Protestos

Luaty Beirão: 5 músicas de um rebelde

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Acusado de conspirar contra o Estado angolano, entrou em greve de fome como protesto pelo facto de estar detido há meses. Ouça as canções de um artista que está a abalar o governo de Luanda.

Luaty Beirão no videoclip de "Cuka"

Um pouco por todo o lado, seja em Portugal ou no estrangeiro, propagam-se as notícias sobre Luaty Beirão e os restantes prisioneiros políticos angolanos, detidos há meses e acusados de conspirarem contra o regime de José Eduardo dos Santos. Beirão, rapper sob os nomes Ikonoklasta e Brigadeiro Mata Frakuzx, activista e tradutor de 33 anos, é o mais mediático dos presos.

Isso acontece por duas razões. Por um lado, está a levar até às consequências extremas a greve de fome e a ideia de morrer a lutar por aquilo em que acredita; por outro, tem uma carreira anterior a isto tudo, como um rapper com um flow distinto e bastante colorido. Segundo os seus colaboradores musicais mais próximos, há múltiplas faixas do rapper por editar — enquanto elas não são reunidas, aqui ficam cinco exemplos da carreira de Ikonoklasta que podem ser ouvidas já hoje.

Conjunto Ngonguenha – “Kanguei o Maiki”
Ngonguenhação, 2004

Em 2002, Ikonoklasta juntou-se a Leonardo Wawuti, Keita Mayanda e Conductor (sim, o mesmo dos Buraka Som Sistema) para fundar o Conjunto Ngonguenha. Dois anos depois, lançaram, pela Matarrôa, a defunta editora nortenha de rap, o disco de estreia, Ngonguenhação. Encontra-se esgotado há anos, apesar de estar disponível na íntegra no YouTube e estar à venda no iTunes.

Cheio de humor e de referências ultra-específicas da vivência de Angola, em particular para gente da geração dos membros do grupo, é um disco fantástico. “Kanguei o Maiki” (ou “Kanguei no Maiky”, como se escreve neste vídeo; quer dizer “agarrei no microfone”) é uma das melhores faixas do disco. Luaty abandonou o grupo antes da saída de Nós os do Conjunto, o segundo disco, de 2010. Numa entrevista de 2012 explicou, com alguma amargura, que “as rotas artísticas” dos membros colidiram e que “a vida pessoal e profissional” dos membros “afectou a maneira como se encarava a música”.

Ainda aparece em quatro faixas desse álbum – e, no ano passado, lançou uma mixtape com restos e versos que foram cortados da versão final –, mas, na mesma entrevista, menciona: “O primeiro disco é mais especial para mim e resume-me melhor como artista e como pessoa, é mais à toa, mais despenteado, mais desarrumado, mais despreocupado com normas e atropelando inclusivé algumas.”

Batida – “Cuka (Isso é o que eles querem!)”
Dance Mwangolé, 2009/Batida, 2012 (re-edição)

Ngonguenhação inspirou um “mambo tipo documentário” de 2007, É Dreda Ser Angolano. Inspirado pela faixa homónima do Conjunto e feito pela Rádio Fazuma, com o próprio Luaty Beirão como cameraman, é um documentário tão “à toa”, “despenteado”, “desarrumado” e “despreocupado com normas” quanto o disco. Foi co-escrito, montado, co-realizado e teve banda sonora de Pedro Coquenão, hoje mais conhecido como Batida, um dos colaboradores mais assíduos de Luaty Beirão e um amigo próximo que tem feito a sua voz erguer-se para partilhar novidades sobre o estado do prisioneiro mais famoso de Angola.

Em “Cuka”, usa-se a imagem da famosa cerveja angolana e da embriaguez como forma de manter o povo feliz. Em Dois, o segundo álbum de Batida, editado no ano passado, volta-se à marca de cerveja em “Fica Atento!”: “A morrer de sede, não procura, o mais barato é Cuca. Nação embriagada, chupa kimbombo, come ginguba”, numa referência a esta ser mais barata do que água (“kimbombo” é uma bebida alcoólica artesanal e “ginguba” é amendoim).

MCK com Ikonoklasta – “A Bala Dói”
Proibido Ouvir Isto, 2012

No início de Setembro, MCK subiu ao palco do MusicBox, em Lisboa, o mesmo sítio por onde Ikonoklasta passou em Dezembro, com Batida. MCK vinha acompanhado por Bonga, um dos maiores e mais internacionais nomes veteranos da música de Angola. O rapper, uma espécie de membro não oficial do Conjunto Ngonguenha e um dos nomes mais activos no movimento de libertação dos activistas presos, ainda estava a apresentar Proibido Ouvir Isto, de 2012, mas também a chamar a atenção para este caso.

O disco conta com Ikonoklasta em “A Bala Dói”, um tema com vibração reggae/dub – algo recorrente em Luaty, que já colaborou, por exemplo, com os Terrakota produzido por Bandulu Dub. No refrão canta-se “sempre nos prometem comida, mas só nos dão porrada”.

Este não é o único rapper com quem Ikonoklasta colaborou, constando do currículo dele trabalhos com alguns maiores nomes do rap português. Em 2006, participou em “Pela Música, Pt. 2” de Serviço Público, o mais recente disco de Valete. O instrumental era do colega Conductor, de Meko e de Sam The Kid, que também emprestou a voz ao tema.

Aline Frazão com Ikonoklasta – “O Que eu Quero”
YouTube, 2010

Outra voz muito activa nesta luta é a de Aline Frazão, a cronista, cantora e compositora que faz uma versão do clássico de André Mingas (também usado pelos ex-colegas de Ikonoklasta do Conjunto Ngonguenha em “Sorriso Angolano”) em que se canta: “Gente buscando em vão uma esperança, um sorriso, uma flor, uma palavra amiga”. Tanto ao vivo, como no MusicBox, em Dezembro, ou neste vídeo gravado em casa de Luaty em Luanda, já contou com a voz do rapper. Nela, alguém que não nega ser um “filho do regime” rima: “Acordar a cada dia é um bom motivo para sorrir, pois num instante a vida pode-se extinguir, levou tempo mas finalmente percebi que é melhor viver simples para morrer feliz. Dinheiro é bom, mas nunca foi tudo, por isso o pobre ri e o rico é sisudo. O pobre ri e o rico é trombudo. O pobre ri sem nada e o rico é infeliz no tudo.”

Ikonoklasta – “Nós e os Outros”
YouTube/Mediafire, 2012

Há três anos, Luaty Beirão lançou um apelo directo à “classe média e alta” de Angola, à “elite”, para se juntar ao coro dos contestatários do regime, sem ter medo das represálias, enunciando todas as razões que levam alguém com consciência a manter-se calado. Humanista, ao início explica que não há “nós” nem “outros”, que são todos iguais. “É um apelo ao bom senso, pois um gesto vosso apenas salvaria muita gente de bater a caçuleta” (“bater a caçuleta”=“morrer”), diz ele logo no final da primeira estrofe, e prossegue a dizer que “Angola tem doença” e que muita gente da mesma geração do rapper “cala o que pensa para não comprometer os pais”, falando do medo de perder o emprego, amigos, clientes, ganhar dinheiro, manter negócios e falar de tudo menos do “mal” que os “devasta”.

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Sejamos todos Robin dos Bosques

Rodrigo Saraiva
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O protesto é uma arma da democracia, mas deve estar ligado directamente ao voto e não à violência. Sejamos todos Robin dos Bosques contra o saque fiscal. Há uma diferença entre o imposto e o esbulho. 

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