Foi o congresso da ambição de Assunção Cristas. A líder do CDS falava no púlpito, com Rui Rio sentado na primeira fila, a ser desafiado ao ouvir que o CDS quer ficar à frente do PSD nas legislativas. A retórica foi toda essa: “Quem não quer o PS só tem uma escolha: nós”. Ou “ser a primeira escolha!”, por ter acabado o voto no PS e no PSD “para o primeiro lugar”. Cristas decretou em Lamego que já não faz sentido o voto útil, porque a governação se define pela bipolarização entre entre dois blocos de esquerda e de direita — exatamente o contrário da estratégia de Rui Rio que, em vez de fazer o contraste, se aproximou do adversário para atenuar a delimitação dos campos. Em 2019 saberemos quem tem razão.

Um par de horas antes de fazer o discurso de encerramento do congresso, Cristas era ainda mais explícita na entrevista ao Carpool do Observador: a presidente “pragmática” dos democratas-cristãos, liberais e conservadores assumiu que deseja uma maioria de 116 deputados de centro-direita. Mas quer que seja o CDS o parceiro número um. A estratégia vai servir dois discursos: no futuro, esta retórica servirá a narrativa contra o PS, encostando António Costa ao bloco composto pelo BE e pelo PCP. E servirá para disputar a direita, para competir com um PSD mais complacente ao centro. Foi ver o que disseram do PSD os congressistas ao longo do fim-de-semana.

Competição. Desafio à direita. Ou guerra, apesar no cuidado dos dois líderes com as palavras. Agora são frenemies: amigos e inimigos. O que vai ficar deste congresso para a história é o novo patamar aspiracional de Assunção Cristas, embalada pelo resultado de 21% Lisboa e a querer levar o espírito da candidatura à capital ao resto do país. Se Rui Rio parece ter desguarnecido a sua direita, aí está resposta. Se a política tem horror ao vazio, os centristas ocuparam o espaço livre. Agora Rio tem o CDS a querer crescer à sua custa para o subalternizar. Pôs-se a jeito.

A líder do CDS acha que está em condições de ir para o mesmo terreno do PSD não apenas nas propostas mas nos votos. É na contagem de boletins que se define o sucesso político, disse no primeiro discurso. A ex-ministra da Agricultura acredita no mercado e acha que vai ter mais quota porque pode vender um produto mais atraente que a banquinha laranja do lado. Daí toda a conversa sobre o pragmatismo, o chegar a todos, e um certo recentramento (ilusório) do CDS. Que tem mais a ver com a simplificação da linguagem do que com o conteúdo.

Com o eixo do centro político a deslocar-se para a esquerda desde outubro de 2015 através da “geringonça” e agora com o PSD de Rui Rio a recentrar-se, faltava o CDS. O “pragmatismo” de Cristas inscreve-se nesta tendência que foi uma das questões centrais do debate político deste congresso: o partido deve ser mais abrangente ou incaracterístico? Também andou para a esquerda e acompanhou o movimento de gauchização do sistema? Ou devia manter bandeiras mais típicas da direita tradicional como defende a ala mais conservadora do partido?

Na verdade, Cristas consegue parecer muito prática, mas não fala de economia sem dizer que é “economia social”, nem fala de Estado social se  o classificar como Estado Social de parceria. As palavras são importantes, e é muito por aqui que se define o CDS democrata-cristão: a economia privada e o Estado sempre ligados às IPSS e a instituições da Igreja sobretudo na saúde ou na educação. Já que Adriano Moreira foi uma das estrelas do congresso, convém lembrar uma frase que ele costumava repetir aos alunos na universidade: “É preciso saber ler nos silêncios do poder”. E se o CDS parece silencioso em certas matérias para se apresentar ao eleitorado como um partido mais abrangente, fresco e moderno, isso não quer dizer que deixou de ser aquilo que é. Por exemplo, na eutanásia, Cristas manteve o partido unido e sem fissuras numa das causas fraturantes que ainda restam na agenda política

No discurso final, apareceu com uma agenda em certos aspetos inovadora para um partido de direita tradicional, como as alterações climáticas, ou as transformações tecnológicas que vão afetar o mercado. Ou ainda uma fiscalidade mais generosa para o interior.

Do ponto de vista tático e estratégico, está em posição de desafiar Rui Rio porque já tem vantagem sobre o PSD em alguns aspetos. O líder do PSD entrou há um par de semanas na São Caetano. Ela está há dois anos no Largo do Caldas e tem trabalho feito para mostrar. Enquanto o líder do PSD ainda está a começar e ainda não se percebe muito bem para onde vai, Cristas vai apontando caminhos. Se compararmos os discursos de Rio no congresso com os de Cristas, o do PSD parece mais parado no tempo que o do CDS. E politicamente mais conformado.

Cristas ainda beneficia ainda de outro contexto favorável. Durante anos, os líderes do PSD tinham uma enorme vantagem sobre Paulo Portas. O ex-líder do CDS teve de lutar anos para poder ser visto como ministeriável. Quando chegou a ministro da Defesa de Durão Barroso, só seis anos depois de chefiar o partido, havia pastas em que era impensável ver Portas (como na Administração Interna ou nos Negócios Estrangeiros). Assunção não sofre desse tipo de preconceito. Já foi ministra. Já teve um belo resultado nas autárquicas em Lisboa. Pode então subir um patamar sem se expor ao ridículo: dizer que quer ser primeira-ministra. E que vai competir com o PSD pela liderança da direita.

Mas este posicionamento — para as pessoas pensarem que ela pode ser candidata a chefe de Governo sem ninguém se rir —, também a faz correr riscos. Já se percebeu que a estratégia é tentar que as pessoas levem a sério essa possibilidade, mesmo sem votarem nela. Uma questão de imagem e de perceção pode mudar tudo. E os sistemas políticos por esse mundo fora estão cheios de surpresas inimagináveis. Embora diga que não há impossíveis, olhando para os números, só um descalabro do PSD à imagem do que lhe aconteceu em Lisboa podia tornar esta tarefa possível.

É preciso que Rui Rio venha a ser um desastre tão calamitoso no país quanto Teresa Leal Coelho foi em Lisboa. E isso não parece ser um cenário provável. Cristas quer tornar o PSD no partido irrelevante que Rio queria evitar se Santana Lopes ganhasse. Resta saber se essa estratégia soma à direita ou se beneficia o PS na bipolarização à esquerda.

No mínimo, o CDS tinha de ir “roubar” uns 400 mil votos ao PSD. O melhor resultado do CDS foi de 16% em 1976 — com 876 mil votos. Em 2011, Paulo Portas obteve um excelente resultado com 11,7% e 654 mil votos. Só para comparar, o PSD de Pedro Passos Coelho conseguiu 38,6% em 2011 e 2,1 milhões de votos. Uma enormidade ao pé dos scores centristas. Quando o PSD teve um péssimo resultado com Pedro Santana Lopes, em 2005 — em que recebeu apenas 28,7% da escolha dos eleitores –, o sociais-democratas somaram 1,6 milhões de votos.

Ou seja, um dos piores resultados do PSD tem o dobro dos votos do melhor resultado do CDS.

Num total contraste com o PSD, Cristas também se antecipou: nos nomes para as legislativas, ao relançar Nuno Melo e a apontar Luís Pedro Mota Soares, dois pesos pesado para Estrasburgo. O facto de ter um terço de mulheres na direção também faz a diferença em relação à direção de Rui Rio. E a idade sub 45 dos escolhidos para colaborarem no programa eleitoral concorre com a direção do PSD, todos acima dos 50.

Se houve algum frisson para consumo interno com o debate sobre mais ou menos ideologia, mais ou menos direita,  Adriano Moreira ajudou a arrumar o assunto no primeiro dia quando foi homenageado. Sobejou um duelo entre o CDS liberal representado por Adolfo Mesquita Nunes e o líder da JP, Francisco “Chicão” Rodrigues dos Santos. Assunção Cristas perdeu em percentagem em relação ao congresso de Gondomar, mas não saiu menos líder de Lamego. Foi eleita presidente do CDS há dois anos. Mas só agora chegou, de facto, a líder. Até às eleições de 2019 está refém das suas palavras: “O sucesso mede-se em votos”.

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