Conflito na Síria

O que aconteceu e o que pode acontecer na Síria, depois do ataque contra Assad

Donald Trump declarou "missão cumprida", mas Síria e Rússia dizem que estragos são "menores". Russos alertam para "consequências", mas os EUA, França e Reino Unido rejeitam invadir a Síria.

O ataque aconteceu durante a madrugada deste sábado e atingiu três alvos: dois em Damasco, um em Homs

LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images

Os EUA, o Reino Unido e França atacaram alvos ligados ao esforço de guerra da Síria, em resposta ao alegado ataque químico lançado em Douma a 7 de abril. Os ataques foram anunciados, e justificados, por cada um dos líderes em discursos que foram transmitidos em simultâneo. A resposta russa não tardou, com promessa de “consequências” e referências a um “ato de agressão” contra um estado soberano. Apesar da escalada de tensão — que será visível numa reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU convocada pela Rússia —, os EUA e a Rússia fazem questão de sublinhar que não estiveram em confronto direto na madrugada de sábado. Além disso, as potências que atacaram a Síria garantem que não vão, nem querem, invadir o país.

O que aconteceu

Ação tripartida em reação a ataque químico em Douma. Os EUA, o Reino Unido e França lançaram um ataque que durou cerca de 1 hora e 30 minutos contra alvos militares sírios, nos arredores de Damasco e de Homs. O raide em Damasco visou um centro de investigação científica que fará parte do programa de produção de armas químicas sírio; o ataque em Homs visou um alegado centro de produção de do gás nervo-tóxico sarin e uma base aérea síria. O Ministério da Defesa da Rússia também dá conta de 12 mísseis dirigidos à base aérea de Dumayr, em Damasco, mas garante que conseguiu abatê-los a todos. Pouco depois de ter arrancado a ofensiva, os líderes de cada um daqueles países anunciaram a resposta ao alegado ataque químico em Douma, a 7 de abril, do qual terá resultado, pelo menos, 70 mortes e em mais de 500 feridos naquela cidade de Ghouta Oriental.

EUA, Reino Unido e França sublinham que ataque teve sucesso, Rússia e Síria desvalorizam e falam em estragos menores. A avaliação do impacto dos bombardeamentos desta madrugada varia consoante quem os faz. Donald Trump referiu que os EUA destruíram “20% da força aérea síria”. Da parte de França, que terá disparado 13 mísseis, o Governo referiu que “grande parte” do arsenal químico de Bashar al-Assad foi destruído. Mais tarde, num briefing do Pentágono, o tenente-general Kenneth McKenzie afirmou que foram lançados 105 mísseis e que “todos atingiram os seus alvos”. Por outro lado, a Rússia diz que foi disparado um total de 103 mísseis, dos quais conseguiu destruir 71. Segundo a Síria, foram disparados 110 mísseis que o seu sistema de defesa aérea conseguiu abater “a maioria deles”. Ainda assim, admite que “alguns dos mísseis” atingiram o centro de investigação de Barzzeh, em Damasco, onde terá feito “estragos materiais mínimos”. Em Homs, referiu que houve mísseis “forçados a desviar a sua rota” e que causaram ferimentos a três civis.

Os três países justificam ação como forma de dissuadir uso de armas químicas. Em discurso, Donald Trump explicou que o objetivo dos EUA é usar este ataque com o “um meio dissuasor contra a produção, proliferação e uso de armas químicas”, referindo que este é “um interesse vital da segurança nacional dos EUA”. Além disso, deixou uma mensagem aos dois maiores aliados da Síria: a Rússia e o Irão. “Que tipo de nação é que quer ser associada com o assassínio em massa de homens, mulheres e crianças inocentes? As nações do mundo podem ser julgadas pelas suas amizades”, avisou. Em Londres, Theresa May afirmou que “o regime sírio tem um historial de usar armas químicas contra o seu povo de forma cruel e aberrantes” e realçou que há “uma quantidade significativa de informação” que indica que Bashar al-Assad é responsável pelo ataque em Douma. A primeira-ministra britânica acrescentou que “teria preferido um caminho alternativo, mas nesta momento não há nenhum”. Em Paris, Emmanuel Macron disse: “Não podemos tolerar a trivialização das armas químicas, o que é um perigo imediato para o povo sírio e para a nossa segurança coletiva”.

Bashar al-Assad fala em “mais empenho” para combater “terrorismo” e vai trabalhar na “manhã de resiliência”. Apesar de ainda não ter feito nenhum discurso ou comunicado após o ataque desta madrugada, o Presidente da Síria terá dito ao líder iraniano e seu aliado na guerra, Hassan Rouhani, que “esta agressão só serve para fazer com que a Síria e o seu povo fiquem ainda mais empenhados na luta contra o terrorismo que assola o país”. Esta citação foi veiculada pela Sana, agência de notícias estatal síria. No seu canal no Telegram, aplicação de envio de mensagens, Bashar al-Assad divulgou imagens suas a chegar ao trabalho esta manhã. As imagens foram acompanhadas com uma legenda que dizia: “Manhã de resiliência”. Em Damasco e em Alepo, houve manifestações de apoio a Bashar al-Assad e de condenação à ação militar desta madrugada.

Manifestação em Alepo, este sábado de manhã, de apoio a Bashar al-Assad e repúdio ao ataque dos EUA, França e Reino Unido (GEORGE OURFALIAN/AFP/Getty Images)

Rússia não cumpriu a ameaça de retaliar contra a proveniência dos ataques. Ao contrário da ameaça que fez durante a escalada de tensões desta semana, a Rússia não atacou os locais de onde os ataques dos EUA, Reino Unido e França foram lançados. A promessa foi feita pelo embaixador da Rússia no Líbano, Alexander Zasypkin, que disse: “Se houver um ataque dos americanos, os mísseis serão abatidos e também o local de onde eles foram disparados”. Porém, nada disto chegou a acontecer — não há relatos de incidentes no Mediterrâneo, a partir do qual os EUA e o Reino Unido atacaram; nem na Jordânia, onde fica a base aérea utilizada por França esta madrugada. Segundo a Rússia e a Síria, houve mísseis abatidos — mas a Rússia sublinha que estes foram abatidos apenas por ação da Síria.

Apesar da tensão, Rússia e EUA procuram sublinhar que não estão em confronto direto. No rescaldo do ataque, o Ministério da Defesa russo sublinhou que o ataque foi repelido pelo “sistema de defesa aéreo sírio”, que, apesar de ser de fabrico russo, não foi manejado pela Rússia na resposta a este ataque. Além disso, o Ministério da Defesa da Rússia refere que “nenhum” dos mísseis lançados “pelos EUA e pelos seus aliados” entrou na “zona de responsabilidade das forças aéreas russas”, que incluem a porto de Tartus e a base aérea de Khmeimim, em Latakia. Também no espírito de garantir que este não foi uma ação contra a Rússia, o secretário de Defesa diz que esta ação foi dirigida apenas “contra a Síria”.

Rússia fala em “ato de agressão” e alerta para “consequências”. A primeira reação por parte de Moscovo partiu do embaixador da Rússia nos EUA. Anatoly Antonov disse que a Rússia estava a “implementar um cenário previamente desenvolvido” para situações deste tipo. “Estamos a ser ameaçados. Alertamos que ações deste tipo não vão ficar sem consequências”, acrescentou. Mais tarde, chegou a reação do Kremlin. Em comunicado, o Presidente da Rússia afirmou que o ataque era “um ato de agressão” e que terá uma “influência destrutiva em todo o sistema das relações internacionais”. Mais tarde, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo sublinhou que “estão reunidas todas as razões para acreditar que o objetivo do ataque na Síria era obstruir o trabalho dos investigadores da Organização para a Proibição de Armas Químicas”. Os especialistas da OPCW (sigla inglesa) tinham previsto chegar a Douma este sábado.

O que vai (e o que o pode) acontecer

Só vai haver novos ataques se o regime sírio voltar a usar armas químicas. Em declarações à imprensa, o secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, referiu que estes ataques foram “isolados” e garantiu que “neste momento [os EUA não têm] mais ataques planeados”. “Acredito que enviámos uma mensagem muito forte para dissuadi-lo [a Bashar al-Assad] para não voltar a fazê-lo [lançar ataques químicos] de novo”, disse numa conferência de imprensa. Assim, respondeu que a possibilidade de haver novos ataques norte-americanos “depende do senhor Assad e se ele decidir que deve usar mais armas químicas no futuro”.

EUA, França e Reino Unido deixaram claro que não vão invadir a Síria. Neste momento, entre as nações que atacaram a Síria esta madrugada, só os EUA têm tropas no terreno (um total de 2 mil soldados das Forças Especiais), onde combatem grupos terroristas como o Estado Islâmico. O Reino Unido e França também lá estão, mas apenas com meios aéreos. Do que se pode retirar dos discursos feitos por Donald Trump, Theresa May e Emmanuel Macron, nenhum dos países pretende intensificar a sua ação na Síria, rejeitando assim cenários como o destacamento de (mais) tropas. “Não há sangue ou dinheiro americano que chegue para produzir uma paz e segurança duradouras no Médio Oriente. É um sítio problemático”, disse Donald Trump, que acrescentou que “o futuro da região está nas mãos do seu povo”. Theresa May disse que “isto se trata de intervir numa guerra civil, isto não se trata de mudar um regime”, acrescentado que o ataque desta madrugada é “limitado e dirigido”. E Emmanuel Macron referiu que a resposta da Síria “limitou-se a atingir a capacidade do regime sírio que lhe permite produzir e utilizar armas químicas”. A ideia de que, para já, tudo vai ficar por aqui no que respeita a esta aliança tri-partida foi reforçada por Donald Trump no Twitter, onde declarou: “Missão cumprida”.

Assad pode ter alcance militar mais diminuído, mas dificilmente perde o controlo da guerra. A fazer fé nas avaliações dos EUA, Reino Unido e França, o ataque desta madrugada foi suficiente para provocar alguns estragos no poderio militar de de Bashar al-Assad. Os EUA falam de uma destruição de 1/5 da força aérea da Síria, ao passo que a França diz que “grande parte” do arsenal químico do ditador sírio foi destruído. Porém, este não é um ataque de proporções significativos, pelo menos ao ponto de levar o regime a perder o rumo da guerra iniciada em 2011. Primeiro, porque não foram atingidos meios dos seus maiores aliados, Irão e Rússia, cuja entrada na guerra permitiu ao regime sírio dar a volta a uma guerra que lhe fugia das mãos. Depois, porque os avanços militares da aliança pró-síria continuam a ser visíveis no terreno. Prova disso, foi a reconquista da totalidade de Ghouta Oriental por parte de Bashar al-Assad, como foi anunciada esta quarta-feira.

Conselho de Segurança da ONU reúne de emergência, sem desenlace à vista. A pedida da Rússia, o Conselho de Segurança da ONU vai reunir-se este sábado, de emergência, às 11h00 de Nova Iorque (16h00 de Lisboa). Este tem sido o órgão da diplomacia internacional onde a guerra na Síria tem sido mais discutida — mas nem por isso tem dado origem a decisões que permitam desbloquear ou mesmo apaziguar a guerra civil. Naquele órgão, os três países que se aliaram no ataque contra a Síria — EUA, França e Reino Unido — são membros permanentes, tal como a Rússia. Espera-se uma troca de argumentos acesa, com a participação de altos representantes de parte a parte — até porque os russos já se queixaram de que aqueles ataques não tiveram a aprovação do Conselho de Segurança. Porém, muito dificilmente serão tomadas decisões, ou serão anunciadas posições, que possam mudar o curso da guerra na Síria. Para já, com o atual bloqueio que marca o statu quo da diplomacia e geoestratégia do Médio Oriente, as únicas mudanças expectáveis a curto e médio prazo são no terreno.

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