Enviado especial ao Vaticano

O Papa Francisco disse esta manhã a quase duas centenas de líderes católicos reunidos no Vaticano para debater os abusos sexuais na Igreja que a hierarquia católica tem de ir além das “simples e óbvias condenações” dos crimes, tomando “medidas concretas e eficazes”.

“O santo povo de Deus olha para nós e espera de nós, não simples e óbvias condenações, mas medidas concretas e efetivas”, disse o líder da Igreja Católica no arranque da cimeira inédita que reúne, até domingo, no Vaticano, 190 presidentes das conferências episcopais e outros líderes de estruturas locais da Igreja de todo o mundo.

“Perante a praga dos abusos sexuais perpetrados por homens da Igreja contra menores, pensei em chamar-vos, patriarcas, cardeais, arcebispos, bispos, superiores religiosos e responsáveis, para que, juntos, ouçamos o Espírito Santo e, com a sua orientação, ouçamos o choro dos pequenos que pedem justiça”, disse o Papa Francisco.

O Papa argentino apelou ainda à “criatividade” dos presidentes das conferências episcopais na procura de soluções para melhorar as orientações atualmente existentes na Igreja Católica.

“No nosso encontro, pesa sobre nós o peso da responsabilidade pastoral e eclesial, obrigando-nos a discutir juntos, de uma forma sinodal, sincera e aprofundada, sobre a forma de encarar este mal que aflige a Igreja e a humanidade”, acrescentou o Papa Francisco.

A cimeira de líderes católicos sobre a responsabilidade da Igreja na questão dos abusos sexuais foi convocada pelo Papa Francisco em setembro do ano passado, após um dos anos mais duros para a Igreja Católica no que toca a este problema — sobretudo com os escândalos à volta do cardeal norte-americano Theodore McCarrick e a divulgação dos resultados de investigações nos Estados Unidos.

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, está presente na reunião em representação de Portugal. Esta quarta-feira, antes de partir para Roma, Clemente disse em entrevista à Agência Ecclesia que se encontrou com uma vítima de abusos sexuais por parte do clero nos últimos tempos. “Se fomos parte do problema, agora temos de ser parte da solução”, disse D. Manuel Clemente.

“Falta de resposta ao sofrimento das vítimas deixou ferida profunda”, admite cardeal

Durante a manhã do primeiro dia, os líderes católicos ouviram testemunhos em vídeo de cinco vítimas de abusos sexuais: um homem sul-africano, uma mulher africana, um padre da Europa de leste, um homem norte-americano e um homem asiático — cujas identidades o Vaticano não revelou.

Os primeiros discursos foram proferidos pelo cardeal filipino Luis Antonio Tagle e pelo arcebispo maltês Charles Scicluna.

Tagle falou da importância de reconhecer o sofrimento das vítimas. “A nossa falta de resposta ao sofrimento das vítimas, sim, até ao ponto de as rejeitar e de encobrir o escândalo para proteger os abusadores e a instituição, magoou as nossas pessoas, deixando uma ferida profunda na nossa relação com aqueles que fomos enviados para servir”, afirmou o cardeal aos representantes das estruturas da Igreja de todo o mundo.

Já o arcebispo Scicluna, principal investigador do Vaticano para os casos de abuso sexual, fez uma comunicação sobre os procedimentos que devem ser adotados em caso de denúncias de abuso sexual.

“A comunidade de fé que está ao nosso cuidado tem de saber que falamos a sério. Deveriam aproximar-se de nós sabendo que somos amigos da sua segurança e da das crianças e dos jovens. Vamos comprometer-nos com eles, com franqueza e humildade. Vamos protegê-los a todo o custo. Daremos as nossas vidas pelos rebanhos que nos foram confiados”, disse Scicluna.