É uma escola, mas não parece. Os mais distraídos diriam que se podia confundir com um centro comercial. Tem ginásio, uma clínica médica, um food court, um banco, um supermercado do futuro, um espaço para concertos e muitas esplanadas, com vista para o mar. Também tem salas de aula: 55 salas, 26 anfiteatros e um espaço de estudo aberto 24 horas por dia. Mas não é só o produto final que difere muito de uma universidade “tradicional”: também o processo de construção do espaço de 90 mil metros quadrados esteve longe de ser um processo “típico”. A câmara municipal de Cascais cedeu o terreno, o projeto foi desenhado e, voilà, os donativos apareceram: assim se reuniram perto de 50 milhões de euros, entre capital cedido por empresas e donativos individuais de ex-alunos que, dependendo da quantia, passaram a ter o seu nome num banco de jardim ou numa das esplanadas do campus.

A inauguração do novo campus da Nova School of Business and Economics (SBE) decorreu este sábado, estando já a receber cerca de 3 mil alunos de licenciatura, mestrado, doutoramento e MBA. Mas não só. A ideia é abrir a escola a toda a gente — estudantes e não estudantes. Eis algumas curiosidades sobre a nova casa da Universidade Nova SBE, que se mudou de um antigo colégio de jesuítas em Campolide para uma construção moderna envidraçada em Carcavelos, com vista desafogada para a praia.

Acesso direto para a praia

A praia de Carcavelos avista-se dos auditórios e de algumas salas de aula cuja parede é em vidro, mas a ideia de praia não se resume à vista. É que, no projeto que começou em 2016, da autoria dos arquitetos António Barreiros Ferreira e Vítor Carvalho Araújo, estava também contemplada a construção de um túnel que liga o campus à praia.

Na inauguração, que decorreu este sábado, o Presidente da República até gracejou com o facto de a escola de gestão e economia se poder vir a transformar numa escola de surf. Mas, se assim fosse, não havia problema. “Até ouvi dizer que podia haver o risco de rapidamente se transformar numa escola de surf, o que a mim não me complexava nada, sempre compatibilizei a academia com o surf e o body board”, garantiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Uma espécie de centro comercial com uma faculdade dentro

A ideia, segundo explicou o reitor Daniel Traça em várias entrevistas, sempre foi “abrir o espaço à comunidade em geral” e não apenas aos alunos. Daí que a faculdade receba cerca de 3 mil alunos no atual ano letivo, mas preveja estar preparada para acolher 5 mil pessoas nas suas instalações.

O espaço está concebido não só para que os estudantes tenham todas as comodidades de que necessitam para passarem o dia no novo campus, como também para quem não estuda ali possa lá passar algum tempo. É que, além das salas de aula, existe um “food-court” com vários restaurantes, um ginásio, uma clínica médica CUF, uma “loja do futuro” da Jerónimo Martins, que será uma espécie de “Amazon Go”, um supermercado futurista sem funcionários na caixa, um espaço de co-work, muitas esplanadas, um banco Santander, espaços para exposições e uma EDP Plaza, uma praça no exterior com espaço para concertos. Tudo rodeado de relvados, com wifi acessível em todos os 90 mil metros quadrados do campus.

Quem circula pelo recinto parece ter a sensação de estar num centro comercial, mas, apesar das muitas marcas que patrocinaram a construção e, como tal, terem espaços com o seu nome, ali não há lugar a logótipos. Ou seja, apesar de o auditório Jerónimo Martins ser o maior de todo o campus, com 400 lugares, o nome da marca aparece com letras brancas discretas, tal como o nome de todos os restantes auditórios e salas, não há nenhum logótipo que remeta para a marca.

Salas de aula inspiradas em Harvard

55 salas de aula, 26 auditórios, uma biblioteca de dois andares, um edifício de estudo aberto 24 horas por dia, e 26 anfiteatros, a maior parte com capacidade para “80 a 90” pessoas, dois deles com capacidade para 180, e um grande auditório com 400 lugares. Segundo explica Marta Assunção, diretora de marca e comunicação da Nova SBE, ao Observador, toda a construção das salas e dos edifícios foi pensada para refletir o modelo de interação aluno-professor. “São espaços grandes, amplos, transparentes, abertos à comunidade”, diz, explicando que o objetivo é “não ser uma escola fechada em si mesma mas aberta à comunidade, potenciando a interação dos alunos com o mundo empresarial e enriquecendo desse modo o seu percurso”.

Foi precisamente à boleia deste espírito que os anfiteatros do novo campus foram construídos, replicando o modelo estudado por Harvard. “Mais do que ter uma sala onde estava um professor com 400 alunos, como tínhamos em Campolide, queríamos um modelo para as salas de aula que promovesse a interação entre professor e aluno num ambiente mais acolhedor. Foi assim que deparamos com um extenso estudo de Harvard, que foi colocado online e que concluía qual era o modelo ótimo de anfiteatro”, explica Marta Assunção.

Os arquitetos “replicaram totalmente o modelo de Harvard”: salas em “U” com características específicas ao nível do som e da acústica, não demasiado grandes (para cerca de 80 a 90 pessoas), com o acrescento de, em alguns casos, terem vista direta para o mar.

Uma incubadora de startups

O novo campus conta ainda com um espaço dedicado a startups, intitulado Venture Lab. Segundo uma nota enviada à imprensa ainda durante a construção do campus, o espaço era apresentado como um centro de empreendedorismo e inovação, com a missão de se tornal um catalisador de inovação da escola para empreendedores internacionais e empresas. Marta Assunção acrescenta ao Observador com uma startup inglesa já está a funcionar na incubadora do campus. O Venture Lab ter ainda o seu próprio programa de aceleração de startups, intitulado Zero Gravity.

O objetivo, explica Marta Assunção, é “estabelecer sempre mais ligações entre a academia, os alunos, o ecossistema de startups e o mundo corporativo”.

Super-crowdfunding. Uma construção com donativos e batismos

Além dos terrenos que foram cedidos pela câmara de Cascais, a construção do campus foi financiada por uma campanha de super-crowdfunding. Ou seja, deu dinheiro quem quis. No total, foram mais de 37 empresas e, segundo se lê na página da campanha, mais de 1400 doadores individuais (o valor mínimo para a doação era de 50 euros). A partir dos mil euros, os donativos passavam a ter reconhecimento físico no campus, o que significa que cada banco de jardim, sala, auditório ou praça é batizado com um nome em homenagem a quem o pagou (não literalmente).

António Casanova, por exemplo, antigo aluno e presidente da Unilever Espanha, com o seu donativo, escolheu dar o nome a um terraço com vista para a praia, que assim se passou a chamar-se Casanova Chill Out Terrace. No total, segundo se lê na página oficial da campanha de financiamento, foram já doados mais de 42 milhões de euros, de um total desejado de 50 milhões.