à minha volta do que “olá, o meu nome é [x]”. Mesmo aqueles que não se conhecem formalmente sabem, por norma, com quem estão a falar. E isto não é normal, ou pelo menos não é comum – os estrangeiros que vêm a eventos portugueses deste género, e os que cá estiveram há uns dias, costumam comentar que a comunidade de criadores de jogos em Portugal é quase uma família, (uma família cada vez maior, mas ainda assim, uma família), e que esta união não tem paralelo com lá fora.

Quando se está em eventos estrangeiros constata-se isso mesmo, salvo algumas excepções. Pela minha experiência pessoal, por exemplo, os criadores de jogos em Itália são tão ou mais afáveis que nós, entre eles e com os de fora, não sei porquê. Talvez por terem sofrido o mesmo que nós em termos de corrupção política, e de apoios financeiros desviados; talvez a indústria deles esteja a renascer das cinzas como a nossa. Regressando a Portugal, algo me diz que este espírito não vai enfraquecer no Microsoft Game Dev Camp do próximo ano, pelo contrário, que vai estar ainda mais presente.

Mas os videojogos em Portugal não é só sorrisos e tu-cá-tu-lá: somos uma família grande, mas também uma família rica, pelos vistos. Graças a eventos como o Dev Camp, e sobretudo graças a ele, os mercados portugueses ligados à indústria estão a crescer significativamente. Quase nem se tem falado de jogos feitos por cá, dão-se exemplos anedóticos, aqui e ali; o foco mediático tem sido, sim, o dinheiro – a produção de jogos em Portugal é uma indústria que já vale sete ou oito dígitos, já é um indústria séria.

A venda de jogos em Portugal também já é para levar a sério: só a área mobile vale 24,6 milhões de euros e vai subir para 35,3 milhões no próximo ano. A Miniclip Portugal já não é, como se ouvia (a brincar, mas com algum fundo de verdade), “o único sítio onde ainda há dinheiro para pagar salários” – Todos os anos vê-se mais e mais estúdios com empregados fixos. Essas empresas, na verdade, têm crescido, contrariando o que se passa nos outros sectores em Portugal. Mais surpreendente, para não dizer chocante: nas últimas décadas, tem sido quase senso-comum que um projecto, seja ele qual for, está condenado ao fracasso se for financiado por portugueses – não só se observa cada vez mais o contrário, como até circulam rumores que uma editora portuguesa poderá vir a surgir muito em breve.

O que é que aconteceu à nossa indústria? Porque é que cresce tanto? Culpem eventos como o Microsoft Game Dev Camp, e culpem entidades como a Microsoft Portugal, que têm apoiado e acarinhado não só os videojogos portugueses, como os criadores de videojogos portugueses.

Isaque Sanches, Rubber Chicken