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Os candidatos de maior risco para Passos são as oportunidades de Rio

Passos ficou em Lisboa para ajudar Leal Coelho. Rui Rio esteve no Porto a dar a mão a Álvaro Almeida. Disse que após as autárquicas, em que há uma leitura "nacional", "outros temas se podem resolver".

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Eram cinco da tarde. Pedro Passos Coelho juntou-se a Teresa Leal Coelho em Lisboa, enquanto Rui Rio apareceu na campanha de Álvaro Almeida no Porto. Com o líder a sul e o possível candidato a líder a norte, as campanhas sociais-democratas nas duas maiores cidades ganharam uma animação e um colorido que ainda não tinham tido. Enquanto Rio, a norte, (e Paulo Rangel, a sul) admitia que os resultados das autárquicas têm sempre uma leitura nacional, Passos dizia que o PSD não está a lutar pela sobrevivência em Lisboa. O eventual confronto entre os dois homens está cada vez mais próximo.

Em vez de catapultar a notoriedade do desconhecido Álvaro Almeida, o ex-presidente da câmara do Porto ainda acentuou mais a falta de jeito do professor universitário para a campanha. Quanto a Passos Coelho, a energia que pôs nesta tarde ainda fez contrastar mais as limitações de Teresa Leal Coelho nas ações de rua. Com o partido desmobilizado, a candidata a Lisboa até recebeu uma carta do seu maior opositor no aparelho a ensiná-la a fazer campanha. Para Passos, a má performance eleitoral destes candidatos em que arriscou a sua liderança pode coincidir com um pico de insatisfação no partido. Mesmo assim, isso pode não lhe custar a liderança. “Estão fartos do Passos, mas não o querem mandar embora”, comenta um notável social-democrata com o Observador. Rui Rio é quem mais tem a ganhar com uma derrota estrondosa do homem que foi ajudar. Deixou uma frase a preparar terreno:

“Até às eleições autárquicas, o imperativo é procurar a unidade. A partir do momento em que estiverem resolvidas as eleições autárquicas, outros temas se podem resolver. Agora, o resultado de 1 de outubro é um elemento importante, como é lógico. São eleições autárquicas, mas todas ao mesmo tempo, tem um resultado nacional, ponto.”

Passos Coelho e Rui Rio foram mesmo uma boa ajuda para os candidatos em Lisboa e no Porto?

No Porto foi assim. Já todos passámos por aquela situação desconfortável quando vamos a uma festa em que só conhecemos uma pessoa num grupo de vários amigos. Ficamos à margem, com olhar colado ao telemóvel, fingindo que estamos muitíssimo entretidos com conversas distantes dali, quando na verdade só queremos que aquele momento acabe ou que alguém, por comiseração, tente entabular uma espécie de conversa connosco. A arruada de Álvaro Almeida foi assim: Rui Rio, que mais parecia o verdadeiro candidato, sugou todas as atenções e atirou o challenger de Rui Moreira quase sempre para segundo plano.

Enquanto isso, em Lisboa, à mesma hora, pelas cinco da tarde, o barco (ainda) não tinha ido ao fundo, e já se ouviam violinos. Foi uma festa com a presença do líder. Passos estava saudosista. Alegrava-se de ver que os Gelados Conchanata ainda estavam no mesmo sítio, embora os produtores já tivessem deixado de fazer o formato familiar, o seu preferido. Resistiu à tentação de provar, mas prometeu que voltava lá ainda hoje no caminho de casa. Mas as saudades não ficaram por aqui. Passos também tem saudades do Sítio dos Bons Amigos, ali nos arredores da Avenida da Igreja, que frequentava quando tinha os seus 20, 21 anos, porque ficava aberto até altas horas da noite. “Muitas vezes a noite acabava tarde e vinha-se aqui comer uma sopinha e picar mais qualquer coisa a altas horas. Era uma altura em que tínhamos horários eram mais flexíveis, agora temos de aproveitar esses tempos para descansar”. Passos estava bem-disposto. Já não fazia uma campanha eleitoral há dois anos, e o gosto de andar a lançar charme porta a porta estava esta quinta-feira especialmente acentuado. Não é um Paulo Portas, mas quase.

A norte, o entusiasmo era mais com o convidado especial, que se tornou personagem principal. De tal forma que Álvaro Almeida se deixava ficar para trás, enquanto a comitiva seguia caminho, por entre a confusão de pernas, braços, bandeiras, simpatizantes, jornalistas, câmaras, microfones e gravadores. A estrela ali era Rui Rio e era Rui Rio que todos queriam ver e seguir: até Pedro Duarte, cabeça de lista à Assembleia Municipal do Porto pelo PSD e potencial aliado de Rio quando (ou se) a questão da sucessão de Passos se colocar no futuro próximo. Ao longo de todo o percurso, o ex-líder da JSD fez questão de estar sempre à direita do antigo presidente da Câmara do Porto.

Diário do Porto. Rui Rio: “Outros temas se podem resolver” depois das autárquicas

Em teoria, a presença do ex-autarca seria positiva para Álvaro Almeida, a braços com o desafio de se fazer notar apesar de poucos o (re)conhecerem. Em teoria. Na prática, Rio brilhou de tal forma que poucos chegaram sequer a falar com o verdadeiro candidato à Câmara do Porto. De quando em vez, Rio ainda tentava quebrar o gelo:

— Meu bom doutor Rui Rio, o melhor presidente que o Porto já teve. Está no meu coração!

— Como está? Aqui o professor Álvaro Almeida é o candidato do PSD…

— Ah, não conhecia. Muito prazer.

Seria quase sempre assim. O antigo presidente da Câmara do Porto ainda desvalorizaria essa realidade. “É normal que as pessoas venham ter mais comigo. Ao fim de tantos anos de vida pública, tenho um nível de notoriedade elevado. Isso é normal”. E Álvaro Almeida pouco ou nada se parecia importar. “Estou muito bem acompanhado”, ia dizendo, à medida que se esforçava por mostrar aos jornalistas “todas as obras que foram feitas pelo dr. Rui Rio”.

É certo que a presença de Rui Rio trouxe mais luz a uma campanha que tem sido pouco mais do que cinzenta — mas, a acreditar nas pessoas que iam perguntando “mas quem é mesmo o candidato?”, talvez tenha sido pouco mais do que luz artificial. Uma campanha tão cinzenta que até parece atacada pela fauna da cidade: na segunda-feira, enquanto passeava pelo centro histórico do Porto, Álvaro Almeida, que tem como proposta “acabar com a praga das gaivotas”, chegou mesmo a ser atingido por um projétil natural caído dos céus. E o blazer azul marinho ganhava uma medalha. Resta saber se também trará sorte.

A 300 quilómetros de Rio e Almeida, nos passeios largos das ruas do bairro de Alvalade, na capital, desenrolava-se uma ação semelhante: um emaranhado de jotas, bandeiras laranja, deputados, militantes, apoiantes, fotógrafos, câmaras, jornalistas. “Nunca tive nenhuma dificuldade em fazer campanha, gosto de estar com as pessoas. Não gosto é da forma como as campanhas às vezes são preparadas, onde os cidadãos quase que são os figurantes dos nossos filmes”, dizia Passos Coelho quando questionado sobre se toda aquela genica e motivação que aparentava esta tarde era sinónimo de saudades de fazer campanha.

Diário de Lisboa. Passos com Teresa: “PSD não está a lutar pela sua sobrevivência aqui em Lisboa”

O líder do PSD anda por estes dias pelo país a apoiar os candidatos nos vários concelhos, e a fazer a sua própria campanha para as diretas do PSD no próximo ano. Mas esta quinta-feira teve um sabor especial: foi lançar charme para a campanha de Teresa Leal Coelho, em Lisboa, e assumiu a dianteira. Primeiro no bairro São João de Brito, em Alvalade, onde a candidata do PSD chamou a atenção para o facto de aquele bairro estar há décadas por legalizar (apesar de há dois meses a câmara ter dado indicações nesse sentido), depois na tradicional descida da Avenida da Igreja, onde Teresa Leal Coelho não foi mais do que uma figurante do filme de Passos. Não eram raras as vezes em que a comitiva perdia o líder de vista, e era vê-lo ao longe, sozinho, a entrar num café ou numa ourivesaria para ver e ser visto. “Gosto de ficar a conversar, e isso às vezes não se compadece muito com as organizações que temos. Mas quanto mais local é a eleição maior é a proximidade, e a Teresa sabe bem disso”, explicaria depois.

No meio do aparato, seria Passos, contudo, a chamar a candidata do PSD a Lisboa à conversa. “Teresa, os teus pais moram aqui não é?”. “Sim, moram ali em baixo”. Passos e Teresa Leal Coelho são amigos, pelo que a pergunta não seria tanto curiosidade genuína, mas sim uma tentativa de virar as atenções para a candidata. Só que eram raras as vezes que Teresa Leal Coelho aproveitava a deixa. Chegados à Avenida da Igreja, com o aparato normal do aparelho e da juventude partidária, Passos tentou que fosse Teresa Leal Coelho a guiar a comitiva: “A chefe da banda é que tem de dizer para onde vamos”.

9 fotos

Quem no dia anterior tinha visto a pequena comitiva de Teresa Leal Coelho descer a Alameda das Linhas de Torres, com meia dúzia de bandeiras laranja e uma comitiva mínima sem rostos conhecidos, não diria certamente que se tratava da mesma campanha eleitoral que hoje desceu a Avenida da Igreja. E não é que Lisboa seja o palco predileto daquele que foi ex-primeiro-ministro no tempo da troika. Mas a verdade é que foi Passos Coelho quem escolheu Teresa para ser candidata a Lisboa, e Passos Coelho faz de facto falta à candidata em Lisboa. Quando o líder do partido aparece, surgem consigo vários rostos conhecidos e pesos-pesados no partido, mais não seja para dizer que estiveram lá: Paulo Rangel marcou presença, além de José Eduardo Martins que, embora seja candidato à Assembleia Municipal, nem sempre acompanha a candidata. O líder parlamentar Hugo Soares não faltou, e até o ex-deputado e ex-presidente do conselho de fiscalização das secretas Paulo Mota Pinto foi dar uma palavra de apoio. Deputados, históricos militantes, muito mais jovens sociais-democratas: o aparato triplica.

Num café de Alvalade, Pedro e Teresa entram para beber um café e encontram por lá o conhecido violinista e humorista João Canto e Castro, que, além de lhes dar música, exibiria um dos seus habituais números de imitação de vozes: “Boas tardes”. As parecenças com Passos Coelho era notórias. Mas Passos diria que não se reconhecia na imitação, porque “nunca nos ouvimos da mesma maneira”. Já a imitação de Cavaco Silva, essa sim, admitia ser um clássico.

Passos Coelho ouve Canto e Castro tocar violino e imitar a sua própria voz

O herdeiro de Rio no Porto. Em Lisboa não está em causa a sobrevivência

Como candidato à câmara do Porto, Álvaro Almeida tem-se esforçado por se assumir como verdadeiro herdeiro de Rui Rio, tanto que Rui Moreira já disse que o independente que corre nas listas do PSD está “a puxar os galões de outrem”. Ao lado do ex-autarca, Álvaro Almeida não muda de posição: “O Porto precisa de uma mudança na câmara. É para isso que estamos a trabalhar. O executivo não pode viver à custa da herança do que foi feito por Rui Rio. Nós somos a continuação dessa gestão do PSD”.

Nem Rui Rio se parece importar com essa colagem, mesmo que Rui Moreira sugira, como sugeriu em entrevista ao Observador, que o seu antecessor apoia o candidato do PSD porque tem aspirações nacionais — liderar o partido, leia-se. “[Rui Moreira] sugere o que lhe apetece. É um país livre, ele sugere o que lhe apetece”, respondeu o social-democrata.

Mesmo quando confrontado com o facto de, em 2013, ter preferido dar o apoio velado a Rui Moreira a defender a candidatura de Luís Filipe Menezes, Rui Rio não deixou margem para dúvidas: “Há quatro anos não me identificava com o programa que o partido tinha para câmara. Fiz aquilo que uma pessoa deve fazer na vida: fui sincero, fui autêntico e não podia apoiar aquilo em que não acreditava. Estamos em 2017 e é completamente diferente. Sendo completamente diferente, ajo em consonância e agora apoio aquilo em que acredito”. Mais esclarecedor não podia ser: entre Rui Moreira e Álvaro Almeida, Rio escolheu o antigo quadro do FMI como seu verdadeiro herdeiro. Mas há quatro anos Álvaro Almeida diz que votou em Luís Filipe Menezes.

Em Lisboa, mesmo perdendo, ou perdendo por muitos, Passos não admite estar a jogar a sobrevivência política. Só Paulo Rangel, ali ao lado, admite que haverá necessariamente leituras nacionais no dia seguinte. A leitura política é inevitável. Passos está mais bem disposto do que o habitual, mais efusivo do que lhe é próprio. Parece estar a querer contagiar uma campanha que decorre sem brilho. Mas o líder do PSD não quer leituras, nem tão pouco comentar cenários. Não admite que uma eventual derrota do PSD em Lisboa seja uma derrota sua, e limita-se a dizer que, quando escolheu Teresa Leal Coelho para a corrida, o objetivo era, e é, “ganhar as eleições”. E que, note-se: “O PSD não está a lutar pela sua sobrevivência aqui em Lisboa”.

Nem vale a pena perguntar mais, porque Passos não equaciona outros cenários que não aquele, embora ninguém acredite numa vitória em Lisboa. A última sondagem conhecida, do Jornal de Notícias, dava Assunção Cristas à frente do PSD por um ponto percentual, com Teresa Leal Coelho a ficar-se pelos 16%. Mas Passos não comenta sondagens. “Não dou uma grande relevância às sondagens, no passado houve sondagens para todos os gostos nas várias eleições a que me submeti. Acredito que estamos a fazer o que é preciso para fazer uma campanha limpa, para ter um programa que se pode concretizar e que vá ao encontro das necessidades das pessoas. O PSD é um grande partido, tem uma grande implantação no país e em Lisboa também. Quero é que os próximos quatro anos no município de Lisboa valham a pena e sejam diferentes”, disse no bairro de São João de Brito.

Talvez o PSD não esteja a lutar pela sobrevivência em Lisboa, mas a sobrevivência do líder do PSD pode estar mais ou menos dependente da prestação do partido nestas eleições — e do tamanho da queda em Lisboa (e no Porto). Paulo Rangel, o eurodeputado que já defrontou Passos Coelho em diretas, quis hoje dar apoio à candidata em Lisboa, mas no meio dos elogios deixou um recado: “Todos os resultados naturalmente terão leituras, isso é uma coisa para depois, a seguir”. Ou seja, agora é tempo de “apostar tudo até ao dia 1”. Depois do dia 1, o filme poderá ser outro.

Maquiavel no Porto? Rui Rio tem tudo a ganhar com uma derrota expressiva de Álvaro Almeida

Mesmo com todos os sinais e movimentações internas em torno de uma eventual candidatura de Rui Rio para derrotar Passos Coelho, o antigo presidente da câmara do Porto continua sem desenterrar definitivamente o machado de guerra. Aliás, tem sido esse o seu perfil, desde que se especula sobre o futuro político: esperar pelo momento certo para regressar à política. Rio falhou o timing em 2017 e viu Marcelo Rebelo de Sousa roubar-lhe a vaga para Belém. Desta vez, no entanto, talvez não hesite novamente.

LUSA

Não tem margem de recuo, se quiser manter alguma credibilidade. Ainda esta fim-de-semana Miguel Relvas disse numa rara entrevista ao Expresso, que pagava para ver Rui Rio como candidato à liderança do PSD. No entanto, sociais-democratas que têm lidado com Rui Rio nos últimos meses garantem que o ex-autarca deve anunciar a candidatura logo na semana a seguir às autárquicas ou pouco tempo depois. A arruada pelo Porto foi um teste (bem-sucedido) à sua popularidade, mesmo que Rio tenha negado taxativamente de que a sua presença era um ensaio para um futuro duelo com Pedro Passos Coelho. “Não, não, não. Estou aqui em apoio ao professor Álvaro Almeida, ponto.”

Mas depois existem aquelas frases que ganham direito natural a figurar nos manuais da história política do país. Nas autárquicas de 2007, quando Fernando Negrão servia de candidato de recurso a Luís Marques Mendes, Passos entrou na campanha do partido para dizer que o “PSD devia pedir desculpa a Lisboa”. E Mendes cairia às mãos de Luís Filipe Menezes. Em 2013, António Costa surgiu na noite eleitoral para dizer que a vitória de António José Seguro nas europeias “tinha sido poucochinha”. E Seguro cairia, desta vez às mãos do próprio autor da frase.

Esta quinta-feira, depois da insistência dos jornalistas em saber o que fará perante um eventual mau resultado do PSD nas autárquicas de 2017, o ex-presidente da Câmara do Porto teve uma dessas tiradas:

“Até às eleições autárquicas aquilo que é o imperativo de todas as pessoas do PSD é procurar a unidade necessária para se obter o melhor resultado. A partir do momento em que estiverem resolvidas as eleições autárquicas, outros temas se podem resolver. Agora, o resultado de 1 de outubro é um elemento importante, como é lógico. São eleições autárquicas, mas todas ao mesmo tempo, tem um resultado nacional, ponto.”

A frase de Rio tem várias graduações, mas a leitura nas entrelinhas só pode ser uma: Passos vai ser responsabilizado por um eventual mau resultado do partido nas autárquicas deste ano. Talvez aí, as trincheiras que se estão a cavar sejam mais claras. Daí que a sua posição como conselheiro de Álvaro Almeida faça de Rui Rio uma espécie de Maquiavel: diz-lhe o que fazer, sabendo que o seu benefício pessoal será tanto maior quanto maior for a derrota do independente no Porto, comenta com o Observador um alto dirigente do PSD. Um desastre no Porto (abaixo dos 15%) ou uma hecatombe em Lisboa atrás do CDS em Lisboa seria o ambiente ideal para Rui Rio avançar.

Nas conversas com os jornalistas, porém, Rui Rio manteve o otimismo. “Estas eleições não são favas contadas, como já tenho dito. Nos últimos tempos tem se notado uma evolução no sentido de reforçar as alternativas para a Câmara. Pela minha experiência, as duas últimas semanas são sempre importantes. Eu ainda sinto um bocadinho isto”, sugeriu o social-democrata. E ainda teve uma frase assassina para Rui Moreira: “Se o caso Selminho vai beneficiar Álvaro Almeida? Sim, esses e outros casos”, respondeu Rui Rio.

Os sociais-democratas do Porto têm as expetativas muito baixas, mas várias fontes do PSD-Porto dizem que nas últimas semanas o ânimo cresceu mais um pouco nas hostes laranjas, depois da reação destemperada de Rui Moreira no debate da RTP sobre o caso Selminho. “A expetativa está tão baixa que as pessoas estão relativamente conformadas com a derrota”, diz um social-democrata relevante do Porto ao Observador. “Isso pode ter um efeito positivo para Passos. Se o resultado for melhor do que está a aparecer nas sondagens, pode ter aquele efeito de não ter sido uma desgraça”.

Rodrigo Gonçalves ensina Teresa Leal Coelho a fazer campanha

Teresa Leal Coelho recebeu esta semana uma carta com uma lição sobre como fazer campanhas. Tal como no Porto, em Lisboa não há mobilização nem entusiasmo nas bases do partido. Na capital, são vários os dirigentes a encolher os ombros e a admitir ao Observador que vão participando em eventos porque tem mesmo de ser. Teresa Leal Coelho é criticada internamente por não envolver o partido. Mas o ambiente é péssimo, as estruturas estão em guerra e a candidata nem sequer tem o apoio da fação com maior peso na capital, que se posicionou contra Pedro Passos Coelho: a de Rodrigo Gonçalves, um dirigente controverso, mas com grande experiência em campanhas e mobilização de militantes.

Esta semana, no início da campanha, Rodrigo Gonçalves partilhou no Facebook uma carta que enviou a Teresa Leal Coelho, com cinco conselhos em termos programáticos, mas que sobretudo “ensinava” a candidata a fazer campanha: “A Teresa Leal Coelho deverá exigir, no mínimo, 120 pessoas em regime de permanência diária na campanha, garantindo uma equipa de 5 pessoas por freguesia (Lisboa tem 24 freguesias). Desta forma terá sempre presença nas ruas. No entanto nunca poderá ter menos de 5 pessoas numa ação simples de campanha”, escrevia um dos mais experientes caciques de Lisboa, e que controla mais votos. Foi ele que promoveu a lista contra Passos Coelho nas recentes eleições para a distrital e que tinha carrinhas ao seu serviço para transportar militantes para as mesas de voto, como mostrou uma investigação do Observador.

Vídeos. Como os caciques do PSD/Lisboa angariam votos

Gonçalves, que ficou como líder interino da concelhia de Lisboa e cujos candidatos a presidentes de junta foram vetados por Teresa Leal Coelho e pela distrital — incluindo o seu pai — escreveu na carta que a candidatura “deverá garantir, em todas as ações públicas”, em que participe, uma forte mobilização para criar e reforçar a dinâmica de vitória”. Não é isso que tem acontecido. Para realizar arruadas deve ter garantida a participação de “pelo menos 100 pessoas, concentrando esforços nas freguesias” onde o PSD pode vencer. Nem de longe estes números têm sido atingidos. Ações de rua sim, defende Gonçalves, mas apostar principalmente nas que “têm cobertura da comunicação social, que ajuda a amplificar a mensagem”.

A carta é um verdadeiro tratado sobre como fazer campanhas, mas é sobretudo uma forma de enfatizar as fragilidades organizativas do PSD em Lisboa. Um derradeiro conselho evidencia a desmoralização do partido: “Por fim a minha última e mais importante sugestão. Fazer campanha com entusiasmo, com paixão, com a motivação e convicção inabalável de que vamos vencer. A transmissão desta energia é fundamental para motivar as hostes social-democratas e principalmente o eleitorado de Lisboa que tanto precisa de uma alternativa”. Não é o que se vê nas ruas.

Já no Porto, presença de Rio na arruada de Álvaro Almeida trouxe o fator que tem faltado quase sempre à candidatura do economista: o aparelho social-democrata, que pouco ou nada se tem visto nas ações regulares de campanha. À imagem de Lisboa. Nesses dias, parece faltar tudo: carros de apoios? Ficaram na garagem. Bandeiras? Contam-se pelos dedos. Militantes e simpatizantes? Idem. Jotinhas? Estarão nas aulas, certamente. G ritos de apoio? Nem um pio.

A acreditar no que dizem as sondagens, depois de ter sido uma escolha de Pedro Passos Coelho para a corrida, Álvaro Almeida arrisca-se a ter um dos piores resultados do PSD no Porto. Mesmo Pedro Duarte, que faz parte da oposição interna de Passos, corre numa bem mais confortável candidatura a cabeça-de-lista à Assembleia Municipal: se perder, dirá que não faltou quando o partido mais precisou dele; se conseguir um bom resultado, assumirá parte dos louros dessa vitória. O mesmo vale para Rui Rio: ninguém poderá dizer que o ex-presidente da Câmara do Porto traiu o partido quando esteve ao lado de um candidato que é claramente menos favorito.

Contas feitas, se o PSD perder no Porto — sobretudo, se perder por muito –, será mais um golpe na liderança de Passos. Entre as tropas sociais-democratas, há quem acredite que a candidatura de Álvaro Almeida representa uma derrota por falta de comparência. O perfil político do candidato (ou falta dele) também não ajuda: pouco efusivo, pouco mobilizador, nada experiente e ainda a afinar a sua persona política. Tal como Teresa Leal Coelho.

Desta vez, na presença de Rui Rio, foi diferente: o aparelho partidário compareceu em força, musculado. “Álvaro vai em frente, tens aqui a tua gente”, foi gritando o grupo. A mesma “gente” que tem deixado o candidato praticamente sozinho nas restantes ações de campanha menos nobres. Resta saber quem estará lá ao seu lado depois das autárquicas.

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