Caso Ricardo Robles

As críticas que Ricardo Robles fazia à “especulação imobiliária” que lhe pode dar milhões

8.649

Bloquista quer vender "a breve trecho" por 5,7 milhões de euros uma casa comprada por 347 mil. Recorde os maiores ataques políticos de Robles à especulação imobiliária, de que pode agora beneficiar.

Rodrigo Antunes/LUSA

O vereador do Bloco de Esquerda (BE) na Câmara de Lisboa, Ricardo Robles, está perante uma possível mais-valia superior a quatro milhões de euros, partilhada com a irmã, graças à venda de um prédio em Alfama que comprou à Segurança Social em meados de 2014. O bloquista defende que “não existe qualquer contradição” entre este possível negócio e as posições defendidas publicamente.

Robles tem na luta contra os despejos e a especulação imobiliária uma das suas principais mensagens políticas. Aliás, poucas horas antes de a notícia do Jornal Económico ser publicada, o dirigente bloquista dizia-se “do lado dos moradores” na luta contra o “bullying e a especulação imobiliária” — este era o seu comentário a um texto publicado no site Esquerda.net sobre um prédio em Lisboa, na zona de Marvila, que foi comprado por dois milhões de euros e três semanas depois foi posto à venda por sete milhões.

O vereador bloquista recusa, contudo, que o negócio que fez com a irmã (da compra à Segurança Social do prédio em Alfama) seja um caso de especulação imobiliária ou de desrespeito pelo direito à habitação. Em linha com os argumentos transmitidos ao Jornal Económico, o bloquista usou a mesma rede social, às primeiras horas desta sexta-feira, para se defender:

A mais-valia que será feita quando o prédio for vendido, por “constrangimentos familiares”, é uma consequência da valorização exponencial dos preços do imobiliário em Lisboa. Uma valorização exponencial de que Robles irá tirar partido mas cujos fundamentos há muito critica — designadamente a procura no segmento do alojamento local, sobretudo por estrangeiros que procuram muito zonas como Alfama, onde Robles tem o prédio.

Numa entrevista à Rádio Renascença, publicada em julho de 2017, em plena campanha eleitoral, Ricardo Robles dizia: “Em Santa Maria Maior, a freguesia do centro histórico [onde se inclui Alfama], uma em cada cinco casas estão em regime de alojamento local e isto cria uma drenagem de disponibilidade de habitação absolutamente brutal para quem quer viver na cidade e faz subir o preço do arrendamento em flecha como temos assistido”.

[O que mudou? Veja no vídeo o antes e agora de Ricardo Robles]

Sobem os preços do arrendamento, lamentava o bloquista, e essa valorização anda de mãos dadas com o encarecimento dos preços na venda — porque muitos negócios de compra e venda são feitos na perspetiva de arrendar e daí retirar um rendimento. Na mesma entrevista à Renascença, Robles comentava: “Foram vendidos 100 imóveis [da Câmara] entre 2013 e 2015, no valor de 33 milhões de euros, e não há um que seja para renda acessível. A CML transformou-se numa agência imobiliária que contribui para a especulação na cidade mas que não dá nenhum contributo para resolver o problema da habitação.”

Durante a campanha para as autárquicas, entrevistado no Carpool do Observador, Ricardo Robles falava no “carrossel da especulação imobiliária” como um fator que estava a colocar em causa o direito das pessoas à habitação. Nessa mesma entrevista, o candidato do Bloco de Esquerda a Lisboa dizia: “Uma proposta que temos é refletir-se no Plano Diretor Municipal (PDM) a obrigatoriedade que, sempre que há construção nova ou uma grande intervenção de reabilitação, reservar 25% ou uma percentagem a definir de fogos a custos controlados. O promotor quando faz uma obra sabe que tem taxas municipais, sabe que tem cedências de espaço público e sabe que tem uma responsabilidade sobre a habitação em Lisboa”.

Já em março de 2018, altura em que já era vereador da câmara, o bloquista admitia que “o problema da habitação tem-se vindo a agravar em Lisboa”. Em entrevista ao Diário de Notícias, Robles afirmou: “Os preços continuam a aumentar brutalmente e isto está a criar uma crise social. Encontrar casa, seja para arrendar seja para compra, apesar de o crédito para a habitação estar mais acessível, continua a ser proibitivo”.

Esta é uma cidade cada vez mais para ricos e menos para lisboetas e para quem quer viver na cidade, para trabalhar, morar, estudar”, dizia Robles, em março de 2018.

Ao mesmo jornal, mas em 2017 (antes das autárquicas), Ricardo Robles dizia que a política de Fernando Medina na área da habitação era uma política que, “no essencial, tem falhado”. “Há uma visão especulativa: os terrenos, os prédios de Lisboa são para negócio, não são para habitação, não são para quem quer viver na cidade. E isso não é uma política de esquerda“.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: ecaetano@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)