Abre-se o Facebook e vê-se o feed de notícias. Partilhas de fotografias de amigos, longas publicações sobre o dia a dia e a ocasional partilha de notícias. Umas de meios conhecidos, outras de páginas que o utilizador segue e, também, as sponsored (patrocinadas). São estas últimas as que mais podem induzi-lo em erro. Ao contrário de todas as outras, houve uma entidade que pagou ao Facebook para que a publicação alcançasse mais pessoas. Poder-se-ia pensar que estes posts pagos em forma de notícia na rede social tivessem uma maior triagem, mas não têm. Com o claro intuito de fazer o utilizador crer que se trata de conteúdo informativo, quando claramente é falso, o objetivo é enganar o utilizador.

O problema não é novo e a rede social de Mark Zuckeberg tem-se debatido com o fenómeno. Páginas credenciadas e apelo ao bom senso dos utilizadores não foram suficientes, tendo levado a empresa a anunciar que o algoritmo de escolha de conteúdos vai ser alterado. As fake news são muitas vezes a fonte de factos que nada têm de verdadeiro, como Donald Trump ter dito que não gostava de Portugal, Jackie Chan estar morto ou os refugiados muçulmanos terem violado duas mulheres em Frankurt — isto só para citar três casos conhecidos.

O caso que é aqui exposto como exemplo é de um conteúdo pago que apareceu no feed de notícias no Facebook de um jornalista do Observador a 22 de janeiro deste ano. Em tudo parece uma notícia, mas em nada é uma. Fake news em questão? Bill Gates está a investir em criptomoedas — eis o suposto exclusivo da CNN, marca de referência que assim dava credibilidade à informação. O objetivo? Levar um utilizador a dar um número de cartão de crédito para uma plataforma de moedas digitais falsa. Estes foram os passos.

Um título em género de pergunta com um tema atual

O tema? Algo atual e que cative. Dinheiro fácil garante sempre o clique e, atualmente, nada como as bitcoins — as criptomoedas — para levar alguns internautas a carregar no rato. A página que patrocinou o conteúdo “Portugal Coindash” não é possível encontrar no Facebook pela pesquisa. Contudo, não foi por isso não apareceu no feed de notícias e teve direito a comentários por parte dos utilizadores.

A cópia da imagem que surgiu no feed de notícias.

Ilustrar com imagem de alguém conhecido

Quanto mais rica, melhor. Neste caso a personalidade escolhida foi Bill Gates, o conhecido fundador da Microsoft várias vezes referido como “o Homem mais rico do mundo”. Na imagem uma imagem com um logo da Bloomberg, uma conceituada agência de notícias.

Uma hiperligação para um site que pareça legítimo

A imagem reencaminha para um site chamado “Economic Speach.EU-Central-1.Elastic Bean Stalk”. Saliente-se que em português o título seria algo como: “Discurso Económico Europeu”. Mas a legitimidade deste link mais uma vez peca pelo erro: discurso em inglês é “speech” e não “speach”. Na legenda, o subtítulo cativa ainda mais “Descubra o que Bill Gates disse sobre a moeda”.

Um site que pareça legítimo

A hiperligação deste exemplo reencaminha para uma página que no topo utiliza o logotipo da CNN Tech, a secção de tecnologia daquela estação de televisão. A imagem da Bloomberg é trocada por uma montagem do conhecido multimilionário num estúdio. Com o layout da CNN lê-se: “a maior descoberta desde o Windows 1.0”.

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A hiperligação leva para este site. Todos links, até as notícias do canto direito, levam para o mesmo esquema de fraude.

Exemplos, muitos exemplos

Por mais subtil que esta notícia falsa possa ser, é bastante descarada a mostrar-se como uma fraude. Logo no início do texto revela a intenção de ludibriar quem lê ao afirmar que “Bill anunciou uma nova plataforma de criptomoedas”. O texto continua por afirmar, erradamente, que Gates ganhou 500 milhões de dólares em 2016. Ao longo dos parágrafos pode ver-se vários links para a suposta plataforma criada pelo milionário americano onde, numa nova ligação, se tenta obter dados pessoais e bancários.

Nos comentários da publicação do Facebook cinco utilizadores comentam a notícia, apenas um faz o apelo a denunciar a fraude.

Nunca é escusado dizer: se uma ligação na Internet lhe pede os dados do cartão de crédito com a promessa de fazer dinheiro, desconfie e feche o site em questão. Se vir uma publicação semelhante no Facebook, não carregue na imagem, denuncie como spam. As redes sociais podem tentar não propagar as fake news, mas, como este exemplo demonstra, a triagem falha principalmente em conteúdos patrocinados que dão dinheiro às plataformas. Os novos esforços de Zuckerberg para mudar o algoritmo do feed de notícias poderão atenuar estes erros, mas convém distinguir o que é legítimo do que não é.

Ao ver esta notícia é possível que quem não carregue, através do título, fique apenas com a ideia que a Bloomberg está a avançar que Bill Gates está no negócio das bitcoins. Quem conta um ponto acrescenta um ponto e assim mais um rumor errado afeta o mercado. Nascem assim as Fake News. Neste caso, num patrocinado no Facebook, aparentemente inofensivo.