“É este o homem que te contempla, José. Que te fuma. Que te duvida”.

Assim fecha o texto “E Agora, José?”, de José Cardoso Pires, escrito a partir de um mote dado, em poema, por Carlos Drummond de Andrade e incluído no livro como o mesmo título, editado em 1977. É um fazer contas à vida, um balanço – pessoal, político, existencial — de quem se olha ao espelho na metade da vida. Passam agora 20 anos da sua morte. Perguntamos nós, diante do espelho dos seus livros: e agora, José?

Basta folhear ao acaso os volumes para ter uma resposta inequívoca, que tanto dá para leitores como para escritores. É sempre urgente ler Cardoso Pires, pela qualidade da sua escrita sem ganga e por uma humanidade escrita com rigor, alcançado depois de muitas tentativas e erros múltiplos. Lembre-se, a propósito, neste instante evocativo, que não escreveu nada com a pluma da leviandade. Como lembra uma das suas duas filhas, Ana Cardoso Pires, havia nele suor até em cartas que escrevia à EDP. “Uma vez demorou uma manhã para escrever dois parágrafos”.

Estão a ser preparados diversos eventos, promovidos pela Câmara Municipal de Lisboa, para celebrar a sua obra e recordar a sua vida – da colocação online, pela hemeroteca, de tudo o que de relevante se produziu sobre os seus livros (críticas positivas e negativas) à digitalização da revista “Almanaque”,  passando por uma exposição de fotografia de Eduardo Gageiro, pela reedição de “Lisboa, Livro de Bordo” e por uma sessão de testemunhos de gente próxima.

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É provável que Rogério Rodrigues, amigo desde o tempo dos jornais (Diário de Lisboa e O Jornal), lembre o homem de quem foi próximo, a estreia de “Corpo Delito na Sala de Espelhos”, que contou com a presença de Salgado Zenha e Octávio Pato, o momento em que viu Pires a consolar Dinis Machado num bar perto do Colégio Sagrado Coração de Maria. As suas preferências gastronómicas, como o sável, o polvo e o atum de barrica, ou etílicas (sim, whisky, como o Famous Grouse). O episódio com o empreiteiro-comparsa durante o internamento hospitalar que lhe contou ter em casa alguns exemplares do romance O Delfim por superlativas razões literárias — o facto de se chamar Delfim. O instante em que deu uma volta com José, quando este já estava de cadeira de rodas, pela sua Lisboa, aquela Lisboa rufiona, entre a Praça do Chile e a Almirante Reis, cheia de figurões como o Al Capone da Conceição, o Mil e Quinhentos e o Martins Mãos de Seda (carteirista, claro está). E é possível também que Rogério diga que ficou comovido quando, certa vez, viu o autor de O Anjo Ancorado, um homem “de ternura escondida”, com um neto às cavalitas. (A filha também fala desse “homem meigão”, com alguma dificuldade em expressar os afectos, a dar beijinhos e abraços aos seus, muitas vezes a despropósito e com movimentos abrutalhados).

Só andando à caça, para usar uma expressão de Ana Cardoso Pires, é que o escritor se tornou capaz de reproduzir as características e as falas de inúmeros tipos, muito diferentes do que era. “Personagens como o Palma Bravo (o marialva de O Delfim) não frequentavam a nossa casa. Eram inspiradas em quem ele encontrava por aí”. É sabido que saía muito, que gostava de conversas pela noite, de envolvimentos. É conhecido que frequentava bares, como o João Sebastião Bar, e outros, de hotel, a partir dos quais podia observar as contradições humanas e o seu circo de tiques. Ana recorda o método e as suas regras: enquanto andava à caça da vida, fazia noitadas, bebia copos. Quando escrevia, recolhia-se e só bebia leite e chá.

Ninguém na família, como sublinha a filha, achava que o pai era uma pessoa perfeita e ideal. “Mas todos sabíamos que nas alturas em que era preciso estar, estava sempre. Nunca faltava. Se alguém nos fizesse alguma coisa, era como um leão protector”. Que ensinamentos deixou? Vários: “O dever de as pessoas procurarem a coerência todos os dias, no sentido de atingirem o máximo da sua capacidade, a convicção de que nunca se deve trair um amigo ou maltratar quem está na mó de baixo”.  Em todo o caso, assume Ana, o que mais lhe ficou foi a informação nunca dita, aquela que dispensa palavras para se conseguir entranhar.

Mas voltemos à obra para referir que as comemorações também contarão com uma conversa, animada pelo editor Manuel S. Fonseca, pela professora Maria Fernanda de Abreu e pelo escritor (e amigo) António Lobo Antunes, à volta de um livro que chegou por estes dias às livrarias: José Cardoso Pires e o Leitor Desassossegado, tese de mestrado de Marco Neves, publicada pela Guerra & Paz.

Qual o legado literário de José Cardoso Pires para o autor do livro, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa? Na resposta, começa por fazer um comentário de ordem genérica: “Deixou-nos poucos livros, mas acredito que estes romances e contos serão lembrados como obras fundamentais do século XX português”. Depois faz uma digressão por alguns, comentando-os e identificando o que considera serem as suas marcas: “Num romance como Alexandra Alpha pinta a sociedade da capital, com todas as suas inseguranças, as suas contradições, os seus tiques de linguagem. Em O Delfim, deixa a nu uma certa imagem de português marialva e em Balada da Praia dos Cães trata o país como se fosse um policial”.

“José Cardoso Pires e o Leitor Desassossegado”, de Marco Neves (Guerra & Paz)

A forma como trata a língua portuguesa e o seu poderosíssimo sentido de observação dos bichos humanos são muito valorizados: “O narrador é multiforme e alimenta-se de todos os discursos e de todas as vozes da cidade e do país”. E a dimensão lúdica também: “São obras que brincam com a língua, brincam com o leitor e estão profundamente empenhadas no país”. Aliás, um dos argumentos mais presentes em José Cardoso Pires e o Leitor Desassossegado é a contestação radical da ideia de que o seu projecto literário, ao cortar relações com o neo-realismo, se distanciara de qualquer preocupação política e social. Página 127: “Aproxima-se do neo-realismo no empenhamento ideológico e na visão dialéctica do mundo. Mas afasta-se ao desconfiar tremendamente de certezas e de ‘optimismos históricos’ de qualquer espécie”. Prefere, na sua vocação subtilmente indagadora, tão irónica como comprometida, interrogar o passado, o presente e o futuro. Fazer perguntas ao tempo. Passadas que estão duas décadas da sua morte, é uma boa altura para absorver ou rememorar tudo isso.

Nuno Costa Santos é escritor e argumentista. Autor de livros como “Céu Nublado com Boas Abertas” e “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” e de documentários como “Ruy Belo, Era Uma Vez” e “Ruy Jervis d’Athouguia: um Moderno Por Descobrir”.