Mariano Rajoy bem pode largar a calculadora, porque o PSOE não o vai ajudar a fazer contas de somar à direita. Depois de o Partido Popular ter vencido as eleições de 20 de dezembro com maioria simples, e juntando a isso o facto de nem com os deputados do Ciudadanos conseguir controlar o Congresso dos Deputados, os socialistas do PSOE já vieram dizer que a direita não contará com o seu apoio. E, sem ele, um executivo de Rajoy não terá maneira de passar no parlamento.

Os espanhóis votaram pela mudança à esquerda, e nós vamos traduzir essa mudança no [nosso] voto”, disse no início da tarde de segunda-feira o secretário e número dois do PSOE, César Luena. “O PSOE agirá com prudência e responsabilidade e é o PP quem deve tentar formar um governo. Mas o PSOE vai votar ‘não’ ao governo de Mariano Rajoy.

A decisão foi tomada hoje pela Comissão Executiva Federal do partido liderado por Pedro Sánchez e terá de ser aprovada no sábado por outro órgão superior, o Comité Federal — o que deverá ser uma mera formalidade. O El País garante que haverá luz verde com “toda a certeza”.

Uma questão de integridade… nacional

Ao acabar em terceiro (contra a previsão das sondagens, que lhe davam o quarto lugar), o Podemos foi o protagonista de uma das maiores vitórias da noite eleitoral de 20 de dezembro — um bom prémio de consolação para quem há um ano aparecia em primeiro lugar nas intenções de voto.

De volta à calculadora: se forem somados os deputados do PSOE com os do Podemos, contam-se 159 deputados. Ou seja, menos dos que os 176 necessários para uma maioria. Não é o fim da conversa à esquerda, que teria sempre de envolver o apoio parlamentar de outros partidos com menor expressão, como a Esquerda Republicana Catalã ou Partido Nacional Basco. Mas, depois da decisão do PSOE de votar contra um governo de Rajoy, é a única maneira de a esquerda avançar. É, portanto, um início de conversa. E Iglesias começou por impor a Sánchez uma questão (verdadeiramente) fraturante: a integridade nacional e as aspirações independentistas da Catalunha e outras regiões.

“Qualquer força política que não entenda a plurinacionalidade do nosso país está disposto a entregar o Governo ao PP”, disse o líder do Podemos, dirigindo-se de frente para os socialistas. “Parece que os senhores que mandam no PSOE não entendem que a Espanha é um país diverso e plurinacional”, disse.

Assim, Iglesias deixou aquilo que será um “linha vermelha” obrigatória, entenda-se, uma exigência, para entrar em conversações com o PSOE: “O referendo [à independência da Catalunha] é imprescindível para construir um novo compromisso histórico. Vamos defender o ‘sim’ a um projeto comum para que a Catalunha continue como uma nação dentro de Espanha e o caminho para isso passa por haver um referendo”.

MADRID, SPAIN - DECEMBER 20: Podemos (We Can) leader Pablo Iglesias looks on as he walks after casting his vote at a polling station on December 20, 2015 in Madrid, Spain. Spaniards went to the polls today to vote for 350 members of the parliament and 208 senators. For the first time since 1982, the two traditional Spanish political parties, right-wing Partido Popular (People's Party) and centre-left wing Partido Socialista Obrero Espanol PSOE (Spanish Socialist Workers' Party), held a tight election race with two new contenders, Ciudadanos (Citizens) and Podemos (We Can) attracting right-leaning and left-leaning voters respectively. (Photo by Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

O Podemos juntou 69 deputados, com 20,7% dos votos. Pablo Iglesias fala de “uma nova transição” em Espanha. (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

Numa conferência de imprensa que durou 40 minutos, Iglesias preferiu não falar de outras “linhas vermelhas”, dizendo que o momento é o de “uma nova transição” — uma alusão à transição da ditadura para a democracia iniciada após a morte do general Francisco Franco — e abrindo o caminho a um diálogo. “Estas garantias são um compromisso para um novo acordo para o país que nos permita construir um novo projeto todos juntos.”

Direita ao PSOE: Ciudadanos pede abstenção, PP “responsabilidade”

É uma evidência, mas mesmo assim o líder dos Ciudadanos, Albert Rivera, fez questão de sublinhá-lo: “Quem tem a bola é Pedro Sánchez”. Os Ciudadanos apareciam em terceiro nas sondagens, sendo que algumas davam a este partido de centro-direita formado em Barcelona a hipótese de condicionarem um governo de Rajoy. Mas os estudos de opinião estavam errados — e a bola acabou por ressaltar para os pés do PSOE.

Ainda assim, Rivera fez questão de explicar as poucas opções táticas que restam ao PSOE. Das duas uma: ou se abstém, permitindo “um governo em minoria com Orçamentos do Estado previamente aprovados”; ou tenta formar um governo, “ou algo que se pareça” com “os oito do Podemos, mais o Partido Nacional Vasco, a Esquerda Republicana da Catalunha e o PSOE”. Não é só o número de partidos que torna esta combinação menos provável — são, sobretudo, as diferenças que têm no que diz respeito à independência da Catalunha e de outras regiões autónomas.

Assim, Rivera, que foi um dos maiores vencidos da noite de eleitoral depois de ter tido uma votação aquém do que as sondagens lhe previam, coloca ao socialistas Sánchez um dilema: “Tem de demonstrar se pensa mais em Espanha ou naquilo que lhe resta do partido”.

Do lado do Partido Popular, Mariano Rajoy está reunido com a sua Comissão Executiva, onde estarão a ser estudados os próximos passos a dar. Porém, a pelota está mesmo do lado do PSOE — e o vice-secretário do PP, Fernando Martínez Maíllo, apelou à “responsabilidade” dos socialistas. “Não podem ficar como um ator secundário neste processo”, disse. “Não se brinca com a estabilidade de Espanha.”

Barões do PSOE : “Esperamos que Rajoy comande”

Entretanto, no PSOE já se levantam vozes contra a posição anunciada na conferência de imprensa deste início de tarde de segunda-feira. É o caso de Emiliano García-Page, presidente da Junta de Comunidades Castilla-La Mancha e um dos barões dos socialistas. “Não vamos procurar pactos completos nem pastiches de nenhum género”, disse, acrescentando que o partido tem “limites muito claros”, entre eles o “conceito da unidade de Espanha”.

Além disso, García-Page pretende que a palavra seja devolvida a Rajoy, para que este consiga conseguir apoio parlamentar (ou até a abstenção, suficiente para formar governo) por parte dos socialistas: “É evidente que o PSOE não procura governar a todo o custo (…). Nao há planos B ne C na agenda do PSOE. Esperamos que Rajoy comande”.

Também da Extremadura se ouviram vozes críticas dentro do PSOE. O presidente daquela região, também ele socialista, disse que o seu partido “não pode alcançar pactos com ninguém que defenda a independência da Catalunha ou a autodeterminação dos povos de Espanha”.

Na conferência de imprensa dos socialistas, o número dois do PSOE deixou clara a posição do partido quanto à questão catalã: “A estes companheiros, digo-lhes que temos muito claro o artigo 2 da Constituição que defende a unidade de Espanha“. O tal onde se lê:

A Constituição fundamenta-se na indissolúvel unidade da Nação espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis, e reconhece e garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que a integram, tal como a solidariedade entre todas estas.”

No plano interno, o PSOE tem agendado um congresso para o mês de fevereiro — no qual a liderança de Sánchez poderá ser posta à prova, sobretudo no caso de surgirem listas concorrentes. Porém, tendo em conta o momento de indecisão da política espanhola, o número dois do PSOE referiu que a Comissão Executiva Federal vai solicitar ao Comité Federal que o congresso seja adiado até à primavera, sem uma data definida. Talvez já haja governo nessa altura — para já, tudo depende do PSOE, de Pedro Sánchez e do que ele quiser fazer à pelota.