A informação foi revelada pelo Exército na passada quinta-feira, 29 de junho. Largas quantidades de material de guerra desapareceram de instalações militares, nos Paióis Nacionais de Tancos, no final do dia anterior. O ministro da Defesa, Azeredo Lopes, garante que esta não foi “a maior quebra de segurança deste século em toda a União Europeia”. Colocam-se de imediato duas hipóteses para explicar o assalto: terrorismo ou crime organizado. O que se pode fazer com o material roubado, segundo uma lista divulgada em Espanha, é assustador.

O caso está nas mãos da Polícia Judiciária Militar e da unidade da Unidade de Contraterrorismo e Crime Organizado da Polícia Judiciária, a quem Marcelo Rebelo de Sousa pede uma “investigação que apure tudo”. Desse tudo, já algo terá sido apurado. Na polémica, envolvem-se políticos e até um jornal espanhol. Está já marcado um protesto. Mas vamos por partes.

O que se sabe

O incidente foi detetado no final de tarde da passada quarta-feira, dia 28 de junho, por uma ronda móvel de militares aos Paióis Nacionais de Tancos, mas a informação só foi revelada pelo Exército no dia seguinte;

Os perímetros de segurança dos Paióis Nacionais de Tancos foram violados e foram arrombados dois paiolins. Trata-se de uma zona cuja segurança estava comprometida, uma vez que havia uma falha na vedação, que ainda não tinha sido reparada. No dia 5 de junho, o ministro da Defesa tinha assinado um despacho para a reconstrução da “vedação periférica exterior no perímetro Norte, Sul e Este dos Paióis Nacionais de Tancos”. O ministro não ignora esta coincidência, mas não quer fazer insinuações.

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O que foi roubado: “Cerca de uma centena” de granadas de mão ofensivas e munições de calibre 9 milímetros desapareceram de dois paiolins nas instalações militares dos Paióis Nacionais de Tancos, informou o Exército em comunicado, no dia a seguir ao furto. Um fonte policial ligada ao caso disse no dia seguinte, sexta-feira, ao Diário de Notícias que foram roubados 44 lança-granadas, quatro engenhos explosivos, 120 granadas ofensivas, 20 granadas de gás lacrimogéneo e 1500 munições de calibre 9mm. No domingo, o jornal El Español publicou uma lista completa do material roubado, dando conhecimento de um número de material desaparecido muito superior àquele que era conhecido.

Espanha divulga a lista de material roubado em Tancos

A Polícia Judiciária Militar foi chamada ao local e iniciou as investigações. Vai também decorrer um inquérito no Exército para apuramento de responsabilidades;

O sistema de videovigilância das instalações militares dos Paióis está avariado há dois anos, de acordo com uma fonte policial ligada ao caso, em declarações ao Diário de Notícias;

Na noite e madrugada do roubo, os paióis estiveram sem vigilância. A última ronda feita por militares por volta das 20h00 e a primeira do dia seguinte, quarta-feira, só aconteceu às 16h00.

Cinco comandantes foram afastados temporariamente pelo chefe do ramo, Rovisco Duarte, até serem concluídas as averiguações, para evitar que “haja entraves” à investigação.

O que não se sabe

A lista de materiais roubados divulgada pelo jornal El Mundo ainda não foi confirmada nem desmentida por entidades oficiais. Não há conhecimento do destino do material roubado nem se este e encontra dentro ou fora do país;

Não foram divulgadas informações acerca da forma como o furto de sucedeu ou os meios utilizados para o fazer;

Também não se sabe quem foram os seus autores, embora o chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, tenha afirmado ter conhecimento de que o autor do furto tinha “conhecimento do conteúdo dos paióis”, desconfiando da possibilidade de fuga de informação;

Foi colocada a hipótese de terem ocorrido outros roubos anteriormente, pelo que estão a ser verificados os inventários dos restantes 14 paióis do quartel.

A dúvida: terrorismo ou crime organizado. A certeza de ser assustador

Descobrir o destino dos materiais roubados é um dos objetivos da investigação da Polícia Judiciária Militar. Crime organizado ou terrorismo são as hipóteses, revelou uma fonte policial ao Diário de Notícias. A possibilidade de o material roubado poder vir a ser vendido a associações criminosas e organizações terroristas colocou-se como primeira preocupação para as autoridades.

Foi o ministro da Defesa que admitiu a hipótese de terrorismo pela primeira vez, no sábado de manhã depois do furto. O chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, admitiu a possibilidade de fuga de informação e afirmou ter conhecimento de que o autor do furto tinha “conhecimento do conteúdo dos paióis”.

Roubo de armas em Tancos ligado ao “crime organizado”, diz o El Mundo

O jornal espanhol El Mundo afasta a possibilidade de terrorismo. De acordo com o jornal espanhol, a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, terá dito ao seu homólogo espanhol, Juan Ignacio Zoido, que o roubo estaria ligado a uma rede de “crime organizado”. Mas a ministra já negou ter passado essas informações.

De uma forma ou de outra, aquilo que o autor ou autores poderão fazer com o material roubado é assustador. Fazer colapsar um prédio, explodir carros blindados e até derrubar aviões perto de aeroportos.

Para que pode servir o armamento roubado em Tancos? É assustador

Políticos reagem e a polémica instala-se

“É sempre grave quando instalações militares são objeto de ação criminosa tendente ao furto justamente de material militar.” A reação do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, chegou no dia a seguir ao furto, diretamente de Bruxelas. Um dia depois, o ministro deixava claro que esta não era “a maior quebra de segurança deste século em toda a União Europeia”, em resposta a algumas críticas.

O PSD quer ouvir o ministro da Defesa e o chefe do Estado-Maior do Exército no parlamento. Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda pediu “responsabilidades políticas”. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, quer também que se sejam apuradas responsabilidades, acrescentando que existe a intenção de reaver todo o material. A líder do CDS, Assunção Cristas, foi mais longe e pediu a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, porque “não souberam estar à altura das suas responsabilidades”.

Assunção Cristas pede demissão dos ministros da Defesa e Administração Interna: “Sr. primeiro-ministro, volte e demita-os”

Marcelo Rebelo de Sousa, três dias depois do furto, recusou-se a comentar o incidente por não ser o “momento adequado”. Mas no passado Domingo voltou a falar do assunto, pedindo que se investigue até ao fim em matéria de factos e responsabilidades”.

O primeiro-ministro, António Costa, está de férias mas encontra-se “sempre contactável e disponível em caso de necessidade”, garante num comunicado. A semana de férias de António Costa tem sido alvo de críticas por acontecer numa altura em que o Governo está a lidar com a situação de Tancos, mas ainda com os esclarecimentos do incêndio de Pedrógão Grande.

Costa justifica período de férias em comunicado

O Governo foi também criticado entre as altas patentes militares. O tenente-general Joaquim Formeiro Monteiro, usou o Facebook para o fazer, colocando a possibilidade de situações como a de Tancos voltarem a acontecer “enquanto o poder político não encarar” as dificuldades existentes nas Forças Armadas.

O que é que se pode esperar agora

As investigações da Polícia Judiciária Militar estão em curso. O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, vai ser ouvido na comissão parlamentar, o que deverá acontecer na quarta-feira, mas a informação ainda não foi confirmada.

Está marcado um protesto na próxima quarta-feira às 11h30 pela demissão dos cinco comandantes. Os oficiais do Exército estão a ser convocados por email a depor as suas espadas à porta da Presidência da República. Ao Público, o presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas, António Costa Mota, garantiu que a associação não vai juntar-se a este protesto, alegando que “é uma questão interna do Exército”.

(Texto editado por Rita Ferreira)