Vamos pôr em praça a 2.800 euros. 3.200 ali atrás. 3.500. 3.800! 4.000 ao meu lado direito. 4.500! Vai uma, vai duas… Vou vender a 4.500. Vendido à raquete 138!

Que apoteose! Em menos de uma hora foram leiloados 35 lotes, com o último, constituído por um Apothéose Bastardinho com uma média de 80 anos, a ser colhido por 4.500 euros. Esta quinta-feira à noite, a José Maria da Fonseca realizou o quarto leilão do século XXI e, levantadas todas as raquetes, dos bolsos das mais de 100 pessoas ali presentes saiu um total de 67.300 euros. Discursos rápidos, contas acertadas, raquetes levantadas insistentemente, compradores do outro lado do telefone e lotes renhidos: o leilão foi um espetáculo de adrenalina ao vivo. E o vinho foi o mote.

O momento mais intenso da noite foi antecedido por um jantar na Adega dos Teares Novos, na Casa Museu da JMF, em Vila Nogueira de Azeitão. Para receber as muitas dezenas de interessados, gerentes de garrafeiras e colecionadores incluídos, foram montadas dez mesas de 12 lugares entre enormes cascos velhos, onde estagia, entre outros vinhos tranquilos, o muito conhecido Periquita. A meio do corredor de mesas foi montada uma estrutura onde parte dos vinhos a leilão foram expostos, para que não houvesse dúvidas da autenticidade e raridade dos rótulos.

Ao todo, 124 garrafas foram a leilão, incluindo 100 rótulos de Moscatel Roxo Superior 1918.

O jantar foi particularmente importante para ficar a conhecer o Moscatel Roxo de Setúbal Superior de 1918, a estrela da companhia. A sexta e sétima geração da família à frente da histórica produtora escolheu este Moscatel Roxo de forma a homenagear Fernando Soares Franco — a data da colheita coincide com o seu nascimento. Mas esta não é apenas uma questão de números: foi Fernando Soares Franco, pai de António e de Domingos Soares Franco, quem resgatou a casta Moscatel Roxo da extinção nas décadas de 1970 e 1980. “O Moscatel Roxo, se ainda existe, deve-se ao meu pai. Quando a uva estava quase a fechar os olhos, ele salvou-a”, palavras de António, num dos discursos da noite.

Foram produzidas 184 garrafas numeradas deste Moscatel, edição especial que comemora também os 184 anos da empresa. Ao leilão — evento que, apesar da raridade, diz respeito a uma longa tradição de família — chegaram apenas 100 rótulos que foram espalhados por diferentes lotes, onde também constavam colheitas antigas de Moscatel de Setúbal e aguardentes. O primeiro lote, com apenas uma garrafa de Moscatel Roxo de Setúbal Superior de 1918, entrou em praça por 350 euros e rapidamente chegou aos 900 euros. 1.800, 2.000, 2.600 e 2.800 euros — alguns dos lotes foram mais renhidos do que outros, mas nenhum foi como o último.

O Moscatel Roxo Superior 1918 foi licitado, individualmente, a 900 euros. A licitação mais alta da noite foi, porém, uma garrafa de Apotheóse Bastardinho, com mais de 80 anos.

A tal garrafa de Apothéose ficou para o fim. Quando António Soares Franco temeu pela ausência de referência ao vinho no discurso de Domingos Soares Franco, momentos antes do leilão, levantou-se com tanta urgência que a mesa balançou e o longo candelabro posicionado no centro quase tombou no chão. O receio era válido e Domingos acabaria por explicar como, quando a vasculhar a valiosa e antiga coleção da JMF, encontrou um “casco fenomenal”. Tão fenomenal que só será lançada uma garrafa de Apothéose por ano durante os próximos 39 anos, para que a bebida que o enólogo não consegue descrever e que jura “vir cá de dentro” chegue às próximas gerações.

As palavras bonitas renderam quando a Garrafeira Nacional fez a licitação mais alta da noite e pagou 4.500 euros pelo tão especial Bastardinho, um vinho também ele licoroso. Ao Observador, Jaime Vaz, que gere a cadeia de garrafeiras, explicou que, em média, participa uma vez por mês em leilões — sejam eles presenciais ou virtuais. E apesar da quantia gorda cedida esta quinta-feira, garantiu já ter dado muito mais por vinhos de Bordéus e da Borgonha (valores tão abismais como 15.000 ou 20.000 euros). E o que acontece ao Bastardinho que domou a noite? “Vai ficar em exposição na sede, na rua de Santa Justa. Depois, logo se vê.”