O fim das compras de dívida no final de 2018 e o  (várias) subidas da taxa de juro em 2019. Este é o plano dos técnicos do Banco Central Europeu (BCE) para o caminho da normalização da política monetária, depois de vários anos de taxas ultra-baixas e intervenções inéditas do banco central nos mercados. Segundo a Reuters, o plano que foi apresentado ao Conselho do BCE na semana passada, terá agradado aos governadores oriundos dos países mais a norte, mas alguns do sul terão ficado desconfortáveis. Em nota divulgada esta segunda-feira, a gestora de ativos Schroders acredita que vêm aí três subidas da taxa de juro, já no próximo ano.

As fontes que falaram com a Reuters dizem que o plano é avançar com as subidas da taxa de juro de referência em meados de 2019 mas, a confirmar-se, essa será uma decisão que o BCE irá querer comunicar aos mercados com antecedência, pelo que taxas como as Euribor já poderão começar a subir, refletindo esta expectativa, muito antes desse momento.

O programa de compras de dívida nos mercados tem final previsto para setembro, mas a expectativa é que seja prolongado por mais alguns meses, até final de 2018. Nessa fase final, porém, a intervenção no mercado por parte do BCE será a um ritmo menor, de acordo com o planos: a expectativa é que o BCE compre entre 10 e 15 mil milhões de euros em dívida (títulos de dívida pública e pacotes de dívida privada) nesses últimos meses do ano.

Depois, o enfoque vira-se para as taxas de juro. Há vários anos que a taxa de juro de referência na zona euro é de 0%, o que significa que os bancos podem recolher toda a liquidez que quiserem junto do BCE (conforme a quantidade de ativos colaterais que apresentem como garantia) e daí não resulta o pagamento de qualquer taxa de juro. Por outro lado, o BCE tem a taxa inversa — a taxa dos depósitos — em terreno negativo (-0,4%). Isto significa que quando os bancos depositam no BCE os excessos de liquidez não só não são remunerados como pagam uma taxa.

As fontes da Reuters não falam sobre a taxa dos depósitos, mas tendencialmente à medida que a taxa de juro de referência subir o chamado “corredor” será mantido, ou seja, a taxa dos depósitos também deverá subir a um ritmo semelhante e acabar por sair de terreno negativo. Este é o plano, mas as fontes da Reuters adivinham um caminho algo turbulento na normalização dos juros, porque alguns países vão continuar a fazer pressão para que as taxas continuem em níveis baixos.

A pressão para subir as taxas de juro vem, por um lado, dos vários anos de políticas de estímulo — que, se se arrastarem muito tempo podem criar problemas — e, por outro lado, as notícias mais positivas que têm surgido na economia.

Os economistas dos bancos de investimento estão cada vez mais otimistas sobre as perspetivas económicas para o mundo, assumindo que não existem acontecimentos adversos como a intensificação do protecionismo económico nos EUA e noutros blocos. Esta segunda-feira, a Schroders reviu em alta as previsões de crescimento global para 3,5% em 2018 (era 3,3%) e 3,3% em 2019 (era 3%), o que se deve em parte ao pacote de estímulo fiscal lançado por Donald Trump.

Quando à zona euro, “os últimos dados económicos que foram divulgados confirmam a nossa expectativa de que a recuperação na Europa está a ganhar ímpeto e a generalizar-se”, afirma a Schroders. A gestora de ativos melhorou as projeções de crescimento em 2018 para 2,6% (era 2,3%) e em 2019 para 2,2% (era 1,9%).

Neste contexto de crescimento, a Schroders acredita que a taxa de inflação irá gradualmente aproximar-se do objetivo definido pelo BCE. Resultado: a taxa de juro de referência deverá subir três vezes, 25 pontos-base de cada vez, para fechar o ano de 2019 em 0,75%. Já a taxa dos depósitos, segundo a Schroders, deverá terminar o próximo ano em 0,25%.